10 fev

A Transitoriedade da Vida

A linguagem é o que determina o ser. Por isso todo ser humano está submetido à linguagem já que ela pré- existe a todo vivente. E é deste lugar da linguagem que somos seres falantes e por isso mesmo, mortais.

Quando nascemos nos nomeiam e quando morremos somos inscrito na nossa sepultura. Somos exigidos a sepultar nossos mortos em sua última morada inscrevendo nos jazigos a duração da vida e o nome próprio daquele ser humano que se foi. Então, para a realidade humana não há outra realidade que a discursiva.

O organismo que é constituido como uma estrutura anatômica é modelado e recortado pelo trabalho cirúrgico do significante.

As histéricas demonstraram isso muito bem ao nosso mestre vienense. E após o seu ensino não podemos mais acreditar na existência de um organismo e sim, só podemos escutar o murmurar de um corpo.

Nos tempos modernos, a nossa sociedade é dominada pelo mito da beleza, junto com a busca pela eterna juventude. Quando conseguimos ultrapassar a dita idade madura chegamos numa onde o ser humano é chamado de idoso.

E ai ?
Paramos ?
Estagnamos ?
Retiramo-nos da vida submersos na depressão.? Vamos viciar nossos corpos, a cada dia que passa aumentando as doses das drogas ditas legais até chegarmos a uma overdose?

Escuto de uma paciente de 50 anos “…depois de uma certa idade tem que se incucar e esquentar a cabeça com doenças.”

Este significante depressão está, hoje em dia, amplamente generalizado. E com isso aumenta-se o número de seres impotentes, apáticos, frustados, tristes e desanimados. Desde Aristóteles já existiu os estados depressivos. Mas a depressão no final do nosso século está, não como um estado e sim, como uma epidemia. Isto é resultado do capitalismo e dos avanços das ciências neurobiológicas.? Onde o mercado facilita o acesso do consumidor a adquirir quantidades variáveis de antidepressivos. Foracluindo o sujeito do seu estado depressivo podendo provocar uma nova Toxicomania.
A medicina muitas vezes esquece que há um corpo doente. E passa a tratar o orgão, a doença sem considerar que somos seres falantes e que falar tem consequências no corpo. Por isso, muitas vezes, tratam a doença e não o doente. E mais, esse esquecimento podem fazer com que aquelas que estão perto do fim não tenha uma morte digna .

Como disse no início, ao nascermos tomamos nosso primeiro banho de linguagem. Será que poderemos sair deste banho morrendo com dignidade, isto é como seres falantes que somos?

Vamos apoiar e acompanhar a violência com que, muitas vezes, a política e a ciência tratam o idoso – fazendo dele um doente incuravél.? Vamos fazer do idoso um ser mudo e impotente? Vamos impor ao idoso o temor à vida para fazê-los temer a morte?

É bastante lastimável a situação da maioria das instituições para idosos. Eles são abandonados pela família , ao longo dos anos, em instituições oficiais ou privadas. O abandono que sofrem estes seres humanos é cruel. É possível fazer algo para evitar que esses seres humanos vivam como párias, isto é, como seres excluidos da sociedade, nas instituições fechadas hoje existentes?
Vamos exilar os velhos da língua e impedi-los de fazer laço social?

Segundo Lacan, quando a vida é desapossada de sua fala o sujeito se depara com o masoquismo primordial. Quantas vezes ouvimos de alguns idosos que “…agora já não prestam para nada e que a vida perdeu sentido…” – esquecendo e anulando o que fizeram.

A palavra nos apunhala, mas por outro lado é o maior bem do homem. E é o que pode tornar mais suportável a condição humana. Suportável pois, originalmente, a dor de existir é primordial. Há dor no nascimento, no envelhecimento, na doença, na separação daquele a que se ama. Há dor quando não obtemos aquilo que desejamos.
A dor é associada ao vazio de ser do sujeito, ao ser de carência. Pois não há ser completo. A falta é estrutural; e esta falta se chama desejo, é onde se articula o desejo.

Continua no próximo artigo…

Neusa Laí Coelho – Psicanalista
Instituto Tempos Modernos – (021) 2714-8502 / 2704-0060
Escola da Causa Analítica – (021) 2236-0563

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