10 fev

Escuta Analítica com Crianças

Quando uma criança nasce, tem um lugar junto a sua mãe – que é o grande Outro – em relação ao desejo dela. Existe mesmo que por pouco tempo, (é importante que o seja) a ilusão para esta mãe que seu filho a completa, que ela e a criança são um só. A este filho por sua indefensão só lhe resta ir a este lugar.

Mais tarde – quando o pai opera – esta mãe pode olhar para outra direção que não para seu filho.

Assim, pode constituir-se para o filho a realidade, a castração opera e ele pode desejar.

Nem sempre acontece isto.

O sintoma da criança representa a verdade do casal familiar.

A escuta do psicanalista possibilita definir o lugar e a direção da cura para a criança que nos procura.

Numa análise com crianças sabemos que por serem dependentes dos pais, a demanda inicial é deles. São eles que trazem os filhos, e é importantes escutá-los para saber qual é o lugar que este filho ocupa no desejo deles.

Qual é o sintoma do filho e para que isto serve.

Muitas crianças chegam até nós com diagnósticos e “destinos traçados”: “Não viverá muito, por causa da Síndrome”…; “Não aprenderá a ler “…; “É limitado”, ” Não tem jeito”…; etc.

O que podemos com nossa escuta é subverter isto e causar o desejo de mudança, operando no discurso, mudamos o “destino”.

Oferecemos um lugar onde os pequenos falantes serão sujeitos do desejo, sujeito responsáveis, mesmo que tenha pouca idade em relação aos adultos.

Na clínica há 9 anos com crianças, atendo crianças que são trazidas por seus pais, orientados por médicos ou pela escola. Nas queixas, falam do mal estar deles (às vezes não) em relação aos sintomas de seus filhos.

Nas entrevistas com os pais escutamos de quem é a demanda, muitas vezes são eles (os pais) os que ficam em análise.

Quando ouvimos e vemos a necessidade de outros tratamentos, perguntamos se os pais foram orientados a procurar também outros profissionais. Mas, a grande maioria chegam e já estão sendo atendidos por vários profissionais.

É importante o lugar e o valor que vários campos de discursos podem oferecer para a saúde da criança. Saúde orgânica e saúde mental.

Algumas crianças chegam com diagnóstico de “debilidade mental”, onde tinha enserido que “Só lhe restava uma classe especial”, dizia; “Talvez consiga aprender algo”.

A mãe desta e de outros pacientes, supreenden-se quando descobriu que sua filha tinha aprendido a ler.

Outra mãe, por ter sido orientada por uma fonoaudióloga que estudava psicanálise indicou a paciente para mim.

No trabalho de escuta evidenciou-se um comprometimento de sua filha junto a mãe, como se as duas tivessem um só corpo, um só significante.

Hoje estas pacientes estão numa outra posição em relação as mães. São crianças como outras de sua idade.
O corpo é afetado pela linguagem, e através do discurso podemos situar o que não “anda” para aquele sujeito. O primeiro lugar que habitamos é a linguagem, uma criança já e falada antes de ser falante, mesmo antes de nascer já tem um lugar no desejo de seus pais

Algumas crianças chegam com crises de asma e bronquite, onde são dependentes de remédios e outras vezes de internações.

Atendi uma paciente que veio indicada pelo pediatra que não aceitava mais as internações que sua paciente sofria. Em 6 meses fora internada 5 vezes. Esta garota de 5 anos “não podia” ter tapetes, cortinas, e bichos de pelúcia em seu quarto. Após algumas sessões fui questionando o que ela “não podia”, aos pouco foi trazendo um a um seus bichos de pelúcia (girafa, vaca, coelho, ursos etc).

Esta paciente descobriu o que era difícil respirar em sua vida. Seus pais brigavam muito e a ela só lhe restava chorar “em um canto”. Após 6 meses sua mãe decidiu que sua filha não precisava mais vir, pois agora tinha tapetes, ursos, cortinas no quarto e “não precisava” mais ficar doente.

Trabalhando com crianças oferecemos para elas um lugar diferenciado de todos os outros, dando-lhes um lugar onde são sujeitos de desejo, tornando-se responsáveis por seus atos, mesmo que tenham “pouca idade”.

Assim possibilitamos que tenham um “destino” diferente do que os adultos acreditam que existe para eles. Podem assim crescerem saudável e responsáveis.

Andreneide Dantas
Psicanalista

Deixe um comentário