10 fev

DEPENDÊNCIA DE DROGAS – Que dependência é esta?

Por que uma grande maioria de sujeitos que usam drogas (álcool, maconha, cocaína, etc.) torna-se dependente, ficando à mercê e escravo delas, enquanto existe um outro percentual que faz uso das mesmas e não se torna dependente?

Então: quem são as pessoas que se viciam nas drogas? Como estão suas vidas? Do que nos falam no consultório?

Quando estes pacientes têm a sorte de chegar a um psicanalista – digo sorte, pois muitos recorrem a vários tratamentos com pouca ou nenhuma eficácia – podem falar e resgatar   suas histórias; podem se encontrar com o que lhes é mais íntimo, com suas singularidades. E descobrem que são responsáveis pelo que lhes acontece e assim podem tomar decisões e não precisam mais atribuir ao destino.

Estes pacientes falam no início de quantas vezes fumaram, cheiraram e se picaram. Com quem, quando e como o fizeram.

Aos poucos vão deixando  que apareça no seu discurso suas histórias, vão acanhadamente falando dos amigos – dos poucos que restam, da família, do trabalho e estudo.

Falam do pesado fardo de suas existências, das mazelas e da dor que sentem. Deixam aparecer os pontos fragmentados de suas falas, onde fica em evidência que sua palavra está esvaziada de sentido, que não encontram razão para continuar vivendo.

Alguns até podem ter sucesso no que fazem, ganham dinheiro, têm suas casas, carros e viagens, mas não encontram prazer no que fazem. Sentem um “vazio” que tentam preencher com o produto químico.

Falando, trazem à tona lembranças, recordações de sua infância, flashes de momentos que passaram e acreditaram que não eram importantes. Nestas lembranças sentem retornar ódio, medo e amarguras de palavras ditas, não-ditas,  escutadas ou não.

Falam do lugar que ocupam na família, do que não foi dito e, justamente por isso, passaram ao ato. Ato de drogar-se, ato de anestesiar-se, ato de adormecer. Tudo isso para não prestar contas de seus desejos. Preferem um gozo estúpido a ter que descobrir sobre o que desejam. É isto o que o ser falante mais teme : saber sobre seu desejo, e quando digo desejo não é o mesmo que o querer ou a vontade. Falo do desejo inconsciente.

Uma paciente viciada em cocaína chegou, através de sua análise, à lembrança de que quando era criança tinha sido abandonada por seu pai. Em suas relações fazia com que isso se repetisse, usava drogas para se afastar dos irmãos e do marido. Ora, é isto o que fazemos, repetimos o que vivemos nos primórdios de nossa infância. Muitos podem nunca descobrir o porquê do que fazem e aí tornam-se presas do destino.

Os pacientes falam que usam drogas para “preencher um vazio insuportável”, para “encarar o dia a dia”, para “suportar ficar vivo”. Tentam preencher algo que não é possível, que é o buraco da angústia que existe para todo ser humano. Ninguém é completo, nem pode ser totalmente satisfeito. Cada um encontra uma forma de paliar isto. Alguns fazem seus sintomas na fala, outros recorrem a produtos químicos, à comida, etc.

Os que ficam dependentes de algo – e neste algo pode-se entender as drogas, a comida, o trabalho, uma pessoa, etc. – colocam este “algo”, este objeto como único, que não pode entrar na cadeia simbólica junto com outros objetos. Tornam-se então prisioneiros de calmantes, remédios ou outras drogas.

Os pacientes descobrem na análise que é falando de sua história que podem mudar o rumo de suas vidas. À medida que vão falando para um analista, vão trocando o gozo estúpido que a droga dá por palavras. A droga vai caindo e o sujeito vai se sustentando em seu discurso. Vão organizando suas histórias e seus corpos e não precisam mais gozar solitariamente e aí descobrem que precisam dos outros como parceiros, que precisam falar do mal que lhes acontece e assim podem colocar-se no mundo de outra forma.

Muitos paciente dizem ter nascido novamente quando descobrem em análise que falando de outro jeito, fazem de outra forma. Aprendem que a palavra, a linguagem nos separa da animalidade, que dizer ou deixar de dizer faz toda a diferença.

E a diferença é que por sermos providos de linguagem, quando não fazemos uso dela, colocamo-nos no mesmo lugar que os fantoches e marionetes. Somos manipulados e muitos, para suportar  isso,  entopem-se de drogas, comidas e medicamentos.

As pessoas precisam descobrir o valor do que falam, precisam saber da responsabilidade que cada um tem com sua própria vida. E só descobrindo sobre seu desejo podem fazer suas escolhas, de uma forma mais acertada de acordo com o que desejam.

Andreneide Dantas
Psicanalista
Escuta Analítica Clínica de Psicanálise

1 Comentário

  • Jaylin 29 de março de 2017 at 05:56

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