10 fev

Meninos de Rua?Meninos de rua. Nunca me conformarei com esta definição: “meninos de rua”.
Nunca.
Toda vez que escuto, leio, ou pronuncio esta locução, percebo que está tudo errado.
E não somente de um ponto de vista semântico. Tudo errado significa exatamente isto: tudo errado.
E então pergunto: como é possível catalogar um cidadão brasileiro, menor de idade, criança, assim desta forma, com um apelido tão infame quanto este: “menino de rua”? Como se não tivesse ou nunca tivesse tido um pai ou uma mãe, quatro paredes e um teto, um irmão, um tio, uma família, uma casa, um lar…
Estamos tão acostumados a convivência com situações extremas, que aceitamos calmamente olhar para as nossas crianças e, sem pestanejar sequer, logo definir a espécie ou sub espécie humana a qual pertencem: filhos da classe media que freqüentam clube e shopping… meninos que trabalham na rua vendendo balas e chicletes para ajudar em casa (“muito bem: trabalhar nunca fez mal à ninguém, não está roubando, não está matando, melhor trabalhar que usar drogas”)… meninos de rua, moleques, pivetes, trombadinhas, marginais…E assim vai… e assim começa a catalogação do ser humano… e assim continuamos aceitando tudo o que vemos como a coisa mais natural do mundo.

Quantos “pequenos cidadãos brasileiros menores de idade aos quais foi tirada a possibilidade de um desenvolvimento saudável” aparecem em quinze minutos, quando simplesmente me ponho sentada nos degraus da Ladeira da Memória ou nos bancos da praça Dom Gaspar? Dez, quinze, cinqüenta, mil?

Não adianta que mais uma vez passe a descrever a forma de como vivem milhares das nossas crianças: o mundo inteiro já sabe, nós brasileiros já sabemos, já o vimos dezenas de vezes na TV, nos jornais, nos faróis, nas ruas do centro… o que não sabemos é tirar a mascara da hipocrisia e começar o trabalho de resgate da dignidade nossa e das nossas crianças.
Nossa, sim senhor, porque até quando permitirmos a existência de situações extremas, é também a nossa dignidade a ser tragada pelo esgoto que serve de abrigo para as crianças…

“Vem, hoje está frio, vem comigo, vamos na casa de abrigo, onde poderá comer, tomar banho e dormir numa cama quentinha. Vem que hoje vai esfriar muito…”
“Tia, o chão é a minha cama, o céu e as estrelas são os meus cobertores…”

Não, não é uma frase de São Francisco de Assis, estas são palavras de uma menina de onze anos ao recusar-se de ir para uma casa de abrigo em uma noite de inverno, em que a temperatura baixou até cinco graus…

Casas de abrigo… cama quentinha… sopa… banho…
é isto que sabemos ou que podemos oferecer a esta menina? Nós, o Brasil, O BRASIL, gigante pela própria natureza, nós que sentimos um nó na garganta ao ver a seleção de futebol cantando o hino nacional. É isto?

Penso aos meus filhos… quantas pessoas se ocuparam deles, quantos adultos tiveram por perto para ajudá-los no desenvolvimento, quantas atenções receberam para que pudessem tornar-se adultos responsáveis?
Vamos fazer as contas: um pai e uma mãe, constantemente ao lado; dois avós paternos e dois maternos; quatro tios. Saindo do círculo familiar devo computar todos os outros adultos que me auxiliaram: duas professoras na escola, dois na escolinha de futebol, o padre na paróquia… Perdi a conta, perdi a conta! Quanta gente, quanta gente em volta dos meus filhos: todos prontos para ajudá-los, para ensinar, para passar experiência de vida, conhecimento, informação, educação…

E nós, sociedade brasileira, podemos oferecer… casa de abrigo, sopa, cama quentinha, banho?
Está tudo errado. Tudo.

“O que você faz ?”, me perguntariam agora, quase com tom de sarcasmo.
Eu… por enquanto posso fazer muito pouco, mesmo assim
faz mais de um ano que me encontro na rua para conquistar a confiança de cada “pequeno cidadão brasileiro”. Uso a minha experiência de pedagoga, de professora, de mãe para que cada um encontre em mim alguém em quem confiar.
Então começo simplesmente tirando do meu rosto aquela cara de medo ameaçador, de medo de ser roubada, de medo de ser “contaminada”, em vez de me encolher para proteger a bolsa, abro braços e sorriso…
Escrita assim parece a maior bobagem do século. Mas é assim mesmo.
Afinal, o que uma criança quer de um adulto?
Uma vez feita a primeira aproximação, e isto pode durar semanas inteiras, quero começar pelas coisas mais urgentes, quero que todos usufruam do direito sagrado a saúde. E então começo os contatos com os postos de saúde, os hospitais, as clinicas especializadas…
Muitas crianças se encontram drogadas, doentes, com febre, infecções, doenças venéreas…, nada mais justo então de levá-las onde possam ser cuidadas.

Este é o primeiro passo que encontrei para conseguir ser aceita por elas: me interessar aos problemas específicos de cada uma.
Conhecer cada uma pelo nome, procurar a família ou o que restou dela, convencer os responsáveis da importância da escola, ir junto fazer a inscrição na escola, ir junto ao hospital, ir junto, estar junto. Mas não me contento em compartilhar momentos, alegria e tristezas, não. Seria trabalho de santa e eu não sou santa, sou cidadã brasileira com direitos e deveres perante a sociedade.
E é isto que quero, que cada um desses “pequenos menores de idade que nunca tiveram a possibilidade de um desenvolvimento saudável” retome o que é seu.

Mas aprendi que o poder público com os mais fracos é sempre cruel e impiedoso:
poderia enumerar dezenas de casos de espancamento e tortura perpetrados por parte da autoridade policial contra crianças de dez, onze anos; poderia contar as dezenas de vezes que vi crianças impedidas de entrar nos abrigos noturnos por estar sem sapatos ou expulsas dos mesmos por ter feito um pouco de bagunça… Poderia denunciar, escrever, gritar, espernear… nada serviria, já foi feito por pessoas mais importante que eu, e o meu grito não seria ouvido.

Escolhi assim o caminho do trabalho silencioso, usando os meios que tenho (as minhas mãos, e os meus conhecimentos) para conquistar junto às crianças o direito que lhes pertence: a dignidade.
E como a dignidade não pode ser privilégio de alguns em detrimentos de outros, aqui vai o meu apelo à consciência de cada cidadão brasileiro, de todos nós:
o futuro começa hoje e começa para todos.

Edith Moniz
Pedagoga – Coordenadora do Projeto Lataria

Deixe um comentário