10 fev

A Identidade do Adolescente e a Formação de Grupos

A adolescência é um fenômeno biológico, psicológico e social. Ocorrem modificações visíveis no corpo e outras que não podemos observar. No plano psíquico, também algumas alterações são observáveis, a maior parte se dá silenciosamente. Socialmente também há mudanças e é neste plano que os dois fatores anteriores vão se intrincar e determinar a forma de inserção do sujeito no mundo.

É uma crise necessária para atingir a maturidade. Sem estas alterações, o sujeito não pode passar de criança a adulto. A identidade do adolescente também vai sofrer transformação. É a etapa decisiva para o processo de desprendimento que em psicanálise denominamos castração. É o início da maturidade que permitirá ou não a emergência do sujeito liberto da proteção familiar.
No início ele vai debater-se entre o impulso ao desprendimento e a defesa que provoca o medo da perda do que já é conhecido.

É um período de contradições, confusões, ambivalência, gera tensões e desavenças no ambiente familiar e circundante. Este quadro pode complicar-se porque os pais, nesta fase, sofrem uma revivescência de sua própria adolescência.

A crise pode ficar tão intensa que algumas pessoas podem confundir o quadro normal da adolescência com estados patológicos.

Não é só o filho que deve desprender-se dos pais, estes também devem desprender-se da criança e evoluir para uma relação com o filho adulto, o que impõe muitas renúncias de ambas as partes. No crescimento do corpo do filho, os pais antevêem a velhice e a morte. Há uma queda de posição, o filho já não idealiza o genitor como líder ou herói.

O adolescente oscila entre a regressão e o crescimento. Ouve dos adultos que o cercam, ora que é um adulto, ora é uma criança. A aparição dos sinais de crescimento no próprio corpo e a mudança de posição, encantam e assustam ao mesmo tempo. Aceitar a condição de adulto, um corpo novo, uma nova identidade, não é tão fácil como gostaríamos que fosse . As modificações podem ser sentidas como deformações.

As condições familiares e culturais podem favorecer, demorar ou precipitar o desenvolvimento mas não podem impedir que o processo ocorra. Na infância, tudo se passa num jogo de “como se “, que na adolescência vai se transformar em SIM ou NÃO. Que acontece se os pais não permitem que o adolescente exercite sua vontade, seu desejo?
Quando os pais não suportam o advento deste sujeito, este não pode desabrochar. Sem expressão, ele se cala e quando falta a palavra, o comportamento fala. Em psicanálise sabe-se que na falta de uma palavra verdadeira, um sintoma vem ocupar este lugar.

É neste momento que a função paterna precisa estar atuando . A lei do pai não é letra morta mas palavra significada. Por isso, nem sempre um pai autoritário ou um estado com leis muito severas vão impedir o delito.
Quando digo função paterna, refiro-me à posição que o pai deve assumir na família e na sua falta, a pessoa responsável por ela, mãe, avós. É uma função muito específica que inclui proteger mas que exige principalmente fazer cortes, colocar limites. Se estes não são impostos pela família é possível que o jovem vá buscá-los nas leis do estado.

Diálogo, atenção, elasticidade, o que significa colocar limites firmes mas não rígidos. Não se trata de ser amiguinho do filho , mas de ouvi-lo, apoia-lo quando necessário e colocar limites claros e precisos nas situações exigidas. A liberdade pode ser confundida com menosprezo, desatenção e levar à autodestruição.

Os pais, professores, psicólogos precisam ter bem claro que não somos iguais, cada um ocupa um lugar que deve estar bem definido: pai precisa estar na função de pai, professor na de professor . O filho – cada filho numa família, cada aluno numa escola – vai ocupar um lugar que é único. Por isso nós, educadores (digo nós porque entendo que, na condição de cidadãos adultos, somos todos educadores) devemos estar atentos para o lugar que cada criança ou adolescente está ocupando. Um adolescente , por exemplo, pode vir a escolher inconscientemente o lugar do anti-herói se o lugar do herói já foi destinado a outro filho.

Há algum tempo entrou em moda chamar adolescentes de aborrecentes. É preciso analisar o perigo desta “brincadeira” , porque alguns podem se identificar com esta marca e passar agir como verdadeiros aborrecentes.

Se a identificação com a figura paterna é débil, o jovem pode identificar-se com outros significantes : rebelde, agressivo, preguiçoso, burro, desorganizado. Também vem ocupar este lugar a figura de ídolos do esporte, da música, do cinema , da televisão com todos os benefícios e males que isto comporta.
Quando a palavra plena, significada, escapa ou não advém, cria um vazio que pode ser ocupado por qualquer outra coisa: uma doença, um ato violento, o silêncio.

Hoje, para o delinqüente, não basta apenas roubar, ele precisa deixar uma marca registrada, algo mais violento, que utiliza como assinatura. Marca registrada, de uma figurinha carimbada. Esta passa a ser a identidade de uma criança, de um jovem, quando não encontra sentido naquela que lhe é oferecida.
Outro sinal da necessidade da marca são as tatuagens, piercings, brincos que os adolescentes passaram a usar recentemente.

Para estabelecer uma identidade própria e desprender-se dos laços familiares, o adolescente procura pertencer a um grupo. Assim como no início da civilização, na passagem da animalidade à cultura os homens se uniram em grupos para enfrentar as dificuldades, o jovem revive este tempo mítico da humanidade em sua conduta atual. É essencial que ele pertença a um grupo , ainda que pequeno, para estabelecer laços sociais mais amplos, além da família.

São passos necessários para que a identidade se estabeleça. Porque pode ser que a adolescência não surja nunca. Por exemplo: crianças-modelo, sem pensamento próprio, sem liberdade, que seguem o caminho que lhes é apontado (e toda sua vida sucede em vez de fazê-la suceder).

Joaceri Merlin
Palestra realizada no Colégio Estadual Oswaldo Aranha no Encontro de Pais, Alunos e Professores
Outubro de 1999

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