28 jan

Análise com Crianças

Em que momento uma criança é trazida para análise? No momento em que o sintoma da criança incomoda seus pais, é caracterizado uma demanda dos pais a um analista. Como a primeira demanda será sempre dos pais ou dos adultos que se responsabilizam pela criança, já que esta não vem sozinha à análise, é necessário que escutamos esses pais. A transferência também precisa ser dos pais ao analista, estes vem buscar uma solução ao seu incômodo, tentando “entregar” o filho para o analista resolver o “problema”.
O analista precisa escutar essa demanda e transformá-la em transferência, implicando estes pais nas queixas e sintomatologia do filho.

Em geral, os pais negam o próprio desejo em relação ao nascimento do filho, porque muitas vezes, odesejo é inconsciente, mas sabemos que um filho não pode ser um “acidente”. Um “desvio”, ou “mandado por Deus”. A negação do desejo em relação ao filho, impede a legitimidade deste, prejudicando sua existência na estrutura familiar. É muito comum vermos crianças crescerem em lugares equivocados em sua familia, como filhos que ficam no lugar de companheiros da mãe, ou como pais dos próprios pais.
Tive a experiência em análise de uma mãe que considerava seu filho como marginal, “melequinha”, ou como “a criança”, sem situá-la como filho, e este permanecia nesse lugar, comportando-se como tal, cometendo pequenos furtos, também chamava a mãe pelo nome, e não por mãe, já que esta não deixou o lugar de filha quando de seu nascimento, criando este filho com a mãe (avó de seu filho), e eliminando qualquer possibilidade do pai dele participar de sua vida. Este garoto, em sua análise, mostrou claramente o quanto o seu desejo estava perdido no desejo da mãe, tinha dificuldades de se diferenciar e se separar dela.

Esse lugar equivocado traz o gozo para os menbros dessa família e também para a criança, que fica indentificado como falo da mãe (tentando preencher a falta desta) e os dois lados relutam em sair desse gozo, , até porque muitas vezes, a criança, se angustia frente à separação da mãe por não ter limites, por não ter a interdição paterna funcionando.

A análise é procurada quando o sofrimento do sintoma extrapola seu gozo, e o analista pode fazer funcionar esta interdição ao Gozo. Para tanto além de ter atenção flutuante (escuta), o analista precisa mostrar os limites à criança, não respondendo como pai ou mãe da criança que está em análise, mas mostrando á ela a responsabilidade pelos seus atos.
A análise com crianças traz à tona o mito familiar, transmitida à criança pelo discurso dos pais e familiares, a sua história é primeiramente traçads pelo desejo de seus pais, através da análise ele descobre que pode mudar esse traçado original e criar outro.

O diagnóstico em psicanálise é diferente do que na psicologia ou na medicina, não é realizado através da notificação de sintomas (medicina) ou na avaliação da personalidade, mas sim em relação à travessia do Complexo de Édipo que traz a dimensão do registro de Simbólico, para tanto estão implicados a triangulação mãe-pai-filho. A travessia do Complexo de Édipo, determina como a criança vai se situar frente ao desejo materno, se vai continuar identificada como falo da mãe ou vai ser interditada pela Função paterna.

A funçãopaterna (Nome-do-Pai) estando presente no desejo mterno, isto é, a mãe desejando além do filho, possibilita que a criança se situe no mundo como um ser desejante. O diagnóstico na análise com crianças consiste em verificar que medida o filho está comoobjeto da mãe (do desejo desta). O sintoma da criança aparece como o revelador da estrutura familiar. As entrevistas preliminares com os pais são necessárias para que apareçam as verdades do discurso familiar. Isto é possível à medida que, com a escuta aos pais nas entrevistas, transformamos sua demanda em transferência, que escutem o que dizem, oque sabem inconscientemente e possam querer saber mais. Uma mãe veio até mim para querer saber o que acontece com seu filho de 7 anos que manifestou seu desejo de morrer. Através do que dizia, pode ouvir que seu filho estava sem o lugar de filho em sua estrutura familiar, e que ela e seu maridotambém estavam em lugares equivocados, ela ainda não se situava como adulta, pois apresentava muita insegurança em separar-se da mãe, e o marido, ainda procurava o reconhecimento e valorização do próprio pai. Escutando o que dizia, através de minhas pontuações e marcações sobre o que dizia, pode manifestar o desejo de querer saber mais, o que a conduziu a querer fazer sua própria análise.

Na análise com crianças também utilizamos as regras fundamentais da psicanálise: a associação livre, a atenção flutuante e a abstinência. Esta última é sobre o saber do analista, este precisa se abster para poder escutar o que é dito crinça, através de suas palavras, jogos e desenhos, não podendo assim, escutar essa criança como filho, mas também como sujeito do inconsciente que pode advir pelas pelas formações do inconsciente (como é na análise com adultos). A diferênça é que a criança também “diz” com jogos e desenhos, ela traz seus significantes quando joga ou desenha e fala sobre eles. Estes recursos não podem ser “interpretados” pelo analista, aqui também tem que se abster de qualquer saber prévio.

Enquanto a criança brinca, o adulto fantasia, ambos fazem parte da realidade psíquica, A brincadeira da crinça é simbolizada e tranformada em fantasia no adulto. O lúdico tranforma a situação desprazeirosa em prazer, é uma forma de enfrentar a angústia da castração, como também o dezenho, pois o próprio ato de desenhar traz a representação de uma perda, o que está desenhado ou escrito não está presente, está simbolizado. Os jogos trazem os significantes que ainda não conseguem ser falados pelas crianças, por isso é que eles vão se modificando á medida que á criança “cresçe”.

A transferência na análise com crianças primeiramente é a dos pais, ou de quem a traz á análise (como já citei acima), a criança estabelece a transferência com o analista quando o inclui em sua demanda, também o coloca no lugar de Sujeito Suposto Saber, isto acontece quando o implica em seus jogos e produções – quando brinca e desenha para o analista – Os sonhos também podem aparecer na análise com crianças, e também como jogo e o desenho produz significantes através da linguagem.

O fim da análise para uma criança é quando descobre que não é somente filho, mas também um sujeito, capaz de responsabilizar-se por seus atos e escolhas, podendo assim, prosseguir como desejante. O termo desenlace, tão bem colocado por autores psicanaliticos é bem vindo, ja que a criança, com a análise, pode se desenlaçar de ser objeto do Gozo materno, quando a internação paterna não está operando suficientemente.

Leila Aparecida Martins
Psicóloga – Clínica Intervita – S. Caetano do Sul – Tel.: 4224-6799/4224-4082
Trabalho apresentado na Conclusão do curso “Psicanálise com Crianças” no Instituto Tempos Modernos.

1 Comentário

  • Honey 29 de março de 2017 at 05:53

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