28 jan

Limites

Um dos mais preciosos dons que os pais podem oferecer aos filhos.

Quando a criança nasce é um ser indefeso, está totalmente na dependência do Outro. Se o outro – geralmente é a mãe que vai a esse lugar – não alimentar, banhar, cuidar, ela não viverá. Depende totalmente que o outro deseje fazer qualquer uma dessas funções, para que a criança possa viver e crescer saudavelmente.

A mãe também precisa falar com seu filho, pois se ela não o fizer ele terá dificuldades ou não poderá falar, aqui encontramos todos os exemplos de mutismo ou agressividade.

É muito comum encontrarmos adultos que não falam com as crianças, que não a escutam, porque acreditam que elas “não entendem o que falamos”.

O que não sabem é que as crianças tem condições e direitos de falar e de serem escutadas por seus pais e de saberem o que acontece com eles, no que diz respeito a ele como filho, guardando as proporções do que é possível de ser dito.

Os filhos são falados antes de nascerem- já existe no discurso de seus pais – e depois quando nascem, durante um determinado tempo, ainda continuam sendo falados por eles até que possam ter condições, físicas e psíquicas de adquirir a fala e poderem falar eles mesmos. Dizer o que querem, o que gostam, serem escutados e respeitados.

Mas, o que encontramos são pais que não escutam seus filhos, não conversam com eles, por acreditarem que eles não entendem, que são muito pequenos e não tem desejo ainda.

Ao contrário do que muitos imaginam, a infância não é um paraíso. As crianças sofrem, se angustiam e se desorganizam por conta disso. Quando elas não conseguem falar, explicar e compreender o que lhes acontecem, adoecem, e aqui encontramos todas as doenças repetitivas: gargantas inflamadas, gripes recorrentes, otites, alergias. Todas as doenças que aparecem em seu corpo quando a palavra foi sufocada ou quando doeu no ouvido o que escutaram.

Não é raro os pediatras diagnosticarem “virose” para os males que não tem explicação consciente e nessa série entram os mal–estares como: febre, gripe, garganta inflamada, vômitos e diarréia. E se os pais ficarem atentos e lembrarem o que estava acontecendo pouco antes desses mal-estares, virão com alguma clareza que “algo” aconteceu. “Algo” antecedeu aquele sintoma. Pode ter sido uma mudança, uma viagem, um grito, uma bronca ou até mesmo um presente que ganharam quando esperavam uma palavra ou um limite.

É fundamental que os adultos que se ocupam de crianças, tenham uma certa organização psíquica que lhes possibilite ter condições de poder dar limites às crianças. Para que elas elas saibam que não podem fazer tudo. Ninguém pode. Elas precisam ir aprendendo – desde que nascem – que existem determinadas coisas que são possíveis de fazer e outras não. Que tem lugar e tempo para cada comportamento, e fundamentalmente que seus pais são castrados, que tem limites e que precisam ser respeitados.

Existem pais, que em consultas, falam que acreditavam não ser importante colocar limites em seus filhos, por achar que assim o estariam “podando”, e com esse significante criam seus filhos como se fosse plantas ou vegetais.

O que salva o sujeito da loucura, delinquência, dependência de drogas, fracasso escolar entre outros sintomas é justamente o fato de que tenham recebido limites, que o não possa ter operado para ele. Se não for assim o sujeito vai procurar em outra instituição – que não a familiar – os limites. Procuram no manicômio, nos remédios, no juiz ou no policial, os limites que não tiveram em casa.

E porquê os adultos, principalmente os pais, tem dificuldades em colocar limites em seus filhos?

Porque dar limites ao filho equivale a limitar a si próprio, e isso é o que muitos não suportam, porque isso os remete à sua castração, a seu lugar de filho ou filha. E na maioria das vezes esse lugar foi confundido. Um paciente disse que a tudo que seu filho pedia ele respondia sim. E algumas vezes sabia que isso o atrapalharia- a ele e o filho – mais não conseguia fazer diferente pois quando era criança passou muita privação e recebia muito “não pode” de seus pais.

Nesse exemplo o que evidenciamos é o fato de que a maior parte das vezes os pais educam seus filhos parecido com a criação que tiveram na infância. A referência que têm é a de seus pais,.e a repetem com seus filhos, mesmo quando acreditam que fazem todo o contrário ainda é em referência a esse modelo

Ser pai ou ser mãe não é algo natural, vai depender da estruturação psíquica de cada sujeito para que ele possa tornar-se pai ou mãe. Não nascemos sabendo como fazer isso, precisamos do discurso familiar, da castração, dos limites para que acedamos a essa posição. Se fosse algo natural ser pai ou mãe, não encontraríamos homens e mulheres que adoecem ou enlouquecem quando experenciam esse fato.

Quando os pais sustentam seu lugar, no mesmo instante reconhecem seu filho e a criança pode ser reconhecida como filho de fulano e Sicrano. Tendo um lugar que o diferencia dos outros, não ficando somente como uma criança, mas um sujeito desejado por seus pais.

Os pais que transmitem seu desejo de pais, são transmissores da lei, onde delimitam o lugar e o espaço de cada sujeito na família, onde cada um pode se reconhecer responsável pelo que diz e faz. Assim seus filhos podem crescer sadios, tendo êxitos no social – na escola, nos grupos de amigos , preparando o caminho para tornar-se um adulto responsável por seus atos.

Andreneide Dantas
Psicanalista – Tel. (0xx11) 3887-9462
E-mail: clinica@escutaanalitica.com.br

 

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