10 fev

 

Gangues na rede

Aumenta a violência entre jovens nas escolas: estudantes criam sites na Internet para agredir e intimidar colegas
Adolescentes de 12 anos estão criando sites para agredir, coagir e denegrir a imagem de colegas de colégio. A violência, em muitos casos, sai das aulas de informática e chega a agressões físicas, dentro e fora das escolas. Foi o caso do menor P., de 12 anos. Ele virou alvo de chacota no site Euodeiocatuca, que, em linguagem chula, o ridicularizava, com insinuações de homossexualismo.

Depois que seus pais exigiram a retirada do site do ar e a escola suspendeu por dois dias o seu autor, G., de 12 anos, P. passou a ser agredido por grupos de alunos no recreio, à porta da escola e até fora dela, no curso de inglês. O resultado é que P. não sai mais de casa sozinho e mudou de colégio, devido à coação que sofreu. Há alguns meses, uma menina de 12 anos teve que deixar o colégio após um ataque semelhante de gangues da internet. Em um outro colégio, alunos da 6a. série, a maioria entre 11 e 12 anos, criaram um site durante a própria aula de informática e passaram a denegrir meninos e meninas das escola. O site, de conteúdo violento e pornográfico, registrava 300 entradas por dia e chocou os pais pela falta de respeito entre os colegas, agravada por um palavriado incompatível com a formação que desejavam para seus filhos.

“Se eu tivesse uma filha e falassem dela o que eu li no site sobre outras alunas, morreria de vergonha. A idéia de fazer um site é boa, a execução é sensacional, mas o conteúdo é de uma agressividade assustadora.

Hoje, meninos e meninas de 12 anos são altamente agressivos. Sobretudo as meninas, mais maduras, que aprontam, bebem e cansam de chegar de ressaca na escola às segundas-feiras. A agressividade entre os jovens na escola precisa ser discutida”, diz Claudia Ramos, mãe de um dos alunos.

Quando ela e o marido João Carlos Pinheiro, entraram no site feito pelos alunos num domingo de setembro, ficaram estarrecidos. Na manhã seguinte, levaram o caso à diretora da escola que já estava tomando providências para a retirada do site, junto ao provedor. Pais e alunos foram chamados para discutir o caso, mas a questão ainda está no ar. Como lidar com a agressividade sem limites dos jovens e substituí-la por solidariedade, respeito ao outro e exercício de cidadania? “O que eu achei mais absurdo foi que a maioria dos alunos não via nada demais no site. Para eles, é normal fazer isso com os colegas. É claro que, no meu tempo de colégio, alguns meninos e meninas eram difamados à boca pequena. Mas, com a internet, a agressão se tornou pública e muito mais violenta”, comenta Claudia.

A mãe do menor P., agredido pela internet e fisicamente, Jussara Ferreira, registrou a queixa de todas as agressões sofridas pelo filho, identificando a maioria dos menores agressores, na 5a. Promotoria de Justiça de Infância e Juventude. O diretor da escola diz que a instituição enfrentou o problema e puniu os responsáveis pela criação do site e pela briga no pátio, mas não pode se responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. O advogado Carlos Alberto Lima de Almeida, do Sindicato de Estabelecimentos de Ensino, diz que a escola só é juridicamente responsável pelo que ocorre no seu interior. Para ele, o único caminho para enfrentar a agressividade dos jovens é resgatar a família para o ambiente escolar. “Os pais deixam a formação da criança exclusivamente para a escola. Eles não sabem o que os filhos estão fazendo”.

Brincadeira virou caso de polícia

“No começo deste ano meu filho teve que fazer uma redação sobre uma vivência de discriminação. Ele contou que, no ano passado, numa festa, foi ridicularizado por não saber dançar funk. De brincadeira, ele disse para um amigo que lhe pagaria por umas aulas de funk. A partir daí, começou a ser rotulado de homossexual. Essa foi a redação de março. Em maio, na aula de informática, um menino criou um site com horrores sobre meu filho.

A punição do menino resultou numa série de espancamentos dentro e fora da escola. Meu filho não sai mais de casa sozinho e a escola diz não poder se responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. Ele está fazendo análise e saiu do colégio.” (Jussara Ferreira – mãe de uma vítima de gangues de redes).

A responsabilidade é da família

Para especialistas, a falta de limites e a ausência dos pais está formando jovens egoístas e incapazesde respeitar o outro. Para eles, o diálogo é essencial, mas sem perder a autoridade

Se o seu filho está sendo agredido num site, de quem é a responsabilidade? Da escola ou dos pais do agressor virtual? A questão é polêmica. Para o psiquiatra infantil e escritor de vários livros entre eles “Quem ama educa”, editora Gente, Içami Tiba, o problema da violência nas escolas — seja ela virtual ou real — tem suas raízes em casa, com a falta de limites. Segundo ele, soltar as rédeas, muitas vezes é uma atitude decorrente de um sentimento de culpa dos pais pela ausência e falta de tempo para os filhos.

“Querer compensar a falta de tempo fazendo todas as vontades dos filhos é uma armadilha. Essas crianças vão crescer sem aprender a respeitar o outro. Se elas fazem o que bem querem em casa, vão levar essa experiência para a escola”, afirma. Os pais são as primeiras vítimas da má educação dos filhos. “Quando o filho tem um comportamento inadequado em casa e os pais não interferem, eles automaticamente dão poder para que essa criança continue agindo assim não só em casa, mas na escola e em outros meios”, diz.


Influência da turma
Algumas instituições estão botando em prática a teoria da psicanalista americana Judith Harris, autora do polêmico best-seller “Diga-me com quem anda…”, que esteve entre os finalistas do prêmio Pulitzer. Nos Estados Unidos, o aumento das gangues virou tema de um filme de Martin Scorcese (com Leonardo Di Caprio, a ser lançado no Brasil em janeiro) e foi tema de um debate nacional entre psicanalistas e profissionais ligados à educação.

Judith Harris, mestre em psicologia pela Universidade de Harvard, defende a tese de que não adianta a criança ter bons pais na infância, pois um ambiente hostil na escola e a necessidade de inclusão numa turma de amigos pode transformá-la num adolescente violento. “Os pais pensam que têm muita influência sobre seus filhos, mas o comportamento dos meninos e das meninas resulta dos grupos de socialização a que pertencem. São esses grupos que vão determinar como as crianças vão construir a sua identidade e como vão se comportar fora de casa ”, diz Judith Harris.

Ela acredita que crianças e adolescentes, hoje, aprendem tudo, do modo de falar ao jeito de se vestir e se comportar com sua turma de amigos. Para eles, as relações entre jovens — de amizade ou de namoro — são “relações horizontais”, porque se dão entre iguais. Estas relações afetivas deveriam ser contrastadas com “relações verticais”, aquelas que se dão entre pessoas de idade e status diferentes, que exigem hierarquia e respeito, e na qual um serve de exemplo para o outro. Este modelo de “relações verticais” foi, por muito tempo, aquele adotado entre os pais e seus filhos.

As gerações atuais, porém, quebraram esta tradição. Os pais se tornaram ausentes na vida dos filhos. O resultado é a horizontalização das relações afetivas, sem a contrapartida da presença constante dos pais na vida dos filhos. “Uma das coisas mais impressionantes das pesquisas atuais com jovens é o fato de que eles parecem mudar totalmente de personalidade de acordo com o grupo em que circulam. Sua afetividade depende da aprovação do grupo e sua identidade é construída a partir desta aprovação”, acrescenta Judith.

A psicanalista paulista Andreneide Dantas concorda que, na adolescência, é comum que os filhos queiram fazer parte de um grupo, e isso implica adotar as atitudes dessa turma. “São as tais companhias, das quais os pais têm tanto medo. Ter amigos é saudável, mas o perigo aparece quando o adolescente adota comportamentos impostos pelo grupo, sem discernir se aquilo é bom para ele. Nesse ponto, é fundamental que os pais participem da vida de seus filhos”, afirma. Ela alerta que a participação não deve ser feita de forma horizontal, ou seja, os pais se colocando como iguais aos filhos, mas, ao contrário, a relação deve ser vertical.

“A idéia de que o pai tem de ser amigo do filho é muito perigosa. Amigo a gente xinga, briga. O pai tem de ter autoridade”, diz. Andreneide vê na falta de comunicação e de limites que muitos jovens encontram em suas relações familiares as razões para os casos de agressão entre estudantes. “No caso dos alunos que criaram um site para ridicularizar o colega, minha grande dúvida é: onde estavam os pais desses alunos? Criar um site não é tão simples assim. Eles não têm controle sobre o que seus filhos estão fazendo? Hoje, essa criança pratica uma violência contra um colega. Amanhã, se continuar sem limites, pode atear fogo num índio”.

Para o psicanalista José Renato Avzaradel, a agressão virtual é tão nociva e perigosa como outras formas de violência. Mas justificar tais ações como expressão da violência da sociedade, abandono ou agressividade dos pais é negar, segundo ele, a violência humana. “Quando nos deparamos com notícias como a do assassinato do casal Von Richthofen pela filha e pelo namorado ficamos chocados e até surpresos. Porque esquecemos ou então negamos a violência humana”, diz.

Como proteger o seu filho


VÁ À ESCOLA: Para especialistas, os pais devem participar mais da vida da escola, conversando com os professores e com os filhos sobre o ambiente escolar. O advogado Carlos Alberto Lima de Almeida criou um projeto de voluntários para dar noções de cidadania nas escolas públicas e particulares. “Os pais transferiram a educação das crianças totalmente para os colégios e vivem alheios à vida dos filhos”. Segundo ele, há pais que sequer vão ao colégio conhecer e fazer a matrícula. Fazem tudo por telefone e a maioria não vai às reuniões de pais e mestres.

REGRAS DE CONVIVÊNCIA: As regras de convivência e os limites devem ser estabelecidos desde o pré-escolar, segundo o advogado Carlos Alberto Lima de Almeida, autor do livro “Somos crianças, temos direitos, mas também deveres” (Editora Lucena). As crianças que respeitam regras de convivência desde cedo dificilmente se tornarão adolescentes violentos e agressivos.

LIMITES: Para a psicóloga Andreneide Dantas, uma grande falha cometida pelos pais é fazer todas as vontades dos filhos, por estarem cada vez mais ausentes de casa devido às exigências profissionais. “Os pais vivem reclamando que fizeram tudo, deram tudo aos filhos, mas, ainda assim, o filho está indo por caminhos errados. Não percebem que não poderiam dar tudo. Falharam e estão sofrendo as conseqüências”.

ESCOLA ENÉRGICA: De acordo com o psiquiatra infantil e autor do livro “Quem ama educa” (Editora Gente), Içami Tiba, os pais devem exigir que as escolas sejam enérgicas em casos de agressões, mas, segundo ele, um dos grandes problemas enfrentados pelas instituições de ensino é que os pais transferiram para elas a responsabilidade de educar. A escola tem de devolver aos pais essa responsabilidade para que a criança reflita na sala de aula o modelo que vem de casa.

ATENÇÃO EM CASA: Se o jovem está vivendo uma dificuldade de relacionamento com os colegas de turma e os pais nem percebem, algo vai mal nessa família. Quando há comunicação aberta, até por um olhar atento para o filho, os pais vão perceber se ele passou bem ou mal na escola. Mas, em muitos casos, os pais sequer percebem como estão seus filhos. Não há diálogo e todos vivem isoladamente, cada um no seu quarto, embora morando na mesma casa.

ESCOLA OMISSA: Para o advogado Carlos Alberto Lima de Almeida, tudo o que ocorre dentro da escola é de responsabilidade da escola, que pode ser acionada juridicamente pelos erros que venha a cometer. Se dois alunos brigam, a escola tem o dever de apartar. Se há criação de sites pornográficos nas aulas de informática, a escola deve responder por isso e, segundo ele, até mesmo os professores que são igualmente responsáveis. Os pais devem cumprir sua função de educadores e exigir que a escola proteja seu filho enquanto ele estiver sob sua responsabilidade. Porém, no caso do espancamento do menor P. fora da escola, a responsabilidade seria do Estado, ainda que os agressores sejam seus colegas de turma.

Marcia Cezimbra/Juliana Zaroni
Matéria publicada no Jornal “Diário de SP”
Cadervo “Viver em Família” em 08/12/2002

 

 

 

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