10 fev

A Vez dos Meninos

Os meninos precisam de afeto e atenção tanto quanto as meninas. Mesmo parecendo mais corajosos do que as meninas, eles também se sentem frágeis e assustados

JULIANA ZARONI

Enquanto as meninas vivem grudadas com bonecas, brincam de casinha, de fazer comidinha e, por muito pouco, abrem a boca a chorar, eles driblam a bola, fingem ser o super-herói do momento e lutam para vencer o mal. Mas, ao primeiro sinal de trovão durante uma chuva de verão, esse pequeno e invencível guerreiro pode correr assustado para os braços da mãe, morrendo de medo do barulho.

Para o psicólogo inglês radicado na Austrália Steve Biddulph, de 49 anos, a velha idéia de que meninos são mais corajosos e destemidos do que as meninas é um grande equívoco de pais e educadores. Autor do best-seller “Criando meninos” (Editora Fundamento), que já vendeu mais de um milhão de cópias de 11 idiomas, Biddulph afirma que os garotos também choram de medo, se sentem frágeis e embora sejam mais inquietos e desajeitados, são tão sensíveis quanto as meninas. Ele credita o grande sucesso de seu livro a uma grande preocupação das famílias com seus filhos homens, já que morrem três vezes mais meninos do que meninas antes dos 25 anos. A causa das mortes: acidentes e suicídios. O rendimento escolar dos meninos também é inferior ao das meninas.

Um outro fator que, segundo Biddulph, chama a atenção para a educação dos meninos, é a dificuldade de expressar sentimentos, que está intimamente ligada a uma das maiores reclamações das mulheres adultas em relação aos seus parceiros – a de nunca quererem “discutir a relação”. Segundo ele, os homens tem uma dificuldade natural – que pode ser percebida na mais tenra idade – em se comunicar e se relacionar afetivamente.

Presença do pai

A velha e conhecida discussão sobre as diferenças entre homens e mulheres não é de hoje, e, certamente, influi na educação dos filhos. Para a auxiliar administrativa Sandra Cristina de Andrade, de 32 anos, mão de Ana Luísa, de 5 anos, e Bruno, de 12, muitos pais tem uma tendência a proteger mais as meninas. “As filhas mulheres, de uma forma geral, recebem mais atenção do que os meninos. Acho que isso acontece por causa daquela falsa imagem de “bonequinha” que se cria em torno das meninas. Já com os meninos, existe o receio de que, se os pais ficarem mimando muito, o garoto corra o risco de virar marica. Esse pensamento é absurdo, mas ainda impera”, afirma.

Para a psicanalista Andreneide Dantas, esse pensamento pode ser justificado pelo machismo que ainda é dominante na cultura do povo brasileiro. Mas é taxativa ao afirmar que os garotos devem receber tanta atenção e carinho quanto as meninas. “Os meninos também precisam de afeto, de alguém disposto a conversar com eles, compreendê-los e, acima de tudo, eles precisam de pais que desempenhem o seu papel de forma positiva, dando amor e impondo limites ao mesmo tempo”, explica. Outro equívoco cometido por muitos pais é que meninos não devem brincar de boneca. “O garoto não será homossexual por isso. Mas provavelmente será um pai excelente”, afirma.

Para Steve Biddulph, a grande falha na educação dos meninos atualmente é a ausência do pai. “A presença do pai é especialmente importante na formação dos meninos e da sua masculinidade. E quando ele estiver entrando na adolescência, eles também precisarão da ajuda de um homem adulto que os ajudará a entrar no mundo dos adultos”.

Os pais devem participar da vida de seus filhos brincando e contando histórias, mas também tendo uma postura firme. Alguns pais fazem o tipo boa-praça e deixam para as mães a parte ruim da educação. Envolver-se nas decisões, supervisionar o que a criança faz, como, por exemplo, as tarefas, também é papel do pai. Assim ele estará disciplinado com calma, conversando, mas com firmeza.

Matéria Publicada na “Revista Já” – Suplemento do Diário de São Paulo
Edição de 08/06/2003

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