10 fev

Saber Médico e Saber Psicanalítico

Este trabalho traz uma reflexão acerca do 5º capítulo do livro de Oscar Masotta, “O Comprovante da Falta” que trata da diferença entre saber médico e saber psicanalítico – se é que podemos afirmar que há um saber psicanalítico. O objeto da medicina é o corpo anatômico, orgânico, enquanto o da psicanálise é o corpo erógeno, resultado de um aprendizado que origina-se no contato com o corpo da mãe.

Em nosso dicionário da língua portuguesa – Aurélio Buarque de Holanda – encontramos 20 diferentes acepções para o verbo saber. Destaco aqui umas poucas para podermos pensar:
Saber – ter conhecimento, ciência, informação, conhecer, estar convencido, ter certeza; ter conhecimentos técnicos especiais, perguntar, indagar, prudência, tino, sensatez.

Das significações que mais se aproximam de nossa prática, a Psicanálise, destacamos as que se encontram sublinhadas. As restantes afastam-se de nossa área, aproximando-se mais do discurso médico.

Freud sempre se preocupou com a questão do saber médico porque implica um saber prévio sobre o sujeito. Em medicina procuram-se indícios e sintomas que permitam enquadrar o paciente na nosologia estabelecida. Em psicanálise trata-se da singularidade do sujeito, sua história, seu passado.

Masotta nos mostra o quão diametralmente opostas se encontram as duas posições quando afirma que seria um mau médico aquele que viesse a ignorar a evolução e o tratamento de certos males mas seria um péssimo psicanalista aquele que pretendesse saber sobre esses objetos dos quais o paciente pretende saber enquanto estes lhe são enigmáticos.

O saber une o médico aos objetos enquanto o psicanalista deve evitar que o objeto una-se ao saber.

Na etimologia, saber é ter gosto. Para Freud, a origem do saber é o sexual. Segundo ele, a criança quer saber, é um investigador incansável, tem gosto pelas coisas sexuais. Em “Três Ensaios sobre Sexualidade”, no segundo ensaio há uma seção denominada Pulsão de Saber. Se a pulsão busca satisfação, devemos entender aqui a indicação de Freud que, um dos alvos da pulsão é o saber.

Sendo a pulsão sexual, todo saber está ligado à sexualidade. As primeiras indagações são sobre a sexualidade, interesse que posteriormente, converte-se em amor ao conhecimento.

Neste ensaio, Freud faz uma afirmação interessante: “Sua atividade ( a pesquisa sexual ) corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação e, de outro, trabalha com a energia escopofílica. Suas relações com a vida sexual, entretanto, são particularmente significativas, já que constatamos pela psicanálise que, na criança, a pulsão de saber é atraída de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos problemas sexuais e talvez seja até despertada por eles.”

O saber está, portanto, ligado à satisfação da pulsão, ao mesmo tempo que atende a um desejo de dominação. Desejo ao qual o analista renuncia sabendo, através de sua própria análise, que renunciar ao saber é renunciar ao encontro com o objeto.

É enquanto sujeito suposto saber que o doente visualiza o médico a quem procura. E o ato diagnóstico, à medida que nomeia a doença, possibilita ao paciente angustiar-se menos, permitindo que ele possa ser reconhecido em algum lugar. Ao dizer “você é depressivo e depressão é uma doença”, o médico pode estar impossibilitando o contato do sujeito com sua subjetividade. Tampona-se a falta de significação do paciente com o rótulo da doença.

Quando o desejo de reconhecimento é, antes, o desejo de existência, e para existir para o médico é preciso estar doente, então é para buscar esse saber absoluto, capaz de livrá-lo da angústia e apaziguar seu mal-estar, que ele, ao pedir cura, pede também que o mantenham doente, que o tratem como doente que sofre (Tourinho,1994).

Neste ponto a medicação e o rótulo da doença aparecem como uma possibilidade de identificação impedindo o paciente de construir sua própria significação.

Calando o sintoma, o médico faz calar a verdade que nele se expressa. Segundo Freud, o conhecimento sobre a doença tem tanto efeito como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres, tem sobre a fome.

Em cada tratamento, analisa-se cada sujeito como um particular diferente de todos os outros mas também, o que nele participa do sujeito como um todo e como tal, é fixado na função fálica.

O universal do sujeito é a passagem obrigatória pelo Outro como lugar significante.

Ao afirmar que a ciência não pensa, Heidegger esclarece alguns de nossos questionamentos. A ciência, enquanto ciência, não pode decidir quanto ao que é o movimento, o espaço, o tempo. É próprio de sua essência que por uma parte ela dependa do que pensa a filosofia mas, por outra parte, ela mesma olvida e descuida o que ali exige ser pensado.

Ou seja, a ciência não pensa no homem. O saber científico exclui o sujeito.

A psicanálise não é humanista mas se preocupa com o homem. O saber médico se sustenta num dizer sem sujeito, a psicanálise, no sujeito que fala. Palavra que falta para unir o saber que se articula livremente sem saber de si, e o sujeito, ávido de respostas que minimizem seu sofrimento.

A suposta certeza de uma natureza verdadeira e última não combina com a psicanálise.

Por que pensar em psicanálise? Para evitar utilizá-la como velamento teórico, ou seja, tentamos fazer uso da teoria como instrumento em referência a uma clínica , nunca como um fim em si. E há aqueles para quem ser freudiano, kleiniano, lacaniano, é um fim em si.

O saber do analista foi denominado “douta ignorância”: doutor de tanto saber a ignorância. Em psicanálise é do próprio lugar do saber do que se trata.

O discurso médico é similar ao discurso do mestre, apoiado num saber suposto. Quando Freud vence a batalha para retirar a psicanálise do poder dos médicos, emerge como conseqüência imediata, a retirada da neurose do rol das doenças. Quando falamos em neurose hoje, estamos todos incluídos.

Trouxe também como efeito, o escancaramento da dificuldade da cura. Se entendemos por cura o restabelecimento da saúde, podemos dizer que em medicina o objetivo é o retorno a um estado de equilíbrio anterior à doença, compreendendo-se esta como uma perturbação do organismo sadio.

Mas em psicanálise, lida-se com estruturas, com algo que foi paulatinamente construído, arquitetado, na história do sujeito.

Assim sendo, podemos falar em cura?

A proibição do incesto, norma constitutiva da própria condição humana, causa estruturante do corpo erógeno é a base dos conflitos, etiologia que desencadeia as neuroses. Podemos falar de cura?

Há um provérbio que diz: “Se não morrer da cura, ficará melhor”.

O objeto da psicanálise é um sujeito aprisionado em seu corpo erógeno.

Um saber que o analista detém, por exemplo é que os sintomas satisfazem, constituindo-se num sistema onde algo se arranja. Caráter paradoxal que apontou Freud em “Inibições, Sintoma e Ansiedade” (1925) onde, ao mesmo tempo que o sintoma é fonte de satisfação, também angustia. O que leva Lacan a dizer: “até certo ponto é sofrer demais que é a única justificativa de nossa intervenção”. (sem. XI p.158) Como o oleiro, o analista constrói um vaso em torno ao vazio.

Quando muito, curar-se em psicanálise é dar-se conta de uma história. História que vai mostrar o quanto o sujeito é o agente de seus próprios avatares, dores e padecimentos.

“Pescar nas águas do inconsciente é algo mais que chegar a conhecer os peixes que habitam um elemento turvo”. (Masotta)

Ao analisar “Um caso de exceção” no livro A Operação Psicanalítica, R.F.Couto diz: “a análise pode progredir perfeitamente na ignorância de qual é o objeto transferencial”. E citando Pommier prossegue: “Qualquer saber constituído, seja médico, psicológico, freudiano, lacaniano ou outro, será sempre um obstáculo para escutar um analisante em particular porque oporá seu próprio código de leitura à singularidade de uma palavra (…) A experiência do não-saber ( que nenhuma universidade sanciona) permitir-lhe-á escutar”.

Um analista não pode prometer a cura, nem a felicidade nem a harmonia uma vez que estas se situam além do princípio do prazer. Mas pode prometer aclarar o desejo do sujeito e decifrar o que insiste numa existência.

Não significa que, ao aceitarmos a particularidade de cada sujeito, estejamos desprezando as noções de estrutura generalizáveis. Podemos dizer que se não houvesse a generalização, não haveria nada sobre o que se comunicar entre analistas. As generalizações nos ajudam a compreender as particularidades.

Não estamos fazendo a apologia da preguiça. Ao contrário, estudamos, lemos e discutimos de modo permanente para compreender a singularidade de cada sujeito mas nunca para enquadrá-lo num rol.

Poderíamos apontar aqui um grande risco que corre a psicanálise: a má interpretação de seus princípios. Se – como afirmou Lacan na proposição de 9 de outubro – o psicanalista só se autoriza por si mesmo, se não há saber prévio sobre o sujeito, se o silêncio é um grande recurso do analista, parece que não haveria nada a fazer. É a inércia absoluta.

Não se trata disso. O psicanalista só se autoriza após anos de sua análise própria, a teoria psicanalítica é a base de todo nosso trabalho e o silêncio é um silêncio de saber, não sobre o objeto, mas sobre a importância da regra fundamental que permite ao sujeito associar livremente.

Esta renúncia ao saber é o que chamamos “douta ignorância”.

Fora disto, há a charlatanice.

“Ser analista é valer mais quando não se é que quando se é.
É amar na paixão da ignorância
É chegar, sem ser avisado, no lugar da surpresa ou da assombração”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • COUTO, R. F. La Operación Psicoanalítica. Buenos Aires, Xavier Bóveda, 1994.
  • FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Três Ensaios sobre a Sexualidade (1905), vol. VII.
  • FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. A Psicanálise Silvestre (1910) vol. XI.
  • FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Psicanálise e Psiquiatria (1916-1917), vol. XVI.
  • FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Sobre o ensino da Psicanálise na Universidade (1919), vol. XVII.
  • FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. A Questão da Análise Leiga (1926) , vol. XX.
  • HEIDEGGER, M. A Ciência não pensa. Entrevista concedida à TV Alemã ZDF no 80º aniversário. Tradução da Fundação Centro Psicanalítico Argentino.
  • LACAN, J. O Seminário. Livro 11. R.J., Jorge Zahar,1988.
  • MASOTTA, O . O Comprovante da Falta. Campinas, Papirus, 1987. Cap. V.
  • POMMIER, G. Lunes de Psicoanálisis en la Biblioteca Nacional. Buenos Aires, Lugar Editorial, 1996.
  • TOURINHO, M. L. O que pode um analista no hospital. Tese de Dissertação de Mestrado na PUC de São Paulo, 1994.

Joaceri Merlin
Trabalho publicado no Boletim ITM – 1998

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