10 fev

Uma obscura dor sem limites – Melancolia

Um olhar perdido no espaço…

Um mutismo que diz mais que mil palavras…

Como falar de uma dor que não tem como se dizer?

Dor incomensurável, dor do nada, sem causa aparente, dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que a sente.

Dor, pesar, desinteresse. São características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível fazer um trabalho de luto, pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que este trabalho é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.

Desde, os primórdios da psicanálise Freud se interroga a respeito deste afeto, e a melencolia continua sendo até hoje uma afecção difícil de ser classificada. Muitas vezes confundida pelos próprios analistas, diante da gravidade ou seriedade de um sofrimento, com a psicose, tomam esta estrutura como uma resposta à mão para o que pensam que não podem ser considerado como uma neurose, ou pelo menos não como uma neurose comum.

Hoje se fala em depressão, como o mal de nosso século, uma forma de globalizar um afeto difícil de ser enquadrado na nosografia psiquiátrica.

Numa tentativa de classificar e conceituar esse afeto como doença mental. DSM IV a define como Depressão Maior, atibuindo-lhe muitas vezes causas orgânicas quando não genéticas, desvalorizando assim tudo que é particular no sujeito: sua história, seu inconsciente, sua estruturação como ser de linguagem, sua sexualidade. Substui-se o termo melancolia por depressão, dando-se invisibilidade à melancolia, da mesma forma como fizeram com a histeria, o que faz desaparecer seus traços distintivos como a destrutividade e o sentimento de culpa. Tenta-se assim tratar o que é um afeto com drogas que, se por um lado, produzem um bem-estar passageiro, por outro tapam a boca de uma pessoa que estrutura ja tem dificuldade de falar.

Mas como generalizar uma dor que é antes de tudo uma dor de ser, dor que constitui e singulariza alguém?

De que se trata realamente na melancolia?

Desde 1895, nos manuscritos E e G, Freud começa a tentar dar conta deste sofrimento, disto que ele nesta época via como um “buraco na esfera psíquica”, produzindo uma “hemorragia interna” da libido, por onde se perde sem cessar energia sexual psíquica, provocando no sujeito um profundo “esvaziamento do Eu”, como ele trabalha em “Luto e Melancolia”.

Assim no manuscrito G, ele correlaciona a melancolia e a anestesia sexual, dizendo que “não seria errado partir da idéia de quie a melancolia consiste em luto por perda da libido”.

No manuscrito E ele continua afirmando que os melancólicos sofrem de anestesia, termo que vem do grego anaisthesia, que significa sem sentido. Vemos que até este momento Freud estava trabalhando com os conceitos de que dispunha na época, mas ja profundamente preoculpado com o sofrimento que encontrava nestes pacientes, e buscando uma resposta para que pudesse aliviá-los. Quando relaciona a melancolia com anestesia, vemos com que apurada escuta via que se tratava, antes de mais nada, de uma perda de sentido o que se apresentava como um acentuado sentimento de vazio do qual o melancólico é portador. Sua investigação sobre a melancolia desenvolve-se ao longo de sua obra com variada intensidade, porém estará sempre presente.

Em 1924, em seu texto “Neurose e Psicose”, ele inclui a melancolia na categoria das neuroses nascísicas, apresentando a malancolia como uma organização psíquica singular, uma nova maneira de pensá-la, franqueando os limites rígidos entre a neurose e a psicose. As psiconeuroses narcísicas se separam, então, tanto das neuroses como das psicoses e Freud faz da melancolia o paradigma desta categoria, inserindo-a no complexo de Édipo, que sabemos ser, articulado ao complexo de castração, o eixo estruturante de toda a concepção freudiana. Freud constata que a angústia que encontra em seus pacientes está relacionada com a sexualidade, pois, não deixa de afirmar ao longo de toda sua obra que de acordo como a sexualidade se estrutura e é vivida pelo ser humano, será isto o que determinará a etiologia das neuroses.

Um estado de ânimo profundamente doloroso, um desinteresse pelo mundo exterior, uma profunda prostração, perda de sentido, uma inibição generalizada, bem como uma diminuição do amor próprio, caracterizam o melancólico. A malancolia nos fala de uma fragilidade constitutiva, estrutural. Algo claudica neste ponto de estruturação. Não investido pelo simbólico o corpo reage: dores generalizadas, impossibilidade de dormir, distúrbios do apetite, quando não aparecem doenças mais sérias. Há um congelamento do tempo, tentativa de recuperar um estado anterior, mítico, o Um mítico, onde se repercutem os uns de uma conta sempre errada, já que o sujeito se contará sempre como não contado ou não contando para o outro.

Não podemos deixar de ver a relação que existe entre a malancolia e o afeto do luto. A questão central é então a perda, pois a falta é o ponto de origem de nossa inserção no simbólico, já que a palavra sempre representará uma ausência.

No luto o mundo se mostra empobrecido. Na melancolia é o próprio Eu do sujeito que se encontra empobrecido. Enquanto no luto, o sujeito sabe quem perdeu e o que perdeu e pode assim ir desatando os laços que atavam sua libido ao objeto perdido, através do trabalho do luto, na melancolia parece que o sujeito não sabe o que perdeu com a perda do objeto, caindo então num profundo mutismo, através do qual ele aponta ao sem sentido da vida. Com a perda se perde.

Na melancolia vemos, então um luto que não termina, colocando o sujeito numa obscura dor sem limites, por uma impossibilidade de dando-se conta da perda do objeto, fazer uma substituição significante. O objeto perdido, em vez de ser desinvestido pelo sujeito passa a ter uma dimensão cada vez maior. E ai temos a originalidade da análise freudiana: pois o que nos diz Freud é que o sujeito introjeta o objeto como si o tivesse incorporado no sentido canibalístico do termo, fazendo assim uma identificação narcísica.

Quando o amor ao objeto chega a refugiar-se na identificação narcísica, o ódio recai sobre este objeto substitutivo, e a partir deste momento é o Eu do sujeito que é atacado, humilhado, avaliado de maneira crítica e extremamente severa por um supereu obsceno e feroz. “A sombra do objeto cai sobre o Eu”, ensombrecendo o curso dos dias, fazendo surgir um sujeito a quem o supereu maltrata com seu mandato de gozo mortífero.

O par amor- ódio passa a desempenhar um papel relevante. Por um lado o melancólico sustenta a demanda, e podemos mesmo dizer a exigência de um amor ilimitado, mas por outro está tomado por este ódio do objeto introjetado, o que lhe dá um sentimento de culpabilidade que faz com que o procure o castigo e a desvalorização de si mesmo. totalmente tomado nas duas vertentes do complexo de Édipo, o amor incestuoso e o desejo de morte do pai, o melancólico encontra-se sob a égide da pulsão. Lugar de onde o desejo está excluído.

A partir deste momento o eu se considera como objeto abandonado, e quando se pensa abandonado por todos os poderes protetores se deixa morrer. Podemos pensar numa volta ao sentimento de desamparo. Porém, agora é o Eu que se abandona, abandona a libido que o investia, se desinveste, e com sua inércia deixa-se ficar nas mãos desta potência crítica que o habita, livrado a gozo inapelável da desesperança. Deixa-se morrer é isso. Sai da cena. Trata-se então de uma versagung, renúncia daquilo que lhe é mais próprio, daquilo que Freud considerou o que seria mais fundamental para alguém: seu apego à vida. Em “Reflexões para o tempo de Guerra e Morte” diz: “Tolerar a vida continua a ser, afinal de contas, o primeiro dever de todos os seres vivos”.

Lacan, trabalhando a respeito disto no seminário VIII, diz que, Freud indica uma certa decepção que o sujeito não sabia definir. Na melancolia, diz Lacan , se trata de um “suicídio do objeto”, de um objeto que entrou no campo do desejo e que devido a certos avatares desapareceu. Isto que faz com que o sujeito malancólico tome, a posição de pensar que se este objeto escapou, não valia a pena ter tomado tantas precauções a seu respeito, e estende isso a todos os objetos do desejo.

Mas isso nos mostra que o sujeito melancólico tem uma relação muito particular com o efêmero e a transitoriedade: não vale a pena. Como ser substituível é um dos indícios do objeto do desejo, essa viscosidade da libido que encontramos no sujeito melancólico, por esta aderência que dificilmente lhe permite abandonar um objeto, mostrando-o como insubstituível, mostra um engano que tampona a falta. Sabemos que não há nenhum objeto que tenha mais valor que outro, pois o que dá valor ao objeto é o agalma que alguém lhe outorga com seu desejo.

Parece que esta decepção de que nos fala Freud e que o sujeito não sabe definir, renova, a todo momento, uma traição sempre esperada. Sendo uma neurose narcísica podemos pensar que a decepção é com o próprio sujeito tomado como seu objeto por uma impossibilidade de corresponder a essa imagem idealizada que montou para si. A falha narcisista poderia situar-se neste nível de constituição da imagem, no que esta se confunde com um modelo ideal que sempre estará fora do alcance do sujeito. Podemos pensar na constituição da imagem especular, tal como Lacan trabalhou no Estádio do Espelho, como se houvesse uma fragilidade no melancólico em relação à sua própria imagem. É como se o melancólico se tivesse encontrado ante uma moldura vazia, não reflexiva, no interior da qual não havia imagem, somente nada. Isto lhe daria este discurso: não sou nada, não faço nada, não valho nada. Assim tenta bordear um vazio infinito, um vazio que se traduz como intensa dor psíquica para o sujeito.

Sabemos que depende do olhar que alguém recebe do Outro, as cores com que vê a si próprio e os encontros que se atribui. Assim, diversos olhares, em distintos momentos da existência, marcam o corpo em seu caratér de desejado ou não, conferindo-lhe valores como um corpo maravilhoso, ou um corpo denegrido, ou um corpo indiferente etc…

Indentificado com esse objeto nada, ele passa a ser nada.

Lacan sublinha no seminário X, sobre a angústia, que essa identificação com o nada, seria o que explicaria a forma frequente dos suicídios dos melancólicos por defenestraçaõ. Já não há nada pelo que viver. (caso de paciente)

Na melancolia não se trata da perda da realidade, mas da perda do sentido da vida, retração libidinal que mostra uma concentração de gozo e exclui os vínculos com o mundo. Procurando o sentido da vida, o melancólico não se dá conta de que o único sentido que é possível é o sentido que cada um pode dar à sua própria vida. Ou com diz Lya Luft: “O mundo não tem sentido sem nosso olhar que lhe atribui forma” (…).

Para fugir da dor de existir, refugia-se no mutismo, sofrendo uma dor silenciosa. Através do mutismo promove seu desterro do campo do Outro, o que constitui uma petrificação do sujeito ante o vazio que ele tenta bordear, ou mesmo preencher com todo seu ser.

Não é de espantar, então, que vejamos tantos sujeitos melancólicos atacados de doenças reumáticas ou doenças auto-imunes que os deixam paralizados de diversas maneiras.

Diversas formas de suicídios, pois não podemos ser ingênuos e achar que alguém só se suicida quando se atira pela janela ou dá um tiro na cabeça.

Porém onde se mata a vida com o silêncio não há lugar para que outras dores se expressem através da palavra. A dor invoca, mas fala de um gozo não limitado, onde a queixa infinita, que se faz ouvir mesmo no mutismo, deixa o sujeito desalojado da cadeia significante, sem ter aquilo com o qual poderia significar-se. Ververfung, portanto, dos mandatos da palavra, onde o rechaçado toma a figura obscena e feroz do Supereu.

É na transferência que o melancólico poderá por em jogo uma separação deste objeto intolerável cuja sombra recaiu sobre ele.

Poderá construir uma cena onde possa distanciar-se deste objeto incorporado, onde a operação de substituição possa encaminhar-se ao mesmo ponto onde ficou detida. Operação que é equivalente à posta em vigência do fantasma.

É na experiência de discurso, que é a experiência de uma análise, lugar onde poderá reconhecer que ser humano é em sua essência ser falante, que alguém poderá exercitar-se no bem dizer, emprestando voz a isso que necessita ser dito mesmo que sussurrado. Estabelecendo assim pouco a pouco uma separação em relação ao objeto de seu ódio que tomou como sendo seu próprio eu, que alguém, tomado pela melancolia, pode ir deixando um mal dizer doloroso e aflito, o gemido, a queixa e o mutismo para ir constituindo um bem dizer criador, onde já não se trate mais desta alternativa absoluta: o Ideal ou Morte, como sendo única alternativa possível.

Beatriz Azevedo, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro “Os afetos na vida cotidiana”
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx21) 2236-0563

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