10 fev

Anorexia e Desejo

A anorexia apresenta-se hoje como uma das patologias típicas deste final de século. Há vários aspectos da anorexia que podem ser abordados: o social, o médico, o religioso, o psicológico. À primeira vista ela veste a máscara de um mal social, ou seja, adolescentes presas de um ideal de magreza imposto pela mídia. Cultura da imagem, que impõe a essas jovens, conceitos e valores sobre a estética onde o normal e o patológico se confundem apresentando fronteiras cada vez mais difusas. Ideal feminino de magreza que desafia a vida.
Nosso objetivo neste texto é pontuar alguns segmentos desta patologia que pertencem ao campo da psicanálise. Em nosso entender, nenhum movimento social exerce sua força a menos que encontre respaldo em poderosos subsídios inconscientes. A sociedade e a cultura podem provocar a emergência – em forma de desajustes – de aspectos mal constituídos em nossas estruturas psíquicas. Não fossem esses aspectos mal constituídos do feminino, não haveria este poder.

A abstinência alimentar da anoréxica nos remete à abstinência de todo o desejo.

Para pensar o desejo, nada melhor que recorrer a Hegel pois este filósofo alemão do final do iluminismo foi quem melhor o descreveu. Para Hegel, a questão do desejo está ligada à questão do sujeito. Ele nos diz que a consciência caracteriza-se por uma atitude passiva frente ao mundo mas a auto-consciência constitui-se através da ação. A consciência é consciência do objeto mas não é consciência de si mesma.

Absorvida na contemplação do objeto, ela nele se perde e nele se aliena. Ela é literalmente uma consciência sem eu. O indivíduo absorvido e perdido no objeto pela atitude cognitiva, não pode revelar-se a si mesmo senão pelo desejo. Se o conhecimento o mantém passivo, (contemplativo) o desejo impele-o à ação. Esta ação é fundamentalmente negadora posto que seu objetivo é a transformação do objeto desejado. Assim, por exemplo, o desejo de comer, para ser satisfeito, implica a assimilação, destruição e transformação do alimento.

É também o desejo que vai operar a oposição entre consciência de outra coisa e consciência de si, entre o não-eu e o eu. Só há eu no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo. Assim, enquanto o conhecimento revela o objeto, o desejo revela o eu.

O eu do desejo, tal como o próprio desejo, é um eu vazio! A determinação desse vazio vai ser feito em função do não-eu negado.
Se o não-eu negado é um não-eu natural, o conteúdo do eu que se forma pela ação negada será também natural. A um desejo natural corresponde portanto, um eu natural (animal). Para que o desejo supere sua forma natural e se constitua como desejo humano, são necessárias 2 condições:

1. que o desejo se volte para um objeto não natural
2. a existência da linguagem.
Para que o desejo se constitua como desejo humano , é necessário que ele
se dirija para um objeto não-natural. Mas, para Hegel, o único objeto não natural é o próprio desejo. O desejo humano é pois, desejo de outro desejo sendo o desejo um vazio.
Mas, se o desejo humano é sempre desejo de outro desejo, como justificar o fato de que, enquanto homens, desejamos objetos?

Hegel responde que o desejo humano volta-se para objetos na medida em que estes se constituem como objetos do desejo de outros homens. E, o mais importante é que, nesta medida, ao nos apossarmos desses objetos, estamos afirmando nosso domínio sobre o desejo do outro. O que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano.

Esse reconhecimento só pode ser feito pela palavra, Segunda condição do desejo humano. Fora da linguagem não há eu humano.

É essa luta pelo reconhecimento que vai constituir o tema central da chamada dialética do senhor e do escravo ou figura da dominação e da servidão em Hegel.

A psicanálise nos coloca , desde o início, no registro da linguagem. O estudo dos lapsos, dos atos falhos, dos sonhos, não fazem mais que apontar para uma fala que foi interditada. A linguagem produz uma desnaturalização do mundo e, por força disto, uma desmaterialização do próprio corpo.

Para a psicanálise, a idéia de um corpo humano natural não tem sentido. Humano e natural são predicados contraditórios. O corpo humano é um corpo capturado pelo simbólico.

O desejo animal é determinado pela falta do objeto que será preenchida pelo próprio natural.
O desejo humano é determinado por um vazio cujo objeto é um outro desejo. Podemos dizer que para o homem, o objeto natural foi perdido. Para a psicanálise, ele nunca foi tido.

Este vazio se sustenta como um buraco no ser, análogo ao oco de uma árvore ou de uma caverna. O ser do oco ou da caverna, consiste em ser um vazio, mas nem por isso pode ser identificado ao nada. O vazio do oco pode ser a morada de um pássaro como o vazio da caverna foi e continua sendo morada de homens. Se retirarmos a árvore, não permanece o oco. O vazio do oco nos remete à árvore assim como o vazio no ser nos remete ao ser.

O que deseja a anoréxica?

Ser o desejo-em-si, ser o vazio-em-si ?

Não desejar nem ser desejada. Domesticar o desejo.

Em 1873, um médico francês, Lasegue, descreve a anorexia com características psicológicas ressaltando o contentamento e a complacência na atitude da anoréxica. Ele diz: “Prazer do auto-controle, prazer de controlar o médico, prazer auto-erótico mantido pelo aguçamento da fome”. E é Lasegue quem previne: a anoréxica é toda poderosa na sua anorexia. A ela, nada lhe falta.

Apagando de seus corpos todo sinal exterior de feminilidade, as anoréxicas desafiam o desejo desfilando amenorréicas e lisas, ausentes da sedução do alimento, longe da sedução dos homens.

A análise é o que pode confrontar a anoréxica com a falta , castração, que nos coloca a todos como sujeitos faltantes e portanto, como sujeitos desejantes.

Joaceri Merlin
Trabalho apresentado no encerramento do ano de 1998 no ITM – São Paulo.

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