10 fev

Narcotização da Palavra

O ser humano ao nascer toma seu primeiro banho de linguagem. Primeiro banho este que foi sendo preparado ainda no ventre materno – até mesmo antes, por gerações anteriores à geração de seus pais. Este é um tempo místico, de nascimento do ser falante, tempo este que fixa e estabelece seu lugar na constelação familiar. Fixado e estabelecido como ser falante, podemos dizer que o ser humano padece de uma patologia incurável. Incurável, porque para todo ser falante há de entrada, uma imposição que é a da linguagem. Aprendemos a falar, a articular uma língua, seja ela qual for, a partir desta imposição. Então, da entrada na linguagem já está descartada para todo ser vivente, qualquer harmonia, qualquer equilíbrio.

Este mal estar é estrutural, está para todo ser falante por ser capturado pela linguagem. Patologia incurável que faz com que o ser falante ao nascer fique impossibilitado de viver livremente e de se governar por leis próprias. E sim, este ser será governado e dominado pelas leis do inconsciente. O ser humano então ao nascer, é uma resposta ao desejo do Outro. É deste Outro, portanto, lugar do significante que surge o ser do Sujeito. A relação que o Sujeito tem com o significante do desejo do Outro, que é a lei que proíbe o incesto, que possibilitará que o Sujeito constitua discurso.

Freud nos seus primeiros estudos descreveu a histeria como uma “anomalia do sistema nervoso” acompanhada da formação de um excesso de estímulo dentro do orgão anímico. Freud, nesta época, não prescreve narcóticos, por tratar-se de um excesso que ampliaria o estado patológico de suas histéricas. Prescreve como terapeutica adequada a hipnose, cujo objetivo era aliviar os sintomas através das recordações que estavam ligadas ao sintoma, na medida em que o paciente falava.

Mesmo trabalhando sob um modelo biológico e usando como técnica a hipnose foi a partir dela, das investigações que fazia, que Freud faz descoberta dos efeitos da língua sobre o corpo,onde as palavras mágicas do hipnotizador comandavam as atividades do hipnotizado.

No texto “Tratamento Psíquico” de 1890, Freud escreve que “entre o corpo e o espírito há um vínculo de reciprocidade marcado pela magia das palavras sobre o corpo”. Neste domínio o sujeito hipnotizado só vê, ouve e compreende o hipnotizador. Aqui podemos fazer uma analogia ao ideal materno, quando uma criança ao ser amamentada fica como hipnotizada pelos olhos de sua mãe. E quando alucina que está sendo amamentada só vê e ouve uma pessoa, o resto do mundo fica adormecido. Freud marca esta relação do hipnotizado com hipnotizador como uma relação intensa de amor, e um excesso, excesso esse que é “fonte tóxica”, onde os hábitos patológicos são removidos, mas criado este amor, de transferência um hábito doentio, uma nova adicção. Esta relação intensa de amor, este excesso de amor, entre hipnotizado e hipnotizador faz com que o hipnotizado fique magnetizado pela pessoa amada. Não vendo e nem contando com mais ninguém além do hipnotizador. Assim como as histéricas de Freud, alguns analistas magnetizados pela obra de Lacan fazem da psicanálise uma religião colocando Lacan como um pastor que seu rebanho terá que segui-lo. Ficam numa posição de magnetizados e hipnotizados na certeza de que no futuro não surgirá outros. O próprio Freud ressaltou dizendo que não se deve abusar do método hipnótico, pois este método, ou melhor esta droga, tem como efeito colateral a dependência do enfermo ao médico. Assim como uma criança pequena tem esta relação de dependência extrema de sua mãe ou de quem cuida dela.

Tal dependência fez com que uma menina de 7 anos procurasse sua análise para falar o que fazia todos os dias. “Fale o que você faz todos os dias”, esta frase foi dita por sua mãe para situar o que é uma sessão de análise. Esta menina começa sua análise falando o que fazia desde a hora que acordava até a hora de dormir. Ficou durante muitas sessões fazendo este relatório diário falando o que aconteceu desde a última sessão até o próximo dia da outra sessão. Até esta que num certo ponto falava: “agora estou aqui”.

Neste “agora estou aqui” que parecia o início de sua sessão ela se angustiava um pouco e dizia que queria ir embora..ou lembrava de algo que tinha feito e que ainda não tinha falado. As intervenções iniciais de minha parte ele escutava mas, voltava logo a falar de seu relatório. Depois de um certo tempo ela foi se soltando separando-se pouco a pouco de seu relatório até descobrir que podia fazer sua sessão de outro modo, o que culminou no relato de um sonho onde descrevia um homem estranho, que ás vezes se confundia com seu pai, sequestrando-a. Nesta encenação, nesta fantasia de sedução, nesta Outra Cena, esta analisanda oferecendo-se como objeto tem como resultado de sua oferta o assassinato do pai. Pois no momento em que o pai, deseja não é mais um pai digno deste nome. Desvelada sua indignidade enquanto pai perde com isto a função de interditar o incesto. A analisanda continua seu relato dizendo que ela e a empregada conseguiram fugir do provável sequestro. Seduz e se esquiva, deseja e mantém um desejo insatisfatório para permanecer na espera deste gozo.

Numa outra sessão diz: “Sonhei que estava com minha empregada e o meu pai querendo me sequestrar” e faz um comentário sobre o sonho: “Estranho, não é?!”. A partir desta gloza, deste comentário que a sonhadora se implica no que diz e o analista no seu dizer. Pois só o analista implicado no dizer é que se pode falar da existência do inconsciente.

Freud, pouco a pouco, vai abandonando a hipnose e deixa suas histéricas falarem cada vez mais. No momento mesmo, com sua escuta, onde possibilita que a histérica constitua seu desejo no ato da fala, é que Freud descobre os mecanismos do inconsciente nas relações do desejo com a linguagem. Freud deu vida ao desejo do analista, pois só este pode produzir o sujeito do inconsciente, o sujeito da psicanálise.
A experiência de uma análise é a possibilidade que o sujeito tem de reconhecer-se naquilo que diz. E o sujeito reconhecendo-se naquilo que diz constrói mais um ponto de sua história. Esta analisanda então que estava como objeto do Outro – muda sua posição no discurso e começa a tecer sua história familiar, a falar do que lhe acontece.
Esta Outra cena, neste lugar Outro da linguagem é que possibilitará ao ser que fala construir sua novela familiar, dizendo o que lhe acontece e até o que faz, mas com seu desejo em seu devido lugar e não mais como escravo do desejo do Outro.

Hipnotizar não é uma especialidade médica e sim, é o poder que a palavra tem sobre o ser falante. Para todo falante a entrada na linguagem é abrupta e obrigatória. Então desde que nasce, o ser falante por ser escravo da linguagem é um ser hipnotizável. E os efeitos que as palavras têm sobre ele tanto podem paralisar como estimular, podem impedir e/ ou modificar. As palavras do amo são ordem para serem obdecidas. A estes imperativos seus escravos seguem: estude, faça, não faça, fale, não fale, grite, não grite, beba e pare de beber – o escravo obedece.

Um homem que dizia ser alcóolotra frequentou algum tempo os “Alcoólatras Anônimos” porque sua mulher o obrigou a ir. Diz que não ficou muito tempo indo às reuniões pois não aguentou ficar ouvindo mais as experiências dos outros. E também não aguenta mais ter que ficar obedecendo as ordens de sua mulher e de seus filhos. E diz mais: “minha mulher e meus filhos não conversam comigo, eles não me escutam, eu não tenho vez e nem voz. Eles só escutam a ela- ela até parece o homem da casa. Quando ela diz pare de beber aí é que eu bebo. Afinal de contas quem é o macho da casa?” Coloco em menção este “macho”. Ele reafirma dizendo que é o “macho” da casa. Eu interrogo novamente com espanto; ele se colocando na posição de macho e sua mulher parecendo o homem da casa. Neste momento a palavra “macho” lhe volta de outra forma. E ele continua seu relato. “É… macho se fala para animal e animal não tem voz. Como poderiam me escutar?”. É, eu sou um homem”. Faz um silêncio… Um pensamento me veio agora, quando ela diz pare de beber e eu bebo, eu não a estou contrariando. Eu estou fazendo o que um tio meu me disse quando era jovem. Para ser macho tem que beber. E a cada vez que faço isso ela fica como homem da casa. Mas eu sou o homem. Como fazer para não fugir desta responsabilidade?”.

As palavras tem seu peso e seu peso é a mensagem recebida. É o sujeito encontrando-se e reconhecendo-se naquilo que diz. O peso e a responsabilidade de relacionar a palavra com a linguagem, de haver uma sanção à partir desse lugar Outro da linguagem. Lá onde estava o isso, que o sujeito advém, reconhecendo-se, dando peso, dando corpo às palavras. É no momento mesmo do ato analítico, no instante da abertura do inconsciente, neste movimento que o analisante pode se dar conta de um dos significantes que marcaram seu destino.

Esta marca, este rótulo, “sou toxicômano”, “sou alcoolatra”, como um significante representando quem fala, condena este ser falante a ficar por fora do discurso como um marginal, um exilado gozando por fora da lei do desejo.Defrontando-se com o enígma do desejo do Outro, que é a base de todo ser falante, ele, o ser falante poderá criar novas significações relançando seu próprio desejo.
Agora, se há possibilidade do ser falante se identificar de outro modo, defrontando-se com o enígma do desejo do Outro, que é a base de todo ser humano, poderá criar novas significações, relançando seu próprio desejo.

Nós analistas não curamos toxicômanos, pois se acreditássemos que a cocaína, a bebida alcóolica , seja a droga que for, fosse o funesto e o trágico para o sujeito, estaríamos narcotizados pelo ideal de querer curar em massa, e isto nos deixaria surdos e impossibilitados de escutar e de colocar a palavra singular em função. Para nós analistas, o trágico, o sinistro, a droga é a alienação do sujeito diante do desejo do Outro e os sacrifícios que o sujeito faz para o outro fazendo de sua vida uma droga.

A possibilidade de uma análise é abrir o enigma para o sujeito. A pergunta que o sujeito faz em transferência coloca o analista como um sujeito suposto que sabe. Esta neurose de transferência é outra droga, mas uma droga que pode ser analisável. Na medida em que o analista não vai a este lugar do saber, se abstém de qualquer saber prévio sobre o analisante, há a possibilidade do sujeito fazer um trabalho de sustentação entre os significantes, criando novas significações. E o sujeito fazendo novas significações encontra seu lugar no discurso não mais dormente e adormecido pela palavra do Outro. O sujeito continua usando as palavras, mas não mais escravizado e narcotizado por elas, e sim, como sujeito desejante, como um amante da língua.

Neusa Lais Coelho
Psicanalista – Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Tel: (0**21) 2236-0563 – Fax: 512- 4359
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OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21) 2714-8502 / (0xx21) 2704-0060

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