10 fev

Caso D.

Trabalho com neuropediatria, atuando na área de fisioterapia. Antes de começar minhas leituras e estudos de psicanálise, cada paciente novo que recebia, fazia a anamnese da patologia e traçava um objetivo de reabilitação física o mais precocemente possível, sem prestar muita atenção na dinâmica familiar. Depois que tomei consciência de que tudo que está no corpo, no físico tem relação com os sentimentos e desejos , meu trabalho mudou.
Quando D. chegou para atendimento fisioterápico tinha dois meses de idade, com o diagnóstico de Síndrome de Down. A mãe, muito depressiva, foi logo dizendo que tanto ela como seu marido queriam muito esse bebê e agora que ele nasceu , ela se sentia miserável por ter um filho “deficiente”.
No mais completo luto, a mãe conta que após o parto, o médico que a atendeu veio ao quarto e disse: “sinto muito , mas seu filho nasceu com um defeito genético irreparável, que é a Síndrome de Down. A senhora deve levá-lo ao geneticista para saber porque isso aconteceu”. Então explicou a ela tudo o que pode se esperar de uma criança com tal síndrome , como a deficiência mental , a hipotonia muscular, disse que ele seria “sempre criança”; poderia viver até a faixa dos trinta anos , talvez tivesse problemas cardíacos , etc. Pronto! Estava estigmatizado , selado o seu destino. Era para sempre uma criança limítrofe.
Quando foi dito “defeito”, ela sentiu como “se uma pedra caísse em sua cabeça”. Ninguém quer parir um defeito, queremos ter um bebê, um filho “completo e perfeito”.
Conta também que, apesar de levar o bebê a muitos lugares, “quase ninguém percebe que meu filho tem síndrome.” Uma coisa quase impossível, visto que a Síndrome de Down, mostra todas as suas características na face. As crianças com essa síndrome têm características marcantes no rosto, no formato dos olhos, orelhas e boca, logo, todos que olharem poderão ver”, conta a mãe.
Iniciamos a estimulação precoce, que consiste em treinar os movimentos do desenvolvimento normal do bebê, com a mãe sempre presente durante as sessões, a fim de poder repetir os exercícios em casa e também para poder escutá-la.
No início a mãe protegia D. de seus irmãos maiores, “porque ele é muito frágil, é diferente dos outros”; comecei então a pontuá-la: o quanto ela frisava o diferente, e incentivá-la a deixar D. aos cuidados e bagunças dos irmãos mais velhos, porque ele não precisava ser “diferente”, precisava sim era do convívio com os outros como semelhante.
Ela foi seguindo minhas orientações e D foi passando por todas as fases do amadurecimento e desenvolvimento motor com sucesso, alegre e extrovertido.
Com 1ano e dois meses estava pronto para iniciar uma nova etapa, andar sem ajuda.
Foi quando aconteceu….
D. começou a chorar durante a fisioterapia, fazia manha, não queria ficar com a terapeuta e procurava o colo da mãe, ficando agarradinho.
Resolvi então que a mãe ficaria fora da sala durante a fisioterapia. D. entrava na sala chorava, gritava, depois parava, voltava a chorar, parava novamente; a mãe entrou em depressão e queria leva-lo embora para casa. D teve este comportamento durante duas semanas, então a mãe resolveu que ” se D. não queria mais fazer exercícios, era porque estava cansado e eles ( pai e mãe) resolveram que ficariam com ele em casa, pois o seu filho estava doente e eles não queriam judiá-lo.”
Então pontuei: doente? Ele está com que doença?
A mãe chorou muito e faltou durante três sessões.
Quando retornou com D. para a fisioterapia , disse-me que, se ele chorasse muito, ela o levaria embora, pois não aguentaria ouvi-lo chorar. Concordei. D entrou na sala e começou a choramingar, então coloquei-o em frente ao espelho; quando se viu refletido sorriu, depois olhou para a minha imagem refletida acima dele, sorriu, virou em direção aos brinquedos e começou a brincar como se nunca tivesse acontecido nada. Uma semana depois começou a andar sem ajuda, então chamei a mãe e disse que quando ele atingisse equilíbrio e coordenação suficiente para agachar-se, transpor objetos, ele teria alta da fisioterapia e deveria ir para a escola onde se exercitaria brincando acompanhado de amiguinhos da sua idade.
A mãe ficou chocada, pois não esperava receber alta. Como receber alta da fisioterapia se ele tinha uma síndrome! Novamente o peso do estigma da doença, onde só se pode esperar pouco, quase nada.
Depois, ela me perguntou onde teria uma escola que fosse boa para ele. Indiquei então a escola que meus filhos frequentaram quando pequenos. Novo choque!
“Mas como?! Ele precisa de uma escola especial, de cuidados!”
Então eu insisti que quando ele estivesse pronto, deveria conviver com crianças ditas normais, pois ele estava evoluindo bem: bom equilíbrio, coordenação motora, fazendo tudo que os bebês na sua idade faziam, por isso poderia conviver com eles.
A convivência com crianças com “mais capacidade” incentiva o aprendizado, se fosse colocado com deficientes mentais, nada seria acrescentado e sim retardado.
Quando D. alcançou os objetivos traçados para sua reabilitação, dei alta. Estava com a musculatura, com tônus muscular perfeito? Não, tinha hipotonia. Porém agora, a escola era a prioridade.
Dar alta foi muito gratificante. Não é uma coisa que posso fazer com frequência. Agora D. tinha uma chance de ir para a escola, conviver com outras crianças, desgrudar da mãe e poder caminhar sozinho para uma nova etapa de sua vida.
Demorou mais três meses depois dessa conversa para que D. fosse matriculado na escola, devido ao medo e insegurança da família em separar-se dele por algumas horas.
Quando finalmente foi matriculado na escola, seu desenvolvimento foi muito bom, tanto o físico como o social. “Às vezes leva para casa alguns hematomas, alguma mordida, porém é normal pois também defende-se, morde, arranha na luta por brinquedos. A mãe está feliz e ele também.
No futuro vai precisar novamente da fisioterapia para postura, fortalecimento muscular, mas tenho certeza que voltará mais fortalecido emocionalmente.
Quando olhamos para um ser humano livre de preconceitos e sem o selo do estigma, poderemos realmente enxergá-lo como ele é , um sujeito de linguagem , portanto desejante.

Antonia Lúcia M. B. Annicchino
Fisioterapeuta

Clínica Precoce
Rua: Piauí, 55 – São Caetano do Sul -SP
Fone: 4224-2879

Clínica de Ortopedia Ipiranga
R: Cipriano Barata, 2281- Ipiranga -SP
Fone: 273-0644 6914-9554

Deixe um comentário