10 fev

Questões sobre Menopausa

Dando continuidade a este ciclo sobre o “Feminino e a Psicanálise”, hoje nós vamos discutir sobre a questão, ou melhor, as questões da menopausa.

O que pode ser dito sobre a mulher que já não tenha sido dito? Ou não dito? Lembrei-me de uma paciente de Freud, nos “Estudos sobre a histeria”, Emmy Von N. que disse a ele: “Fique quieto, não diga nada, não me toque e deixe-me falar”. Um não que Freud escutou que retorna para ele para criar a psicanálise.

Para a psicanálise a diferenca de sexo não é anatômica. Freud escreve: “Não se encontra para o ser humano pura masculinidade ou feminilidade, nem no sentido psicológico, nem no sentido biológico” (1905). A psicanálise tentará dar então uma conceitualização lógica dos lugares em que se localizar como homem e como mulher.

Bom, para situar essa localização lógica, vamos começar do início. Freud, em 1908, no texto sobre “As Teorias Sexuais das Crianças” considerava a diferença anatômica dos sexos do ponto de vista do menino. Dizendo-nos que o menino diante da zona genital feminina alterava sua percepção. Em vez de constatar a falta, o menino, para seu consolo, dizia que ainda era pequeno, e que um dia ele, o pênis, irá crescer. A menina compartilhava com a opinião do menino mostrando-se muito interessada naquele orgão, sentindo-se em desvantagem e com uma inveja muito grande. Freud, neste ponto, junto com as crianças, celebrava a universalidade do pênis.

Em 1923, com o texto “A Organização Genital Infantil” Freud modifica essa universalidade do pênis dizendo da primazia do falo, mesmo esta, tendo uma relação íntima com o pênis na medida em que designa o pênis enquanto faltoso ou suscetível de vir a faltar. Freud explica, então, que não é o pênis enquanto tal, ele esteve lá e depois foi cortado, tirado. “Sabe-se como eles reagem as primeiras impressões provocadas pela falta do pênis”. Negam essa falta e acreditam ver, apesar de tudo um membro; lançam um véu. Isto demarca, um grande valor emocional. A falta de um pênis é compreendida como o resultado de uma castração, e a criança agora se encontra no dever de se confrontar com relação á castração.

Em “Algumas Consequências Psíquicas das Diferênças Anatômicas entre os Sexos”, escrito dois anos depois, ele demarca a forma pela qual o primado do falo se revela para um outro sexo. Pois o ingresso da problemática da castração ocorre para ambos, mas não no mesmo nível. Para o menino, esta descoberta se increve no registro da falta, e para a menina no registro do véu.

Para o menino, ele se interroga sempre essa falta, inaugurando um tempo infinito de compreender, onde aqui a ameaça de castração tem seu valor fundamental. E, para a menina ela viu aquilo, sabe que não o tem e, quer tê-lo. E tem duas saídas: a da esperança, esperança de obter um dia esse pênis que a faria semelhante aos homens ou denega, recusando a reconhecer sua falta, tendo a convicção que o tem assume uma posição masculina.

Para o menino, a ameaça de castração tem seu valor fundamental no momento em que ele se encontra com o furo, se confronta com aquilo que não pode ser pensando sem o conceito da falta, fornecendo assim o conceito do significante do falo. O menino não está diante do feminino como uma evidência, por isso precisa do trabalho do pensamento para significá-lo. Já a menina ela está diante da evidência do pênis: ela viu,ela sabe e ela quer, ela então se poupa do trabalho do pensamento, criando uma tela, um véu para ocultar sua falta.

Para destinguir melhor isto podemos falar do registro simbólico e do registro imaginário. O mesmo é introduzido pela via do simbólico, ele joga com o significante da falta onde ele encontra a falta radical de significante (no inconsciente não há registro da vagina, não há registro do feminino). Na menina é pela via imaginária que ele se introduz atribuindo ao pênis a função de uma identidade sexual da qual ela se sente privada.

Bem, vamos avaliar agora as consequências do complexo de castração nas duas estruturas edípicas. O menino consuma o apego que havia manifestado ao primeiro objeto de investimento amoroso (a mãe). Existe, para o menino, um futuro para seu complexo de Édipo?. A resposta é não! No texto de 1923, “A Dissolução do Complexo de Édipo”, Freud nos diz que o complexo de Édipo no menino é estilhaçado e recalcado pela força de castração.

A situação da menina é mais complicada. Sendo a mãe também o primeiro objeto de amor, a menina é levada a renunciar esse primeiro objeto para substituí-lo pelo pai.

Então, podemos ver que há uma dissimetria para um sexo e para outro. No menino, o Édipo desaparece, e na menina é a origem do Édipo, ou seja, a origem da renúncia à mãe e da eleição do pai.

Uma das consequências desta etapa (além do sentimento de inferioridade, ciúme feminino, intensa reação a masturbação clitoridiana) é o afrouxamento da ligação terna à mãe enquanto objeto. A filha responsabiliza à mãe por sua falta de pênis, acusa-a de colocá-la no mundo como insuficiente. A filha se vê desprovida de um signo indiscutível de sua própria identidade sexuada pois acredita que sua mãe não lhe deu o verdadeiro órgão (como deu ao menino).

Esta falta de identidade a faz se identificar à mãe. Mas maternidade não é feminilidade. E mais, esta identificação é ambivalente pois a mãe é também privada de pênis e por isso desvaloriza para a filha.

Então, o pai substitui a mãe, a libido da menina se volta agora para a equação simbólica pênis = filho, logo, o desejo do filho vem tomar o lugar de desejo do pênis. Tomando o pai como objeto de amor, a mãe, para a menina vira objeto de seu ciúme.

Sublinhei este desejo do filho pois este do tem duas vertentes. Uma pode ser desejo do filho, da filha, que quer dizer, o desejo da criança pela mãe. Outra, o desejo de ter um filho. A criança indo a este lugar de pênis, cobrir a falta na mãe, o signo da identidade feminina é sempre apenas uma esperança, até mesmo uma denegação. Por isto, muitas das vezes, a maternidade é acompanhada de uma depressão. Então, tentar cobrir a falta na mãe com um filho, é um retorno à mãe com toda a ambivalência dessa relação.

Então, podemos dizer que há uma persistência de uma relação ao Outro que perde suas forças pela intervenção paterna. E aí podemos dizer que a filha é “não – toda” assujeitada a essa função de metáfora (não há substituição propiamente dita). A instância paterna não faz desaparecer o primeiro Outro materno.

A função do pai tem por base introduzir o sujeito na lei do falo. Mas este significante do falo é insuficiente para significar o que seria a feminilidade.

Por isto podemos dizer que a metáfora paterna é insuficiente para atribuir a um sujeito seu lugar de mulher.

Bem, vou falar de um fragmento clínico, acerca de uma mulher (mais ou menos 40 anos) que me procurou há muitos anos atrás. Esta mulher não sabia o que fazer com a filha, que na época contava com 14 anos. Esta moça, na época , quis estudar piano e pediu para sua mãe contratar um professor ou uma professora de piano. Esta mulher contrator um homem jovem, dizendo que teve informações excelentes dele, como professor de piano . E quando se deparou com a situação não suportou,. não saía da sala enquanto ele estivesse lá, pois tinha medo que esse jovem professor aproveitasse da filha, fizesse algum mal para ela , que a seduzisse sexualmente.

Anos depois, ela retorna ao meu consultório, já com 50 anos, queixando-se de uma depressão muito forte. Logo nas primeiras entrevistas, ela fala algo que me faz dizer que ela, anos atrás tinha me procurado para eu atender sua filha. Nega , e diz que nunca tinha me visto antes. Após isto, ela consegue associar sua depressão com a menopausa.

Um caso clínico de Freud que está no texto “A Psicoterapia da Histeria” Vol. II: Há algum tempo pediram-me que libertasse uma senhora de seus acessos de ansiedade, embora, a julgar por seus traços de caráter, ela quase não se prestasse a tratamento desta espécie. Desde a menopausa ficara excessivamente piedosa: costumava receber-me armada de um pequeno crucifíxo de marfim oculto na mão, como se eu fosse o demônio. Seus acessos de ansiedade, que eram de natureza histérica, começaram aos primeiros anos da juventude e, de acordo com ela, se originaram do uso de um preparado de iodo destinado a reduzir um crescimento moderado da tireóide. Naturalmente rejeitei esta origem, e tentei encontrar outra que se ajustasse melhor aos meus pontos de vista sobre a etiologia das neuroses. Pedi-lhe primeiro que me desse uma impressão da sua juventude que estivesse numa relação causal com seus acessos de ansiedade. Sob a pressão da minha mão, surgiu a lembrança de ela ter lido o que é chamado de livro “edificante”, no qual era feita uma menção, num tom suficiente piedoso, dos processos sexuais. O trecho em questão causou uma impressão na moça que foi inteiramente oposta à intenção do escritor: debulhou-se em lágrimas e arremessou fora o livro. Isto foi antes do seu primeiro acesso de ansiedade. Uma segunda pressão sobre a testa da paciente, evocou outra reminiscência – a lembrança de um tutor dos irmãos dela que havia manifestado grande admiração por ela, e por quem se entusiasmara um pouco. Esta lembrança culminou com a recordação de um fim de tarde na casa de seus pais, quando todos ficaram sentados em torno da mesa com o jovem e se haviam divertido imensamente numa conversação interessante. Á noite, ela foi despertada por seu primeiro acesso de ansiedade que, posso afirmar, tinha mais a ver com o repúdio de um impulso sensual, do que com quaisquer doses contemporâneas do iodo. Que perspectiva teria eu tido, com qualquer outro método, de revelar tal ligação, contra suas próprias opiniões e asserções, nesta paciente recalcitrante que tinha tanto preconceito contra mim e contra toda forma de terapêutica mundana?

Menopausa é o nome que se dá à última menstruação da mulher, ou seja, àquela menstruação que encerra em definitivo o seu ciclo reprodutivo, tal como a menarca (primeira menstruação) o iníciou.

Também se usa o termo menopausa para indicar uma certa fase de vida da mulher. É quando se diz “Ela está na menopausa” ou “Entrou na menopausa” e o senso comum entende que aquela mulher não menstrua mais, nem pode conceber mais filhos.

Menopausa é uma das ocorrências do climatério que envolve inúmeras mudanças biológicas, psíquicas e sociais que produzem uma sintomatologia geral. Primariamente: irregularidade dos períodos e fluxos menstruais, ondas súbitas de calor, com ruborização do rosto, pescoço e colo. E secundariamente instabilidade emocional, tristeza, depressão; sensível aumento de peso, náuseas; dores generalizadas ou mesmo reumáticas; dores nas relações sexuais; aumento ou diminuição acentuada do desejo sexual; enxaquecas; etc.

Desde a adolescência, então, podemos ver que a mulher é inscrita numa temporalidade marcada por crises que implicam novos arranjos subjetivos, modificações da imagem corporal e do real do corpo na sua fisiologia. Para Freud, a fase da puberdade, da adolescência é designada um tempo após a latência. É um tempo do despertar da sexualidade, é um tempo de fazer acordar o traumatismo sexual sofrido na infância. Nesta fase, culturalmente, dita difícil e até mesmo catastrófica podemos dizer, com Freud, que a puberdade e a adolescência é um tempo considerado como um só-depois da sedução infantil. É um tempo onde emerge a reedição das pulsões parciais da infãncia junto com o primado da genitalidade. Lacan, não sem retornar á Freud diz que é o período traumático de um infeliz encontro com o real do sexo. É o período do declínio do complexo de Édipo onde o falo na sua relação com o campo do Outro, o campo simbólico, experimenta sua perda radical. Esta perda, esta falta é a reserva, a defesa com a qual o sujeito terá que se confrontar para remodelar, refazer e assumir sua posição na função genital. No período da adolescência, nesta fase do declínio do Èdipo quando a função da privação deixa o sujeito castrado à nível de seu ser, é onde o sujeito deverá fazer o luto do falo enquanto sujeito do desejo.

Na menopausa, especificamente, há uma especificidade desta crise que coincide com a aparição das primeiras marcas do tempo, o envelhecimento e os lutos (as renúncias) que ela implica.

Em todo o processo de luto é o pai simbólico, e cortejo da ambivalência em relação ao objeto amoroso perdido, que será convocado.

A depressão se caracteriza por “um estado de espírito profundamente doloroso”, diminuição do interesse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar e inibiçaõ de todas as funções (1915).

Em cada sujeito a depressão tem diferentes significações, que só a análise vai poder desvendar. A depressão apresenta baixa auto–estima, auto – acusações e auto-depreciação. O sujeito não sabe o que perdeu ou não sabe o que perdeu junto com isso. Freud usa a palavra depressão para falar de um luto patológico. Porque fala de um luto patológico? Pois luto requer um trabalho de elaboração, e na depressão trata-se de um luto congelado, eternizado, pela falta de trabalho de elaboração. O sujeito não quer se referenciar na perda não quer se reconhecer como sujeito faltoso, o que o remeteria à castração.

Lacan em “Televisão” define depressão como um pecado, covardia moral frente ao dever do bem dizer, de se referenciar na estrutura, o que seria equivalente a se reconhecer como desejante. O sujeito triste tem medo de saber de seu desejo, o que o leva muitas vezes ao ponto de não querer desejar. O desejo outorga cor e brilho à vida, mas deve ser pago com a castração. Pagamento este que alguns sujeitos não querem fazer. Mas renunciar ao desejo também tem um preço, ainda mais caro: implica ficar triste, sem apetite e, ainda pior, esta renúncia é a causa última das autorecriminações, já que aquilo de que o sujeito se sente realmente culpado é de haver cedido em seu desejo.

Isso explica essa frase aparentemente tão paradoxal, frequentemente em sujeitos deprimidos. “Não vim à sessão porque estava triste, deprimido”. Justamente esse “estar-mal” deveria ser a mola propulsora da vinda à análise. É que ele não faltou à sessão porque estava triste, mas sim ficou triste por não querer vir à sessão, que seria o lugar de poder saber algo de seu ser desejante.

Isto que estamos trabalhando, sentimento de inferioridade, menos-valia, menosprezo, tem a ver com a patologia feminina que é a maternidade. Pois a maternidade faz o transporte do não ter para o ser. Ser o falo do Outro materno. Mãe e mulher superpostas, ela, a mulher, estará toda incuída na problemática fálica compensando sua falta. E o lugar da mulher é um lugar vazio.

É dai que tantas mulheres nos procuram, nós analistas, com depressão, angústia, dores físicas e outros vários sofrimentos por não suportarem esse lugar vazio. Esse lugar vazio , que Lacan, indo mais além de Freud (que ficou só na questão fálica), situou que não se trata só da privação de pênis na mulher. O gozo feminino vai mais lém do gozo fálico.

A mulher necessita fazer- se objeto, ser objeto do gozo do outro, do homem em questão. A mulher não negando, não cobrindo sua falta possibilita que um homem a deseje. É o amor e o desejo de um homem que fará com que uma mulher se identifique como tal.

Neusa Lais Coelho
Psicanalista – Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho apresentado na Palestra “Sexualidade Feminina”
em 24 de maio de 2002 no Instituto Tempos Modernos – SP
Tel: (0**21) 2236-0563 – Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br

OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21) 2714-8502 / (0xx21) 2704-0060

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