10 fev

Afeição

Confesso-lhes que me encantou quando recebi o folder da nossa Jornada e constatei que ilustrava perfeitamente o tema desse trabalho que hoje lhes apresento, pois escolhi falar justamente daquilo que nos afeta e que não, necessariamente, se expressa em nossas feições.

Afetos, sentimentos, amor, paixão. Termos que se entrelaçam e que são tomados como sinônimos em nossa vida quotidiana e pela linguagem popular. Na fala das pessoas, é comum encontrar-se a oposição entre afeto, sentimento e intelecto ou razão. E a forma preconceituosa que temos de tratá-los, remonta a séculos mesclando uma dimensão moral de ética que supõe a paixão como algo que afeta o valor ético de nossa condição, tendendo a propor ao intelecto aquilo que nos representa no mais alto grau e que a paixão só vem desmerecer. Antes mesmo do cristianismo, os estóicos já sustentavam a idéia de que a paixão, o sentimento, o afeto, aparecem como uma perturbação do ente, donde sua proposta ética é prescindir ao extremo possível destas afecções. A paixão vai contra a razão correta, do juízo acordado à verdade. Para outras escolas do pensamento, aparece centrada a oposição do afeto em relação à vontade, confronto entre paixão e vontade. Em outras posições, por exemplo, em Spinoza, resulta que a essência do homem é o apetite que homologa na posição subjetiva, o desejo. A frase clássica espinosiana é que a essência do homem é o desejo e tudo que acresce a essência, terá um valor ético positivo, por isso a alegria, o amor, são sentimentos ou afetos valorizados positivamente enquanto a tristeza, ao diminuir o desejo, é um erro. E o ódio que contribui para sustentar esta tristeza, também! Freud, no Projeto de 1895, diz que a vivência de satisfação e a vivência de dor vão constituir dois resíduos: os estados de desejo e os afetos. Em Além do princípio de prazer e em Inibição, sintoma e angústia, Freud retoma a questão da dor entendida como um rompimento das barreiras antiestímulo como decorrência de uma estimulação externa muito forte. No texto de 1926 ele compara a dor, quando persistente, ao estímulo pulsional, ambos funcionando como estímulos constantes e contra os quais as proteções internas mostram-se ineficazes.

Para pensarmos o tema em nossa prática, que assento têm os afetos, os sentimentos, as paixões? Qual sua relação com o corpo? Porque as mais variadas posições já se apresentaram, desde as que tendem a pensar o corpo como máquina, onde os sentimentos nada mais são que derivações das sensações, até a oposição cartesiana quando Descartes, para distinguir res extensa e res pensante, situa os sentimentos como afecções da alma. No discurso de Erixímaco, no Banquete, o amor é citado como afecção. Nesta relação de causalidade quem afeta o quê? Para William James, é porque choro que estou triste ao passo que para nossa concepção tradicional, é uma relação inversa: é porque estou triste que choro. Para outras perspectivas, as emoções, os afetos, têm uma intencionalidade, surgem em relação a algo ou alguém que os causem. No início de sua clínica, Freud provocava em suas pacientes histéricas, o que chamou de ab-reação, liberação do afeto retido que apontava para a direção da cura.

Para nós, psicanalistas, os afetos trazem uma reflexão que nos implica na dimensão do ato, nos faz inferir o modo no qual o analista se situa em sua prática, na transferência.

Vamos trazer mais uma vez à tona, o caso Dora, onde fica explícito, pela primeira vez, na direção da cura analítica, o conceito de transferência. Dora, a jovem de 18 anos a quem o pai traz ao consultório de Freud porque está muito preocupado. Encontrou sobre a mesa, uma carta onde a filha anunciava sua intenção de despedir-se deste mundo. O pai conta a Freud que a jovem está muito suscetível, ameaçando desmaios por discussões banais, briguenta, querelante, com sensações de tédio, acompanhados de sintomas físicos como tosse e afonia que aparecem e desaparecem e supõe que tudo isso tem a ver com a relação com um casal de amigos chamados no historial de sr. e sra. K. Dora é levada então para a consulta e conta sua versão.

Que conta Dora? Que há alguns anos, sua família ia de férias para uma cidade de veraneio chamada B. porque o pai necessitava recuperar-se de uma tuberculose. O pai de Dora já tivera sífilis, desprendimento da retina, tuberculose; conhecem este casal e a sra. K. mostra-se muito solícita , amável e cuidadosa, ao contrário da esposa que não se ocupava do marido. Dora percebe que, com o passar do tempo, seu pai e a sra. K. tornam-se íntimos, contando a Freud relatos da quantidade de vezes que os dois se encontram. Esta é parte de sua queixa: meu pai e a sra. K. mantêm relações ilícitas. A outra parte da queixa refere-se a algo que lhe concerne, ou seja, que o sr. K. esteve durante todo este tempo, cortejando-a, enviando-lhe um ramo de flores diariamente e que todos sabiam e fingiam ignorar. O sr. K. um dia, passeando com Dora à beira de um lago, faz uma declaração de amor mas diz algo que, ao invés de faze-la aceitar o galanteio, a faz desferir tremenda bofetada e não querer mais nada com eles. Freud surpreso, pergunta que disse este homem para exasperá-la tanto. E Dora recorda que ao final da declaração o sr. K. lhe afirma: minha mulher, a sra. K. não é nada para mim. A partir daí, Dora fica dominada pela paixão do ódio. Presa desta emoção, exige que seu pai rompa com a sra. K., denuncia o pacto implícito nesse quadrilátero com a cumplicidade colateral de sua própria mãe que funcionava como um “zero à esquerda”. Dora pretende que se rompa isto que, numa segunda volta de sua análise com Freud, ela confessa que também havia sustentado. Porque Dora confessa a Freud sua implicação na trama? Talvez porque ele está disposto a ouvi-la e acreditar naquilo que ela lhe conta, neste primeiro tempo da análise, Freud subtrai-se do lugar que, a princípio, lhe estava destinado, o de candidato ao ódio que até então era dedicado ao pai. Dora declarava cruamente: meu pai me entregou ao sr. K. em troca de ficar com a sra. K., sua mulher. Na medida em que Freud não o nega, Dora pode avançar e dizer que ela era cúmplice, que cuidava dos filhos da sra. K. com esmero exatamente nos momentos em que seu pai corria para encontrar-se com esta mulher.

No momento seguinte Dora segue surpreendendo Freud ao relatar que, apesar da sra. K. tê-la traído e contado de suas consultas a respeito dos temas sexuais, segue admirando-a, sem manifestar nenhuma reprovação por ela. A análise avança um pouco mais e no relato de Dora, a sra. K. aparece como a única possibilidade de encontrar alguma resposta a um enigma que ela não lograva elucidar. Era impossível, no caminho que sua mãe lhe oferecia, uma mulher posta de fora da série, ausente no desejo do marido, uma resposta sobre a feminilidade. Que acontece então, na análise de Dora, para dar a Freud este final homólogo ao que deu ao sr. K.?

Dora sustentava este quadrilátero na condição de sujeito que busca um lugar sem mais remédio, como tantos de nós. Que opções havia para uma menina cuja mãe se exime de cuidar do marido enfermo? Deixar–se consumir, como aponta o primeiro sonho, pelo incêndio amoroso entre ela e o pai? Não seria melhor buscar outra que apague essas chamas? A sra. K., como todo sintoma, foi um remédio negociado. Dora aceita que seu pai deseje a sra. K. na condição de que, num mais além, persista o amor por Dora. Afirmação que faz Lacan em “Intervenções sobre a transferência” implicando em que haja uma estrutura equivalente onde Dora sustenta que o desejo do sr. K. por ela não exclua o amor por sua esposa. Que escuta Dora quando o sr. K. lhe diz “minha mulher não é nada para mim”? Se a sra. K. não é nada para ele então Dora não é nada para o pai.

Podemos pensar então que sua ameaça de suicídio seja puro teatro ou está dizendo desta dor em que havia se convertido sua existência, desamparada por uma mãe que não responde e desalojada do lugar em que se sustentava pelo suposto amor de seu pai? Ali descobre Freud que, por trás do ódio que exprime por seu pai, Dora está afetada na desilusão de amor por seu pai e também, pelo amor sublimado à sra. K. Dora está afetada pela paixão em sua dimensão imaginária, sentimento, Lacan diz senti-ment. E nos fala de três paixões: paixão de ódio, paixão de amor e paixão da ignorância; porque o sentimento, enquanto dimensão imaginária do afeto, nem sempre implica um valor negativo. A paixão, em qualquer de suas formas e sempre que possa encontrar seu limite, nos diz Lacan, é também uma via de realização do ser.

Temos o sentimento, por um lado que levado ao extremo se converte em paixão e o afeto que não é coincidente com o sentimento.

De que estava Dora então, afetada? Afetada em seu ser como todo vivente humano, pelo amor e pelo ódio, trata-se então do afeto, daquilo que tenta remediar no amor ou no ódio a mesma situação que padecemos para instituirmo-nos como sujeitos numa dimensão que poderíamos chamar de exílio. Cada um de nós sofre, em distintos momentos, deste extremo desamparo que tentamos remediar como podemos, e um dos menos piores, ainda é o amor. O amor é o afeto que surge ante a presença do outro, do outro com o qual procuro um consolo ante meu exílio. Dora encontra-se agora na mais absoluta solidão: fui objeto de negociação, diz a Freud. Se a análise pudesse ter avançado, se Freud não houvesse se identificado ao sr. K. , quem sabe houvesse para Dora a possibilidade de desidealizar este amor pelo pai e o ódio, convertido em motor a ajudaria a buscar mais além destes personagens aos quais permaneceu fixada. A análise propicia que, no desfiladeiro que discorre entre ambos os afetos, o sujeito avance até o encontro de sua condição. Num primeiro tempo na dimensão imaginária do amor, no segundo tempo, descobre-se que não se trata apenas de fazer-se amar senão de sustentar o lugar de amante. Como sublinha Sócrates no Banquete, amante significa que busco no outro, aquilo que me falta, que quando alguém ama está dizendo “amo porque há algo que me falta”.

A análise propicia que possamos arrancar uma máscara de riso que contradiz o desespero de um ser preso a uma realidade que simula ou uma máscara de dor que simula um gozo do qual não se quer desprender. As máscaras, imprescindíveis para tornar possível o convívio social, também geram equívoco e mal-estar e estão, entre tantos outros objetos, como aquilo que cai no final de análise. O sentimento que se mostra na face que oferecemos ao outro, não só não diz o que sentimos como também vela aquilo que nos afeta. Por isso podemos afirmar que o que sentimos não necessariamente coincide com o que nos afeta. E aqui, podemos falar da abstinência do analista, que se sustenta no desejo do analista, esse desejo que permite estabelecer diferença entre o ideal e o objeto, que permite rearticular o sujeito à sua própria pulsão. Numa análise, o analista não usa máscaras mas sustenta a transferência naquilo que Lacan chamou, muito apropriadamente, de semblante.

A vivência de satisfação e a vivência de dor vão constituir dois resíduos: os estados de desejo e os afetos. Em Além do princípio de prazer e em Inibição, sintoma e angústia, Freud retoma a questão da dor entendida como um rompimento das barreiras antiestímulo como decorrência de uma estimulação externa muito forte. No texto de 1926 ele compara a dor, quando persistente, ao estímulo pulsional, ambos funcionando como estímulos constantes e contra os quais as proteções internas mostram-se ineficazes.

A repressão provoca uma ruptura entre o afeto e a idéia à qual ele pertence, cada um passando por vicissitudes isoladas.

Caso Dora – Vol. XIV – pg. 200

Projeto – 1895

Vivência de satisfação —— vivência de dor

Prazer ———- desprazer = afeto

Joaceri Merlin, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro “Os afetos na vida cotidiana”
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx41) 335-2539

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