10 fev

Um abismo de tristeza- Depressão

Para começar, quero fazer uma distinção entre a tristeza e a depressão.

O que é a tristeza? É um estado de desalento, falta de alegria, infelicidade, lástima, etc.

E na depressão o que ocorre?

Ora, do que temos escutado, lido ou assistido, a Depressão é um estado clínico onde encontramos uma tristeza. Mas não é somente tristeza, mas uma falta de energia, falta de desejo muito grande e uma abulia que impede o sujeito de desenvolver normalmente suas atividades: como trabalhar, namorar, comer, conversar com amigos, desempenhar suas tarefas costumeiras e até aquelas as que lhe davam prazer. Dorme mal ou dorme muito. Na verdade as que lhe davam prazer eles a tinham abandonado bem antes.

A maioria das vezes esses pacientes chegam até nós quando já estão fazendo um tratamento medicamentoso. As miligramas de Prozac ou Fluoxetina já fazem parte do cotidiano desse paciente e mesmo assim a estabilização da substância – Serotonina – (que atua no cérebro e é responsável pelas sensações de alegria, estados afetivos, humor) não tem proporcionado que ele encontre um ãnimo ou desejo para tocar sua vida.

E é claro que não vai ser a serotonima o que que vai proporcionar que o paciente deixe de ser miseravelmente infeliz. Mesmo que haja a necessidade de que tenha uma determinada quantidade de substância para que seu cerebro funcione.

Sabemos que não é somente a química cerebral que é responsável pelo bem ou mal estar do paciente. Mesmo com toda a eficácia medicamentosa e progresso da ciência não existe um medicamento que faça o falante ser feliz, que faça-o ter desejo. É verdade que para alguns pacientes a única possibilidade que ele tem de levantar da cama ou de não se matar e vir até nós é tomando um medicamento que altere seu humor. Que trabalhe na produção da substância – serotonina – que ele não está fabricando. Mas a ciência nada quer saber desse paciente, sobre seu particular, sua história, trata-o como puro órgão.

Aprendemos com Freud e Lacan que o significante afeta o corpo, e na depressão afeta o funcionamento ou a produção de serotonina. Somente quando o paciente produz outros significantes é que pode alterar seu estado afetivo ou um órgão. Produz novos significantes e assim produz serotonina suficiente para alterar seu humor.

Somos nós, os psicanalistas que dedicamos nosso tempo à escuta da palavra a ser dita, da palavra sufocada, amordaçada.

É interessante lembrar que mesmo que o mais comum na depressão seja encontrarmos o sujeito em uma tristeza imensa, acontece em alguns que não exista sinal de tristeza. Existe mais uma abulia, onde os pacientes descrevem com pormenores sua falta de desejo em levantar, trabalhar, conversar, trepar, etc. Parece contraditório isso, se no título do meu trabalho falo de um abismo de tristeza. Mas o mais comum é o sinal muito grande de tristeza, ou algo que não pode ser nomeado pelo sofredor.

O discurso do deprimido é repetitivo, monótono, mas, algumas vezes sem sinal de tristeza, e até com ausência de choro.. Eles falam de uma falta de sentido em suas vidas, independente do dia e ocasião, se faz sol ou chove., se conseguiu algo ou perdeu. Muitas vezes a depressão e intalada quando o paciente ganhou uma promoção ou teve um filho.

Encontramos pacientes que falando de seus sofrimentos, descrevem o que acontecem com seu corpo, corpo biológico, corpo este, que em suas falas não é apreendido como próprio, mas, como um conjunto de òrgãos, onde o sujeito não se vê responsável por ele. Ex: Paciente que sabia dos detalhes do funcionamento de seus orgãos. E dizia: o coração, o peito etc.

É na falta de palavras que a depressão encontra sua existência. Podemos considerar a depressão como um mal estar da civilização. E porque tantos casos? A Organização Mundial de Saúde acredita que até 2020 será a segunda moléstia que mais matará.

Mas, mesmo que no início o paciente não saiba ou não diga porque está assim, deprimido, encontramos sempre um acontecimento, algo que sucedeu anteriormente ao estado de depressão.

Numa época como a nossa, que é marcada por avanços tecnológicos e científicos, onde podemos contar com a possibilidade de dar uma conferência aqui no Brasil e sermos escutados e vistos no outro lado do mundo, onde alguns acreditam em aproximação entre os falantes, o que encontramos são pessoas solitárias, que dizem não ter com quem fazer laços ou que acreditam que não precisam falar com os outros. Onde não têem tempo para conversar, escutar, o outro rir e até chorar quando preciso. A era da globalização faz com que os homens se aproximem dos objetos, separando-se dos semelhantes, onde anulam a questão do desejo.

O paciente deprimido renuncia a seus desejos mais íntimos, cede frente ao seu desejo, adia, deixa para lá, deixa para depois. E essa renúncia é para manter um Outro sem falta.

Lacan fala de tristeza na depressão, de covardia moral, citando Spinosa e Dante onde há um rechaço do inconsciente, rechaço da linguagem, em Televisão.

E diz ainda, que essa covardia só se situa, a partir do pensamento do dever do bem –dizer ou da orientação no inconsciente, na estrutura. Trata-se portanto de que o sentido para a tristeza ou para qualquer outro estado afetivo seja o tratamento da ética do bem dizer, através da análise.

Para o ser falante a vida é uma vida que tem sentido, más só tem se ele a der e para o sujeito que está deprimido ela está esvaziada de sentido.

Eles tem dificuldades para encadear uma frase, para prosseguir. Interrompem a frase, pára , tem dificuldade para falar e para agir.

É verdade que existe uma alteração biológica, mas essa, é provocada por uma falha simbólica. E também sabemos o quanto alivia ador é certas palavras. Elas tanto podem aliviar a dor quanto sua falta ser um amortecedor, a –morte- ser-dor.

Aprendemos que é a a experiência com o outro, o que pode imprimir e marcar o terreno biológico, alterando a produção de uma substância – Serotonina ou de um òrgão – por exemplo a Tiróide. É claro que o que faz uma criança andar não é somente seu amadurecimento neurológico e ortopédico, mas o fato de que aliado a isso tenha lugar no desejo dos pais para que ela ande.

A análise possibilita o encadeamento significante, proporcionando um luto. Luto da coisa. Mas por muitas vezes o deprimido não quer separar-se do Outro, não quer abrir mão do inferno em que vive.

Entre ele e os objetos se instala um abismo, uma impossibilidade de fazer encadeamentos significantes. Alguns pacientes descrevem seu cotidiano como um “arrastar-se” para fazer suas atividades.

Para concluir, temos na explicação médica que a depressão é causada pela baixa produção de serotonina, substância responsável pelo humor. E também uma das causas apontadas e motivo de indicações por parte dos psiquiatras é o funcionamento da tiróide, onde produz menos T4 ou T3 ou ainda a própria tiróide, ataca os anticorpos destruindo-os. Aqui o sujeito é reduzido a um corpo, ou melhor a um corpo despedaçado.

Mas sabemos que não se trata somente de uma disfunção cerebral, mas se trata na depressão da forma como cada um encara sua vida, como se relaciona em relação ao mal estar na civilização. E para que cada um se dê conta disso e dê conta de seu desejo é imprescindível que fale a um outro, a um analista para encontrar-se e descobrir-se no que diz, fazendo de sua palavra um bem alivia- a- dor. Existem os que podem fazer essa escolha e os que escolhem –mas sabemos qiue essa escolha não é consciente – viver em um inferno.

Para os que escolhem saber o que lhes acontece os analista oferecem sua escuta. Escuta da dor de existência.

Andreneide Dantas, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro “Os afetos na vida cotidiana”
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx21) 2236-0563

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