28 jan

Depressão – Desejo de Nada

      A depressão é vista hoje quase como uma epidemia deste fim de século. Os estados depressivos ocorrem em algum momento na vida de uma pessoa. A cada momento há algo que se pode perder provocando a dor. A dor provoca um recolhimento do sujeito que deixa de se interessar pelas coisas do mundo, enquanto sofre deixa de amar.

Freud configura o sofrimento como uma experiência de auxílio e compara o luto a dor. Tanto no luto como nos estados depressivos (melancolia) trata-se de uma perda. A morte é o tema frequente da tristeza e da melancolia. A depressão poderá ser desencadeada após o parto, perda de um emprego, na terceira idade com a aposentadoria ou com a morte de alguma pessoa próxima.

Na depressão o sujeito entra a princípio num quadro de luto normal (independente do que ou quem tenha perdido) e pouco apouco vai se instalando o quadro malancólico, evidenciando-se que não se trata de uma perda que poderá ser simbolizada, havendo para este um culto a pulsão de morte, um desejo de retornar ao inanimado. Para essas pessoas, acordar, sair da cama e viver mais um dia tornar-se um fardo insustentável.

A perda está para todo ser vivente, é condição de existência, ou seja, é por não ser completo que o homem deseja e encontra forças para seguir vivendo. A perda sempre coloca em questão uma falta que é fundamental a existência. Se o ser humano vive numa nostalgia se ser completo, negando a falta, que é condição de existência, não deseja, está morto para a vida. O que a depressão nos mostra é que a falta dói. Trata-se então da dor de existir.

No caso do enlutado é diferente, o trabalho de luto fará com que o sujeito retire o investimento libidinal do objeto perdido e reinvista em outro objeto, ou seja, erija um outro ideal do eu, seja abstrato ou um objeto de amor.

No quadro depressivo, esse reinvestimento libidinal não ocorre, pois o melancólico se identifica com o objeto perdido, ficando este como uma sombra. A perda do melancólico é indefinida, pois ele sabe que perdeu algo, mas não sabe o quê. Freud fala, referindo-se ao melancólico, como o “trabalho interior que devora o eu” e, diferenciando-se do luto, não investe em novo objeto. Nos quadros depressivos, o objeto perdido fica ilusoriamente sendo o único capaz de tornar esse sujeito feliz, porém se este objeto esta perdido, o que esses sujeitos querem é o impossível.

Há um saber sobre essa dor que na clínica os pacientes nos trazem. E assim como Jacques Lacan descreve e já apontado por Freud, o que a psicanálise propõe aos deprimidos, entediados e melancólicos é a retomada de uma clínica que leve em conta o desejo de saber o que lhes causa e serem escutados para que sua tristeza possa ser realmente liquidada.

Maria Helena Seibt
Psicanalista – Tel. (0xx11) 3887-9462

 

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