10 fev

Aprendendo a dizer

O aprendizado deste ano foi muito surpreendente para mim. É como se cada palavra ou conceito apreendido abrisse um caminho para outro aprendizado, e assim por diante, o que me leva a pensar na teoria de  Jacques  Lacan sobre a cadeia de significantes. Este processo, ao mesmo tempo em que orienta e permeia meu apredizado, também é o ponto de toque da minha experiência analítica.

Tudo o que aprendemos aqui, sobre o Complexo de Édipo e a castração, me levou a leituras e a observações que gostaria de compartilhar com vocês…

Pelo menos uma parte delas….

Em primeiro lugar, cito a psicanalista francesa Françoise Dolto, que, numa conferência feita em Grenoble e editada no Brasil pela Martins Fontes sob o título ‘Tudo É Linguagem’, diz: “A castração se dá pela precisão do vocabulário que exprime o parentesco”.   É com afirmações como esta que aos poucos vou entendendo as formulações de Jacques Lacan sobre a linguagem, a função fálica e a importância da castração e sua relação com o aprendizado e a entrada na linguagem. No mesmo livro,  Françoise Dolto — que aliás, era muito lúcida quando dizia que conseguia dizer de forma simples e transparente o que outros psicnalistas formulavam de maneira um tanto difícil —  cita o caso de um grupo de órfãos que todo dia era levado para a escola por uma perua e passava por constrangimentos porque os outros alunos  os humilhavam. Françoise Dolto começa a tratar os garotos e questiona um dos órfãos: “Será que as outras crianças não teriam inveja de vocês, que conseguem viver tão bem mesmo sem ter pai nem mãe?” O garoto, num momento de conflito na sala de aula, fala a mesma coisa para os colegas, revertendo todo o problema. Daí em diante, passa a ser o líder da turma. Esse testemunho me tocou muito porque prova a eficácia de tudo o que venho aprendendo e vicenciando nestes dois anos de estudo da psicanálise. Principalmente porque tenho uma certa dificuldade de acreditar em tudo que aprendo e vivencio no meu processo de análise, o que me remete para o processo de formação do sujeito de que tanto falamos nos encontros no Instituto Tempos Modernos. São essas experiências, de leitura e pessoais, que me levam a cada vez acreditar e entender mais todos os conceitos criados por Freud e Lacan e a sentir que consigo avançar na minha análise e no aprendizado. Porque, às vezes, surge uma dúvida de que o meu processo está sendo influenciado pelo aprendizado e que meus insights sejam determinados mais pelo que aprendo e leio do que por minha própria trajetória de apreensão do conteúdo reprimido do meu inconsciente.

Em outra leitura, desta vez do livro “Palavras Para Nascer, da psicanalista francesa Miriam Szejer, outra experiência me chamou a atenção e emocionou. Ela narra o caso de um recém-nascido que não era capaz de se alimentar. Durante a gravidez, que era de gêmeos, um dos bebês havia morrido. Como a retirada do feto poderia causar problemas ao bebê sobrevivente, os médicos e os pais optaram por esperar um momento sem riscos para fazer o parto dos dois ao mesmo tempo. Esse bebê sobrevivente tinha um tremendo sentimento de culpa, e por isso não conseguia comer. Aí a psicanalista entra em cena e conversa com ele, dizendo que ele não era culpado pela morte do irmão e que sua mãe o desejava. No mesmo dia, ela começa a mamar. Ainda me é muito difícil saber por que esses relatos tanto me tocam e me fazem ter certeza de que o que quero para meu futuro é isso, fazer o mesmo que essas mulheres, e outras tantas e tantos com os quais tive a oportunidade de conviver e ouvir neste período em que estudo psicanálise.

Um enigma que talvez permaneça para sempre inexplicado, mas que é a força que me move a estudar cada vez mais, tentar compreender e aplicar no meu dia-a-dia esse aprendizado que é o de bem dizer, usar a palavra exata para evitar os tantos mal-entendidos que definem (ou definham?) muitas das relações humanas hoje em dia.

Acho que vivo um processo que ainda terá um longo caminho pela frente, mas já consigo detectar no exercício da minha profissão — a de jornalista — o quanto nos equivocamos quando tentamos emitir opiniões cristalizadas sobre a psicanálise. Como numa reportagem que  reproduzia o lugar-comum de que Freud não passava de um bom escritor, faltando em seu trabalho o rigor científico. Neste mesmo artigo, em seguida a repórter dizia que em psicanálise não era possível aplicar  os mesmos parâmetros que regem outros estudos científicos dadas as diferenças e particularidades de cada ser humano. Isso prova que Freud, passados mais de cem anos de suas descobertas, permanece ainda muito incompreendido. E a única forma de compreendê-lo é estudar e trabalhar nestes encontros tão especiais de um analisando e seu analista, esta possibilidade fantástica que temos de nos livrar de nossos sintomas, aprender a  bem-dizer e mudar o que nos oprime, entristece e emperra nosso crescimento.   É com isso que espero um dia — que eu espero não esteja muito longe — ser capaz de escutar o que outro tem para dizer e ajudá-lo nesta trajetória que todos os seres humanos deveriam trilhar, a de conhecer e reconhecer o seu desejo.

Rosane Maria Aubin
Pedagoga
Telefone: 9638-6071
Jornalista e Estudante de Psicanálise (2003)

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