10 fev

O que é o desejo ?

O que é o desejo?  Questão que se responde ou remete a mais questões: O que é o desejo de cada sujeito?  O que é o desejo da mulher?  O que é o desejo do filho?  O que é o desejo do pai?  O que é o desejo da mãe?  O que é o desejo do analista?  O que é o desejo de ser analisado?  Para essa última questão, surge muitas vezes na clínica, pelos analisantes, a procura de algo, de uma “coisa”, que preencha um vazio…  Essa busca por algo, que não se sabe o que  é, pode ser a resposta para o que é o desejo.

Portanto, vamos partir do início: O que uma criança deseja de sua mãe, ou do Grande Outro, ao nascer ?

Pela necessidade humana, há a questão da fome, sede, frio,etc., o que é respondido à medida que a mãe a criança. Mas por ser atravessada pela linguagem, não lhe dá só o leite, às vezes não lhe dá nem o leite, mas pode dar a sua presença em forma de carinho, contato, palavras, olhar. E se dá a presença também pode dar a ausência, o que cria, ou transforma a necessidade em demanda (de amor). O que é da necessidade que não se articula em demanda (pedido/apelo) é reprimido e ressurge como objeto de desejo, que causa o desejo, objeto que está sempre perdido, pois nunca haverá objeto que satisfaça totalmente a necessidade.

Pelo humano ser atravessado pela linguagem, existimos antes mesmo de nascermos, existimos   no desejo e no discurso do Outro (outro materno e outro da linguagem).

O exercício da função materna pressupõe a prática de um desejo. Mas qual desejo?  O desejo do falo. Seguindo o desenvolvimento psíquico feminino vemos a maternidade como resposta à castração.  A menina, reconhecendo que lhe falta algo, passa a querer algo que lhe complete,  ter um filho, fazendo a equivalência filho-falo.  O filho, inicialmente, identifica-se como objeto de desejo da mãe, fica sujeito ao desejo do Outro materno, fica numa situação de dependência absoluta, onde a mãe situa-se como onipotente frente à criança.

Nessa onipotência, a mãe pode ou não dar, e o objeto real da satisfação pode tornar-se simbólico (Dom).  A falta neste momento, aparece como privação, transformando a necessidade em demanda. Na privação, a falta pode ser coberta por um objeto simbólico.

Quando existe a demanda, ela é dirigida à ausência ou presença da mãe (a  demanda é de amor e não objeto da necessidade).  A falta aqui, aparece como frustração, agenciada pela mãe. A frustração é um dano imaginário ao objeto real (seio/pênis)

A onipotência materna ( a tríade mãe-criança-falo) só é quebrada com a função Nome-do-Pai (função paterna), para que a criança saia do lugar de falo, para ser filho, para ter uma filiação e se perguntar: “o que ela quer de mim?”

“Perceber que me falta algo, pois não a satisfaço, algo que falta a ela, por ela desejar além de mim”.  É necessário que a mãe deseje (função paterna) para quebrar a onipotência e remeter à visão da diferença sexual, aceitá-la castrada para aceitar-se como ser faltante também (ferida narcísica).  A falta aqui, é em relação ao desejo da mãe e a um objeto imaginário: o falo.  Perceber que existe um mais além de si mesmo para o desejo do Outro (mãe), permite tornar-se sujeito desejante e não só um objeto de desejo do Grande Outro, podendo encontrar outro lugar que não mais aquele que ocupava.

O que fazemos com a castração , com essa ferida narcísica, ou como ainda nos identificamos como objeto da mãe é o que determina a estrutura em que ficamos e como nos relacionamos com o desejo e com o gozo. O desejo surge da percepção que o desejo da mãe é o pai, e vice-versa, funcionando como uma lei, uma interdição ao gozo absoluto (completude com a mãe). Nascemos do desejo do Outro e também nos tornamos sujeitos pelo desejo do pai, pois sem essa interdição que nos remete a ordem simbólica, não desejamos.

O desejo é sempre tentativa de satisfação do objeto que está perdido, que nunca houve – pelo atravessamento da linguagem na necessidade – , por isso é possível se deslocar. O desejo e o gozo (tentativa de completude)  sempre estão juntos, quando um aumenta, o outro diminui. O desejo é possível com o gozo fálico (o gozo das palavras, a realização de um desejo e não sua satisfação).

As estruturas neuróticas são uma defesa ao complexo de castração.

A fobia não é considerada estrutura, mas é porta de entrada para uma estrutura, pois o objeto fóbico sustenta a metáfora paterna, quando a função Nome-do-Pai é falha, quando não operou totalmente, não foi afirmativa, mas só sugestiva, como a instabilidade paterna (pai real ou a mãe que desautoriza este pai) que não afirma, só sugere, o indivíduo não sente-se assegurado da  presença paterna, e com isso, o medo de ser “engolido” pelo desejo materno (fantasia de devoramento). O Objeto fóbico entra como um significante paterno para “fechar a boca dessa mãe”.  A claustrofobia aparece como o medo de ficar preso ao desejo materno, enquanto que a agorafobia, o sujeito não tem onde assegurar-se, medo de ser sugado pelo vazio (também aparece na vertigem), por não ter o referencial paterno estável.

A frustração de amor agenciada pela mãe, concomitante com a função paterna não funcionando como lei, como interditora, com um pai que não castra, mas seduz, torna o sujeito um eterno reivindicante desse amor incompleto, colocando-se como um objeto desvalorizado e incompleto também (incapaz de satisfazer a mãe). Tornando-se objeto de desejo, não mais da mãe, mas também do pai, constrói assim, a fantasia de sedução do histérico (a).

O desejo do histérico (a)  é sempre manter o seu desejo insatisfeito, à medida que se identifica com um objeto frágil e insatisfatório em relação ao desejo da mãe. Para manter seu desejo insatisfeito, não coloca outros objetos como substitutos possíveis, mantendo assim, o desejo como resposta a um ideal de ser (aquele que acha que poderia ter sido para o Outro). Na histeria, deseja ser o falo e não tê-lo, portanto, recusando-se a aceitar o encontro com a falta.  Recalca a função paterna (pai caído), até porque não a teve como lei, perguntando-se  “O que é uma mulher?”, só podendo ser desejada, não sabe o que é uma mulher, o  que esta deseja. Permanece no gozo através do corpo (sintomas conversivos), dos estereótipos de beleza, etc.

O histérico(a) repete cenas de sedução com o desejo de ser objeto de desejo do Outro – desejo por procuração – Sendo objeto, não deseja, subtrai. Quer permanecer fálico para tampar a falta no Outro.

O Obsessivo sente-se amado demais pela mãe, foi investido como objeto privilegiado do desejo materno. Por isso,  permanece na nostalgia de ser o falo, constitui-se como objeto o qual a mãe supostamente encontrará o que não consegue encontrar junto ao pai.

A criança é confrontada com a lei do pai, mas mantém-se também subjugada pela mensagem de insatisfação materna.  O obsessivo tem um impasse: se regride totalmente à identificação fálica (ao ser), se mata o pai,  podendo ficar preso à demanda materna. Assim, está sempre postergando seu desejo, colocando-o como distante e impossível, para nada saber dele.

O excesso de amor materno vem acompanhado de sedução erótica. A criança é chamada para suprir a falha no gozo materno, induzindo a uma passividade fálica.  Essa experiência de prazer com a mãe,  o impedirá de mediatizar o seu desejo. A articulação da necessidade com a demanda fica prejudicada no obsessivo, por a mãe não lhe dar tempo de haver a suspensão do desejo entre as duas instâncias, por isso, seu desejo é sempre da ordem da necessidade.  A sua passividade é resultado dele achar que está impossibilitado de demandar. Fica numa posição de sacrifício e servidão, como objeto de gozo do Outro.A impotência do pai aparece nele, sente-se inútil. Abdica de seu desejo para continuar como falo, sendo o falo, não pode tê-lo ao mesmo tempo.  Aniquila o desejo no Outro para não saber do seu., apaga a diferença sexual, idealiza a mulher, colocando-a como objeto do desejo impossível.

Na perversão, não há o recalque da função paterna, há a recusa da castração.  O perverso vê, mas nega a diferença sexual, nega a mãe castrada, colocando um objeto fetiche para tampar sua falta, como substituto ao falo materno, mantendo a imago de uma mãe fálica.  Não é instrumento de gozo do Outro, mas dele mesmo. Fica na posição de objeto imaginário do gozo.  O perverso não deseja, goza, pois a lei não é suficientemente válida, ele a transgride.

E o desejo do analista? Qual é?  Não pode ser um desejo de caráter histérico, obsessivo ou perverso, por isso, para ser analista, só sendo analisado. Para que o seu desejo neurótico  possa através de sua análise , ocupar  um outro lugar, pois o analista deve operar com o seu desejo e não com o seu gozo.

O desejo do analista é função,  é possibilitar que a palavra se desenvolva, constituindo um sujeito. Quando a palavra se desenvolve, o efeito é o resto, e análise é o lugar desse resto, o analista como função é recolher esse resto, que é o desejo.

A demanda do paciente pode ser articulada em função do desejo do analista.

O desejo de saber do analista não é para encontrar certezas, mas para situar a falta onde ela está, como consequência da linguagem, a falta está no discurso.

O desejo é o motor, é o que produz, o que faz o sujeito andar, buscar realizações e  é acionado pela castração simbólica e esta pode ser restituída pela e na análise através do atravessamento de seu fantasma, criado para responder a questão trazida pela castração: “O que queres de mim?”

De posse desse saber, o sujeito analisado pode se posicionar de outra forma em relação ao seu desejo, que no neurótico é sempre desejo do Outro.

BIBLIOGRAFIA

  • Seminários:  O que é o desejo?
    Andreneide Dantas/Maria Helena Seibt/Joaceri Merlin/Neuza Laís Coelho
  • Estruturas e clínica psicanalítica 
    Joel Dor
    Editora Taurus
  • A Ética do Desejo
    Susana  Amália Palácios
    Editora  Relume Dumará

Leila Aparecida Martins
Psicóloga/Psicanalista e Membro do Instituto Tempos Modernos
02 De Dezembro de 2000

Deixe um comentário