10 fev

A Terceridade e o Tempo… em tempo

Fragmentos do que escuto, seja na clínica ou fora dela.

“Não tenho mais tempo, minha vida é um declínio”.

Freud (1915) “Se queres suportar a vida prepara-te para a morte”.

É impossível imaginar nossa própria morte. E, quando a imaginamos estamos presentes como espectadores e não como atores principais desta ficção que é a vida. Pois, no inconsciente, cada um de nós está convencido de nossa própria imortalidade.

O que está em jogo é o viver a vida, onde muitas das vezes esse viver a vida é experimentado como um pesadelo, como algo muito sofrido. Sofrimento esse que o indivíduo ao dizer: “não tenho mais tempo, minha vida está chegando ao fim”, proporciona um fechamento, restringindo sua existência, neutralizando suas possibilidades de expansão.

O homem nasce desamparado. Temos que permanecer nesse estado de desamparo? Temos que permanentemente nos sentirmos mal em todos os momentos de nossas vidas? Temos que, perto do fim – e quando é o fim? – nos sentirmos mal?

Ou podemos trabalhar o mal estar- estrutural e transformá-lo. Já que existem diferenças, rupturas, outros tempos, ritmos e intensidades várias. Leonardo da Vinci começou a desenvolver sua genialidade ainda jovem, em Florença. Só aos 54 anos, contudo,criou a Mona Lisa, sua mais célebre pintura. E também, muitos escritores atingem o auge de sua carreira justamente no fim da vida.

Acontecimentos vários ocorrem na vida de qualquer ser humano. Podemos fazer outras relações com esses acontecimentos ou vamos manter com eles uma relação de sofrimento restritivos? Pois cada acontecimento, no seu tempo, é sinal de atividade, movimento, transformação que pode provocar produção e criação de outras possibilidades. A questão é podemos ordenar as crises, ordenar o caos? Podemos fazer das crises, dos caos começo de algo e não seu fim?.

Freud em “Inibições, Sintomas e Angústia” fala da angústia e diz que a angústia está em relação ao desamparo infantil. Uma mulher de 80 anos que vai a uma entrevista se angustia em estar comigo e sua filha de, mais ou nemos 50 anos estar na sala de espera. E ela me pergunta: “Minha filha pode estar aqui comigo?” Pergunto porque quer que sua filha esteja ali. Ela diz que a filha deve estar se sentindo mal por estar se sentindo só.

A esse Outro, Lacan dirá que a criança atribui um saber totalizante acerca de seus pensamentos. E esse Outro cai no momento em que a criança descobre que não conhece seus pensamentos. Momento este constituitivo do inconsciente. Esse “ele não o sabia” infligido, aplicado ao Outro transforma esse Outro em um Outro atravessado pela barra. Esse Outro castrado, barrado é o lugar de onde advém o desejo.

Em nossa cultura podemos constatar que a ciência, a sociedade, de modo geral tenta reduzir as diferencas através de meios de apropiação totalizante. E esses mecanismos de apropriação bloqueiam os processos de singularização.

Processos esse de singularização que os asilos, orfanatos e a maioria das nossas instituições tentam apagar e, muitas das vezes conseguem apagar. Seja calando a voz do idoso, da criança. Sufocando e impedindo a sexualidade do idoso.

Freud no texto “Simbolismo das fezes e ações oníricas”, trabalha a substituição do prazer sexual pelo excremencial. E diz que quando há esta substituição é por falta de um objeto sexual apropriado. Por fazer calar a sexualidade, por fazer calar o desejo sexual, o homem regride a uma etapa anterior ao erotismo genital que é o erotismo anal. E, Freud continua, os sonhos de defecação podem assim ser também sonhos de impotência. Para um homem que não pode mais copular, diz o povo com seu grosseiro amor pela verdade, ainda resta o prazer de cagar.

Outro fragmento clínico: “Quando a minha mãe morreu minha vida declinou”.

Continuando a viagem, através do tempo com Freud. No texto “Nossa atitude para com a morte”, vol.XIV, a morte é o resultado necessário da vida. Qual á a atitude do nosso inconsciente para com a morte? Nosso inconsciente não crê em sua própria morte; comporta-se como se fosse imortal”.

O medo da morte que nos domina com mais frequência do que pensamos é, via regra, o resultado de um sentimento de culpa. A expressão “Que o diabo o carregue”, que tantas vezes aflora os lábios das pessoas em tom de brincadeira e que, na realidade, significa “Que a morte o carregue”, é em nosso inconsciente um sério e poderoso desejo de morte.

Caso sejamos julgados por nossos impulsos inconscientes impregnados de desejos, nós próprios seremos como o homem primitivo, uma malta de assassinos.

Apenas as crianças desembaraçam-se bem ameaçando umas às outras com a possibilidade da morte. Chegando inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa com alguém que amam. Como por exemplo: “Querida mãezinha, quando você morrer eu farei isso ou aquilo”. Esses seres amados, por um lado, são familiares ao nosso ego, e por outro lado são estranhos e até inimigos.

Escutamos tanto na clínica quanto fora dela seres humanos exageradamente preocupados com o bem estar dos parentes ou com auto recriminações inteiramente infundadas após a morte de uma essoa amada.

Em suma: nosso inconsciente é tão inacessível à idéia de nossa própria morte, tão inclinado ao assassinato em relação a estranhos, tão divididos para com aqueles que amamos como era o homem primitivo.

A guerra rouba, priva os acréscimos, os avanços da civilização e coloca em ato o homem primitivo que existe em cada um de nós. Leva-nos mais uma vez a sermos heróis que não podem crer em sua própria morte; estigmatizando os estranhos como inimigos cuja morte deve ser provocada ou desejada.

Foram heróis, por exemplo, os responsáveis pelo asilo Santa Genoveva que ao abandonarem, ao desampararem os velhos que lá estavam lucraram à custa de suas mortes.

Nos diz Freud, não seria melhor dar á morte o lugar na realidade e em nossos pensamentos que lhe é devido, e dar um pouco mais, de proeminência a atitude inconsciente para com a morte, que, até agora, tão cuidadadosamente suprimimos?.

Pacientes que chegam ao consultório com o discurso que nada mais resta fazer do que esperar a morte esquecem que o tempo dá justamente a presença do acontecimento. Estes pacientes se implicando naquilo que dizem, se implicando no tempo do inconsciente, no tempo de abertura do inconsciente – que é um tempo relâmpago onde surge o desejo – podem fazer outra coisa do que simplesmente esperar o tempo . Por exemplo, entrando na era da informática acrescentando além de um dinheiro a mais na sua parca aponsentadoria, uma produção na sua vida.

Muitas vezes os idosos sentem-se inaptos para os tempos modernos, afastando-se do convívio social. A segregação progressiva leva a um completo isolamento. E, se não se mata o desejo antes da morte chegar, é possível, nestes tempos modernos, fazer laços, laços sociais.

Neusa Lais Coelho
Psicanalista – Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho apresentado na Palestra “Sexualidade Feminina”
em 24 de maio de 2002 no Instituto Tempos Modernos – SP
Tel: (0**21) 2236-0563 – Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br

OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21) 2714-8502 / (0xx21) 2704-0060

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