10 fev

Do Muro ao Murro

A agressividade não se apresenta apenas nos atos violentos. Ela permeia nossa vida: esconde-se nas palavras, nas intenções, nas análises. A agressividade não é algo que difere da conduta humana em geral, mas faz parte dela. Socialmente perigosa porque causa danos aos valores fundamentais que permitem a existência de uma comunidade, rompe o pacto que os une e ataca seus membros. Pior ainda, o agressor não apenas responde ao ambiente senão que também atua sobre ele produzindo novas reações.

Por que o sujeito agride?

Agressividade e narcisismo são contemporâneos na formação do eu. Como o eu se forma a partir da imagem do outro, quando o sujeito vê seu próprio corpo na imagem do outro, ele percebe seu próprio domínio realizado no outro.

Lacan cita Sto .Agostinho : “Vi com meus olhos e conheci um menino pequeno, prisioneiro do ciúme. Ainda não falava, mas já contemplava, pálido e com um olhar envenenado, seu irmão de leite”. Não é preciso muita teoria, basta apreciar crianças brincando para constatar este modo de identificação narcísica, correlativa à agressividade e que determina a estrutura do ego. A criança que bate, afirma que lhe bateram, aquele que vê o outro cair, chora. Ë nesta identificação com o outro semelhante, que o sujeito revela sua ambivalência estrutural. O sujeito agride e zela, zela porque se identifica. O ciúme primordial não se origina na inveja pelo objeto do outro mas da própria identificação com o semelhante.

O eu está ligado à imagem do corpo. A criança vê sua imagem total refletida no espelho e identifica-se com essa imagem , imagem ideal, à qual ela jamais conseguirá unir-se. Esta visão unificada, globalizada de seu corpo não condiz com o estado de dependência e impotência motora em que se encontra. Lacan chama de “identificação primordial com uma imagem ideal de si mesmo” a esta relação erótica onde o indivíduo humano se fixa a uma imagem que o aliena de si mesmo.

Com seu estudo da paranóia, Lacan considerou um traço universal: o eu possui uma estrutura paranóica, é um lugar de desconhecimento, o que significa que não conheço o que está em mim, vejo-o no outro, do lado de fora.
Sendo a criança capturada pela imagem do outro, fica estabelecida uma tensão: é preciso destruir esse outro, portador de sua alienação. Ao perceber seu domínio e seu desejo realizados no outro, é levada ao desejo de matá-lo. Toda relação especular é uma relação mortal, só superável pelo surgimento do simbólico.

Não há acordo possível entre o eu e o eu ideal. Apenas o ideal do eu – simbólico- pode vir a por um termo nesta relação. O ideal do eu, nos diz Freud, é o conjunto de traços simbólicos implicados pela linguagem, pela sociedade e pelas leis. O sujeito pode aí encontrar um lugar para si onde pode ser amado na medida em que satisfaça certas exigências. Assim, o simbólico organiza o imaginário prevalecendo sobre ele. O ideal do eu é constituído fundamentalmente por exigências externas ao indivíduo, particularmente por imperativos éticos transmitidos pelo pais, exigências às quais o sujeito terá como norma satisfazer. Veiculadas pela linguagem, elas operam a mediação entre o eu e o outro, necessária para que seja superada a relação dual imaginária. Tais exigências, são designadas por uma instância de censura bem como de consciência moral. Instância que observa e que é também uma voz, que mede os desempenhos de um indivíduo pelo ideal e que instaura o dito dos pais como voz, enquanto porta-voz da lei e da moral. Se o sujeito pode ser amado na medida em que satisfaça certas exigências, esta é a prerrogativa para a instituição do laço social.

A mediatização do simbólico pode se dar em diferentes graduações: no indivíduo “normal” ela é mais evidente mas à medida que perde força pode levar a desequilíbrios lançando o sujeito na psicose e rompendo os laços sociais. O que confere às pulsões anárquicas uma ordem, constituindo a rede de significantes, é a linguagem. Ao estado anárquico de dispersão das pulsões, Freud chamou pulsão de morte. No mundo humano a palavra intervém como estruturadora e valoradora do imaginário, sendo o “exterior ” a que se refere Freud. “A ordem vem de fora” – diz Freud- e esse fora é a linguagem, a função simbólica.É a palavra que ordena e regula o imaginário. Segundo Lacan, no caso Aimée, nada vinha regular e mediatizar .

Violência remete a violentar , mas também a violação, transgressão da lei. Lei do pai simbólico, agente da proibição , que ocupa um lugar muito preciso e cuja constituição permite que o sujeito escape da psicose. O pai permissivo rearticula a função da mãe: o lugar da lei volta a ser ocupado pelo pênis, objeto do gozo da mãe. Há que distinguir entre um Outro que tem a ver com o significante e um Outro que tem a ver com a lei. O lugar do A como código, como lugar da significação, está presente para o psicótico, uma vez que ele fala. Mas o outro do psicótico, desde o ponto de vista do Outro da lei, funciona na realidade como um lugar sem lei.

Lacan preconiza a falência da função paterna e nos anos 60 o discurso liberal de permissividade e igualdade produziu efeitos catastróficos. Discurso perverso que lança o sujeito no lugar de objeto de um gozo masoquista, separado do bem- estar e situado além do princípio do prazer. Gozo masoquista associado ao benefício primário do sintoma, mal – estar que ameaça a humanidade.

Em nome de um gozo que não coincide com o bem-estar, o sujeito pode cometer o crime com o objetivo de ser castigado. Crime no real na psicose, crime no pensamento na neurose, gozo do castigo em ambos. Na paranóia, castigo como cura, na neurose obsessiva castigo como fantasma, na histeria gozo masoquista no sintoma. Na cultura apego ao gozo como bem supremo, como mal-estar e ainda como dor.

Freud colocou em relevo a posição dos pais na constituição do narcisismo: “O amor dos pais pelo filho equivale a seu narcisismo recém-renascido”. Produz-se uma revivescência, uma reprodução do narcisismo dos pais, que atribuem ao filho todas as perfeições e projetam nele todos os sonhos a que eles mesmos tiveram de renunciar. Realizando esses sonhos, o bebê imortalizaria o eu dos pais. Nesta conjuntura, viriam inscrever-se as imagens e palavras dos pais, num processo semelhante aos votos das fadas boas e más sobre o berço do recém-nascido.
Quando o simbólico (a linguagem) fica obstaculado pelo muro do imaginário, quando o simbólico não se inscreve, o que resta para o sujeito é a relação especular, destrutiva, apenas mediatizada pelo murro.

A Clínica Escuta Analítica realizou, durante o ano de 1999, um trabalho no Colégio Oswaldo Aranha – capital de São Paulo onde houve um grave incidente, que lesou significativamente um aluno e levou o agressor à prisão. A partir de então, outros incidentes menores gerados ou não pelo fato, passaram a perturbar o andamento e a regularidade do ano escolar.

Iniciamos o trabalho com os alunos numa classe de primeira série do segundo grau onde os professores sabiam da ocorrência de sérias desavenças entre dois grupos de garotas.

Ao questionarmos estes adolescentes sobre sua opinião a respeito das possíveis causas da violência que se instalou no Colégio, eles nos responderam prontamente que se tratava de falta de diálogo. Perguntamos então por que, nas querelas entre os dois grupos da turma não podia haver diálogo. Eles nos responderam prontamente que sim, houve diálogo; entretanto, ao nos aprofundarmos mais sobre o teor do discurso, constatamos que tais diálogos se resumiam a ameaças. Ameaças tecidas numa rede imaginária de agressões onde a única saída é a eliminação do outro semelhante na pancada ,no murro, no desaparecimento. Tanto sucesso tinha a empreitada que a garota – alvo envolvida, não estava comparecendo às aulas. Nossa intervenção pode abrir espaço para um diálogo _ não dois monólogos _ eliminando o muro desta relação especular onde o outro pode ser ouvido em sua singularidade e o murro não precisou ser mais utilizado.

Joaceri Merlin
Trabalho apresentado na Jornada “Os Sintomas em Voga” na Escola da Causa Analítica do Rio de Janeiro em agosto de 1999.

Deixe um comentário