28 jan

Aposentadoria… da vida?

Uma citação do livro “O Nomeável e o Inominável” a última palavra da vida, de Maud Mannoni: Calara fundo no pequeno Sigmund Freud a lição materna: “Somos feitos de terra e portanto à terra temos que retornar”. Amalie Freud, percebendo a dificuldade do filho em aceitar o que ela tentava transmitir, retirou das próprias mãos algumas escamas de pele, como amostra de terra, para melhor demonstrar, ao futuro descobridor da psicanálise, o ensinamento bíblico: “tú és pó e ao pó retornarás” (gênesis, III,19). Estupefato diante daquela encenação, o menino acabou por se resignar ao destino da condição humana e, mais tarde, ao se tornar um conhecedor da literatura ocidental, não pode deixar de associar a essa cena infantil algumas palavras de Shakespeare: “deves uma morte à natureza”. Sigmund Freud revelou em “A interpretação dos Sonhos” que aprendera com a mãe, e mais tarde com os poetas, algo sobre o caráter inelutável da morte.

Mas em sua prática clínica, numa escuta que sobrepujava o que se sabia até então, o mestre de Viena pôde perceber algo que não estava escrito nas Santas Escrituras nem nos livros seculares que tanto amava, “O homem não acredita na própria morte”, foi o que ele, sabiamente, apreendeu da fala de seus pacientes. Dessas evidências, logo extraiu uma consequência lógica que viria a se transformar num dos aforismo mais conhecidos da psicanálise: no inconsciente não há representação da morte.

Ou seja, o que Freud revelou ao mundo é que na outra Cena, lá onde habita o desejo, o sujeito se crê imortal. Com isso a questão da imortalidade ganhou uma nova dimensão: a psicanálise, no caminho oposto a qualquer filosofia ou religião, passa a sustentar que a condição de mortal leva o sujeito a buscar no desejo sua imortalidade. Sexualidade e morte são as pulsões por excelência que, desde sempre amalgamadas, habitam o homem; e, ao constatar essa realidade, Freud fundou uma ética da psicanálise voltada para a escuta dos destinos dessas mesmas forças.

Aposentar-se…aponsentar da vida?

Retirarmo-nos da vida?

Retirarmos do trabalho não quer dizer retirarmos da vida. Não quer dizer retirarmos dos relacionamentos sociais. Também não quer dizer retirarmos das relações amorosas. Muito pelo contrário.

Talvez aí teremos mais tempo e poderemos criar mais posssibilidade para nos relacionarmos com antigos amigos, fazermos novos amigos e amantes.

Nos tempos modernos, quando conseguimos ultrapassar a dita idade madura, chegamos numa idade onde o ser humano é chamado de idoso.

Estamos no “Ano Internacional do Idoso”. E ai, que vamos fazer, com esse grande desafio para o novo século que é a longevidade, onde a expectativa média de vida dos seres humanos nunca foi tão grande?.

No Brasil, a espectativa média de vida no início do século era mais ou menos 34 anos, em 1950 passou a ser de 43 anos. No ano 2000, segundo projeções, será de mais ou menos 69 anos, e em 2025 será de aproximadamente 75 anos.

Em suma em 2025 o Brasil terá 31,8 milhões de pessoas com mais de 60 anos.

E aí, que vamos fazer? Vamos continuar a idiotizar o idoso? Achando que ele fazendo trabalhos manuais é suficiente? Fazendo ginástica, só cuidando da estética e do corpo físico é o suficiente? Ou vamos trabalhar para que o idoso ou futuro idoso continuem inquisitivos, curiosos, com amigos, com atividades sociais e que trabalhem, se quiserem, para que a aposentadoria não seja encarada como punição e sim como opção.

A posentadoria não quer dizer declínio. E sim, anos a fio de trabalho e de dedicação do trabalhador para com seu trabalho. Penso, que após estes anos, o trabalhador possa optar. Se aposentar deste trabalho e escolher fazer outra coisa, como por exemplo, entrar na era da informática para acrescentar um dinheiro na sua pensão e ou acrescentar mais uma produção na sua vida. Pois cada acontecimento, no seu tempo, é um sinal de atividade, transformação que pode provocar produção e criação de outras possibilidades.

A questão é, podemos ordenar as crises, ordenar o caos? Podemos fazer das crises, dos caos começo de algo e não seu fim?

Podemos fazer das crises da menopausa e da andropausa, da mulher e do homem, o início de algo? A andropausa, no homem, e a menopausa na mulher, são acompanhadas de muito preconceito. Alguns homens interrompem abruptadamente suas relações sexuais por medo de perderem sua potência sexual. Agora, se estão numa posição de onipotência sexual, com quase toda certeza irão torna-se um impotente sexual, esquecendo que uma das coisas que mantém o ser vivo é o amor, o carinho e a ternura. E,com este esquecimento, o homem fica impossibilitado de reinventar novas formas de carícias, toques e olhares. As mulheres, na menopausa, sofrem, caem em depressão porque perdem sua capacidade de serem mães. Esquecendo que são mulheres não tiram proveito da possibilidade de terem relações sexuais mais livres, sem o temor de engravidar.

Por falar em onipotência, lembrei-me do que escutei de um adulto jovem. “Se todo velho chagasse a velhisse numa posição de que não sabe tudo, de que ainda tem muito a aprender é porque viveu bem e vive melhor”.

Quantas vezes escutamos de alguns idosos que “agora já não prestam para nada e que a vida perdeu sentido…” – esquecendo e anulando o que fizeram. Ou então, também escutamos “não tenho mais nada para aprender, já aprendi tudo dessa vida”. Esses idosos poderão, no futuro, ter ajuda econômica ou piedade, mas para receber amor precisamos aprender a amar.

Ainda é tempo, é só querer, a aprendizagem faz parte da vida. Uma das causas da dor de existir é a ignorância. E esta ignorância pode gerar ódio,desespero, vícios e paixões. Ou pode ter como produto o desejo de saber.

Então, porque não colocarmos este desejo de saber em prática – seja em que idade for. Pois, se abolirmos nosso desejo estaremos apoiando e acompanhando a violência com que muitas das vezes, a política e a ciência tratam o idoso – fazendo dele um doente incurável.

Vamos fazer do idoso um ser mudo e impotente? Vamos impor ao idoso o temor à vida para fazê-los temer a morte? Vamos exilar os velhos da língua e impedi-los de fazer laço social?

Outro dia escutei de um idoso: “Meus filhos e meus netos não me procuram. Me sinto como se fosse esta cadeira que estou sentado. Um móvel, algo que se pode colocar de um lado para o outro – tanto faz estar aqui ou ali”.

Vamos culpar a sociedade as instituições, os familiares? Ou podemos implicar este sujeito, ditos de muita idade, a poder se perguntar o que fizeram para que isto acontecesse. O que fizeram para que tivessem este retorno, seja dos filhos e dos netos. O que fizeram para que os amigos se afastassem. Tinham amigos? Fizeram laços sociais? Ou se anularam em prol dos outros? E aí chegam numa idade em que não podem mais fazer para os outros passam a cobrar dos outros. Se sacrificaram tanto pelos outros que agora querem que os outros se sacrifiquem por eles. Subestimando sua própria existência, substima a existência do outro. Não estarão fazendo o mesmo que a ciência, mais precisamente a medicina, que esquece que há um corpo doente, tratando o órgão e não o doente. Esquece que somos seres falantes e que falar tem consequências no corpo?

Em nossa cultura podemos constatar que a ciência, a sociedade, de modo geral, tenta reduzir as diferenças através de meios de apropiação totalizante. Nos dizendo que fazendo trabalhos manuais é bom para a artrite. Ou, dizendo, os idosos têm que fazer ginástica – para cultuar o corpo e dar força a nossa sociedade que é dominada pelo mito da beleza em busca da eterna juventude.

Esses mecanismos de apropriação totalizante bloqueiam os processos de singularização. Processos esses de singularização que os asilos e a maioria das nossas instituições tentam apagar e, muitas vezes, conseguem apagar, calando a voz do idoso.

Pacientes que chegam ao consultório com discurso que nada mais resta a fazer do que esperar a morte esquecem que o tempo dá justamente a presença do acontecimento. Estes pacientes, se implicando naquilo que dizem, se implicando no tempo do inconsciente, no tempo da abertura do inconsciente – que é um tempo relâmpago onde surge o desejo – podem fazer outra coisa do que simplesmente esperar o tempo. Será que podemos não só adicionarmos anos às nossas vidas e sim darmos vida aos nossos anos?

Muitas das vezes os idosos sentem-se inaptos para os tempos modernos, afastando-se do convívio social. A segregação progressiva leva a um complexo isolamento. E, se não mata o desejo antes da morte chegar, é possível, nestes tempos modernos, fazer laços sociais.

Neusa Lais Coelho
Psicanalista – Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho apresentado na Jornada “Violência – Mancha Social”
organizado pelo Instituto Tempos Modernos em São Paulo
no Sesc Vila Mariana, em 22 e 23 de outubro de 1999
Tel: (0**21) 2236-0563 – Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br

OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21) 2714-8502 / (0xx21) 2704-0060

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