02 mar

Situações embaraçosas, escolhas de caminhos tortuosos, pensamentos repetitivos, sofrimentos que poderiam ser evitados…Quem é o causador? (leia-se causa-dor).

O porquê disso tudo? É o destino? É carma? É azar?

Porque mesmo querendo fazer diferente algumas pessoas não conseguem? Porque não conseguem ser senhores de suas escolhas?

Alguns, buscam a resposta na ciência, religião, cosmo ou nas estrelas. Outros, inconformados e cansados de tanto sofrerem, munem-se de coragem (pois é preciso ter coragem para enfrentar os próprios fantasmas) e encaram uma análise. Chegam um pouco desacreditados em relação ao que vão encontrar. Perguntam, se é melhor tomarem remédios… pois o problema pode ser um hormônio enlouquecido ou uma doença genética.

Sabemos que essa não é uma tarefa simples, pois existe todo um percurso a seguir e, geralmente, o sujeito que sofre acredita que “é mais fácil procurar culpados”. E o culpado primeiramente é sempre o outro: o pai, a mãe, o chefe, o namorado, a namorada, o gene ou uma molécula.

Um outro fala além de mim? “Não sou dono de todas as minhas vontades?” perguntam-se. Somente depois é que descobrem que esse outro que governa seus pensamentos, suas fantasias, seu eu, sua vida, é um outro dele mesmo, é um outro que “habita” dentro dele a ponto de fazê-lo tomar essa ou aquela atitude.

Custam a acreditar que essa força que é maior que sua vontade e que os impulsionam a sofrerem e repetirem situações, provém deles mesmos e não do destino. E quando finalmente não conseguem mais negar, começam a se responsabilizarem pelo que fazem.

Quando isso acontece, surpreendem-se e até se divertem com as descobertas!

Esse outro, responde pelo nome de Inconsciente. Inconsciente esse, que Sigmund Freud descobriu nos idos de 1890, através do trabalho que empreendeu com suas pacientes histéricas, quando escutou que o sofrimento delas transcendia a seu organismo e que tinha uma força tão grande que era capaz de controlar a vontade e o corpo delas. Na era medieval esses pacientes eram queimados em fogueiras!

O inconsciente é uma instância simbólica, que é autônoma em relação ao eu do sujeito. É algo que governa ou desgoverna a vida, é o que não descansa nunca, pois ele conta, reconta, calcula, conta a dor, a morte, a vida do sujeito. Até quando dormimos ele está de plantão, “como um capitalista que não para nunca”, e que produz os mais belos sonhos e os mais bizarros pesadelos.

Esse inconsciente - o freudiano – não é o mesmo que o contrário da consciência, é o que traz o selo das palavras escutadas na infância, dos significantes primordiais que marcaram o sujeito desde que ele nasceu, que tem relação com sua história familiar, com os costumes e o discurso de sua família. Pois, assim como os traços genéticos, eles também são transmitidos através das gerações.

O sintoma de cada um é inconsciente, por isso é algo mais forte que o sujeito, maior que sua vontade, algo que o incomoda, faz sofrer, e traz prejuízos, que o desconcerta, o desequilibra e faz dele um fantoche de seu Inconsciente.

E a análise deste “terreno” inconsciente, que revela os equívocos, os tropeços de linguagem e as armadilhas que cada sujeito se faz, possibilita com que ele saiba quais são os significantes que marcam sua existência e que o empurra a fazer suas escolhas, seu modo de amar e de gozar (entendam aqui gozo no sentido psicanalítico como uma satisfação que nem sempre é prazerosa).

Sendo o Inconsciente um saber não-sabido, um saber que o sujeito tem, mas que não está acessível para ele conscientemente, ele necessita de um Outro – o analista – que o escute e marque em seu discurso onde ele tropeça, o que ele repete e as “sabotagens” que se faz. E quando o sujeito consegue decifrar em análise seu sintoma, descobre a causa de seu sofrimento, o porquê de suas repetições, das rupturas dos laços afetivos, do uso de entorpecentes, das doenças repetitivas, etc.

Na análise, o analista escuta algo “além” da intencionalidade, escuta aquilo que na palavra do sujeito o “trai”, o que lhe atravessa. “É como se as palavras pulassem de minha boca, mas não era o que eu queria dizer”, disse-me um paciente. Ora, é exatamente o que ele queria dizer, porém não sabia que o queria.

E saber sobre isso, lhe abre uma nova perspectiva, pois poderá fazer algo diferente a partir da decifração do inconsciente. Assim, poderá se colocar como “senhor” de suas escolhas e de seu destino, e não mais atribuirá ao outro o que lhe acontece.

Andreneide Dantas

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 (Imagem retirada da internet, meramente ilustrativa)

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