10 fev

O Pai Nosso que está na TerraEspecialistas lembram a importância do pai na criação dos filhos e garantem que os homens são um símbolo essencial de autoridade e ordem para as crianças

DENILSON OLIVEIRA

As mulheres queimaram sutiãs, depois passaram a ocupar altos cargos na política e em grandes corporações. Chegaram até o ponto de conceber uma criança sem aquela tradicional participação masculina, graças à inseminação artificial. Apesar de, em muitos casos, também terem virado chefes de família, elas nunca serão capazes de tomar dos homens um posto: o de pai, mesmo que algumas delas decretem a falta de importância da figura paterna na criação dos filhos.

“Sempre precisei de meu pai para tudo e sou muito ligado a ele. É um cara muito brincalhão, mas nunca deixou de me mostrar que cada coisa tem sua hora”, conta o jogador de futebol Diego, atacante e estrela do time do Santos, de 18 anos.

O que o craque reconhece no pai é exatamente o que torna essa figura insubstituível na formação de um indivíduo, principalmente durante a infância. De acordo com estudiosos da vida em família, o pai é responsável por impor limites e mostrar o mundo ao filho, para que ele cresça como cidadão e saiba respeitar limites. “As mulheres e a ciência acham que ter um filho sem pai pode dar certo. Mas não dá. Muitas falham quando assumem uma produção independente. Filho não é um produto e sim fruto de uma relação afetuosa. Ser pai e mãe ao mesmo tempo é impossível”, diz a psicanalista Andreneide Dantas, do Instituto Tempos Modernos.

 

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O psicólogo italiano Luigi Zoja, autor de dois livros sobre a figura paterna e ex-presidente da Associação Internacional de Psicologia Analítica (Iaap), vai mais longe. Ele afirma que o desaparecimento da autoridade paterna provoca uma situação de declínio na sociedade ocidental, causando uma série de problemas: crescimento da delinqüência juvenil, do consumo de drogas, aumento dos distúrbios psíquicos e emocionais e até o florescimento de novas ditaduras.

Situação de risco

Quem trabalha com crianças em situação de risco concorda com o psicanalista italiano. A maioria das crianças atendidas em entidades assistenciais não conhece ou não convive com o pai. O Projeto Quixote, mantido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), fez uma pesquisa entre adolescentes que moram na rua, têm vícios ou abandonaram a escola. Entre os entrevistados, 22,7% nunca conheceram o pai. Entre os 77,3% que o conheceram, apenas 22,7% dos jovens moram com ele. Matematicamente, a ausência do pai parece constituir fator de risco. Entre meninos envolvidos com o tráfico de drogas em favelas, grande parte jamais teve um convívio regular com o pai.

“A ausência do pai é comum em famílias de baixa renda. Muitos homens têm filhos com várias mulheres e abandonam as famílias. Essas crianças acabam entrando em situação de risco porque falta um pai para impor limites”, acredita Bettina Grajcer, pediatra do Projeto Quixote.

É claro que os pais contemporâneos são bem diferentes daqueles dos anos 50 do século passado, mas seu papel não difere muito, em sua essência, daquele exercido pelo ator Robert Young na série “Papai Sabe Tudo”, famosa por refletir os costumes dos anos 50, quando foi produzida. A autoridade permaneceu, ainda que os chefes de família manifestem mais seu carinho e acompanhem de perto o dia-a-dia dos filhos.

O próprio Diego afirma que uma das principais virtudes de seu pai, o engenheiro mecânico Djair Silvério da Cunha, é o companheirismo. O jogador diz que, se não fosse o pai, hoje não seria uma das grandes revelações do futebol brasileiro: “Ele foi meu ídolo, batia bola comigo e me incentivou no futebol. Apesar de ele não ter conseguido ser um jogador, porque a família não deixou, não se sentiu frustrado e realizou um sonho ao me ver jogando.” Mas a cumplicidade jamais interferiu no respeito de pai para filho. “O Diego cansou de levar repreensões. Todo menino pequeno é levado”, afirma Cunha. Numa de suas traquinagens, o garoto Diego derrubou o aparelho de TV apenas porque queria atenção.

A imagem do pai

Ter a imagem de um pai exemplar é algo extremamente sadio para um filho. Durante os primeiros anos a criança é totalmente dependente da mãe, mas depois a primeira pessoa que passa a admirar é o próprio pai. “Ela o vê como um espelho, mesmo que o pai não seja o mais exemplar de todos, e passa a ter certeza de que ele é seu apoio”, explica a psicoterapeuta Vera Iaconelli, coordenadora da clínica Gerar – Escola de Pais, especializada em estudar o relacionamento entre pais e filhos.

A atriz Regiane Alves, de 24 anos, a Dóris da novela “Mulheres Apaixonadas”, é outra que tem o pai – o construtor José Monteiro – como exemplo. “É o grande homem de minha vida. Já tive vários conflitos, não como a Dóris tem na novela, mas foi ele quem me ensinou a batalhar por tudo na vida e a ser uma pessoa honesta”, diz a atriz, que na ficção não tem a mesma sorte. Seu pai, interpretado por Marcos Caruso, de vez em quando lhe dá umas cintadas e uns tabefes.

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Mesmo morando no Rio de Janeiro, longe de Monteiro, que mora no interior de São Paulo, Regiane ainda respeita o pai como se estivesse sob o mesmo teto. Antes de ser capa de uma revista masculina, a atriz quis saber a opinião dele sobre o assunto. “Perguntei e ele disse que era uma decisão minha. Isso me deu mais segurança para fazer as fotos”.

Pai não é amigo

revistaja3Wanessa Camargo, de 20 anos, também é fã do pai, o cantor Zezé de Camargo. “Me orgulho muito dele, não só pelo cantor, mas pela pessoa que ele é fora dos palcos”, diz. Apesar de os dois não estarem lado a lado todos os dias, ela garante que que ainda são muito unidos. “Ele sempre foi uma constante na minha vida. No começo da minha carreira recebi muitas críticas e sempre fui correndo para os braços dele”, conta a jovem cantora.

Mesmo antes de se tornar famosa, Wanessa já contava com o apoio de Zezé de Camargo. Quando a menina ainda estava no período escolar, era ele quem a ajudava nas lições de casa. “Foi meu professor particular de História”. A cantora também lembra que quando deu uma entrevista dizendo que não era mais virgem, sem seu pai saber: “Ele nem tocou nesse assunto, só me disse para tomar cuidado com o que falo por aí, apesar de não ser um homem tão liberal”.

Aliás, um erro que muitos pais cometem é exagerar na liberalidade e se comportar como amigo de seus filhos. “São relações diferentes, uma menina jamais poderá contar tudo o que faz para seu pai”, explica Andreneide. Maria de Fátima Dias, coordenadora do núcleo de psicologia da Universidade Paulista (UNIP), concorda: “Os dois podem ter um ótimo relacionamento, mas o pai precisa ter autoridade. Ao contrário da amizade, onde a relação é de igualdade”.

Respeito

Quando o assunto é autoridade, muitos homens ainda se assustam. No passado, a imagem do pai era mais severa: os homens amavam seus filhos, mas eram mais contidos ao demonstrar o seu afeto. “O filho precisa saber quem manda, mas o pai também deve ter consciência de que ter autoridade não é ser a autoridade”, diz Vera.

Segundo a psicoterapeuta, uma das maiores dificuldades dos homens contemporâneos é colocar limites nos filhos, pois temem ser vistos como autoritários ou terroristas. Mas, em compensação, conseguem ser bem mais carinhosos do que antigamente. “Hoje eles têm mais acesso aos filhos, participam de reuniões e são tão presentes como as mães”, afirma.

O chef Roberto Ravioli, de 50 anos, é uma prova de que o pai pode ser mais presente sem perder a autoridade. Filho de um militar italiano, Ravioli teve uma criação bem mais rígida do que a de seus filhos Antônio Franco, de 12 anos, e Frederico Luca, de 10 anos. “Meu pai era muito severo com os filhos, eu o amava muito, mas na verdade tinha medo dele. Poré, hoje reconheço e agradeço a Deus por ter tido um pai como ele”.

Uma qualidade que o chef garante ter herdado do seu pai no tratamento com os garotos foi a seriedade. “Exijo que eles me respeitem. Eu apanhei muito, mas nunca bati neles. É outra geração, antes não havia diálogo. Eu sempre entendo a vontade deles.”

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Roberto Ravioli, que se separou da mulher há três anos, procura ser uma presença constante na vida dos garotos. “Achei que iríamos nos distanciar, mas foi ao contrário, e está bem melhor que antes”, diz o filho de 12 anos. Para não ficar longe das crianças, o pai mudou-se para um apartamento em frente ao que eles moram. “Não queria disputá-los com a mãe, foi a solução que encontrei. Assim ainda dá para levá-los na escola, ao médico e estar sempre por perto”, conta o chef.

Estar por perto implica também em dar uns puxões de orelha quando necessário. “De vez em quando meu pai fica bastante bravo comigo, mas eu sou mesmo bagunceiro e sempre peço desculpas”, diz Frederico, o caçula, que afirma que que vai seguir a profissão do pai quando crescer. “Já faço macarrão e panqueca”, diz.

Aprendizado

Nesse tipo de relacionamento, o aprendizado de ambas as partes é uma via de duas mãos, sempre em funcionamento. A imagem paternal tem que mostrar experiência, mas sem desrespeitar os filhos. “Não existe mais o ‘cala a boca’. Tudo que pai sabe tem a obrigação de passar para o filho e vice-versa, é uma troca constante”, explica Andreneide.

Vera Iaconelli lembra que os pais também tem suas limitações e, se demonstrarem que sabem lidar com isso e passarem a ser tornar mais tolerantes, o filho agirá da mesma maneira.

Foi assim que o escritor Affonso Romano de Sant´anna criou as filhas Fabiana, de 37 anos, e e Alessandra, de 30, tradutora e atriz, respectivamente. Ele ainda lembra o tom das conversas que tinha com as meninas ainda adolescentes. Dizia: “É um aprendizado mútuo, nunca fui pai, nem vocês filhas. Posso acertar e errar, mas temos que conversar. Sempre houve diálogo entre nós. No mais foi esperar o amadurecimento, não podia exigir muito de uma adolescente”.

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A experiência de ter criado duas filhas fez com que o escritor colocasse no papel tudo em forma de crônica. Há 20 anos, ele escreveu o texto “Antes que Elas cresçam”, reeditado esse ano pela Landmark, em que, de forma prática, conta como foi bom ter tido a responsabilidade de ser pai.

“Todos os dias recebo ligações em casa ou e-mails de pessoas que leram e que se emocionaram. São situações universais, elas podem não ter ido aos mesmos lugares que cito na crônica, mas a intensidade sempre é a mesma”, conta o escritor.

Assim como as especialistas, Sant´anna também frisa a importância do pai. “Acho importante a figura do paterna na família, é bom contar com esse homem a qualquer hora. O pai é como se fosse uma grande árvore. O mundo pode estremecer que ele sempre estará lá”.

Matéria Publicada na “Revista Já” – Suplemento do Diário de São Paulo
Edição de 10/08/2003

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