10 fev

A Questão dos Limites

Esse encontro é muito interessante, e acredito que vai ser muito produtivo para todos nós.Falar de Lei com uma intância que as aplica – o Forum – é algo pioneiro no Brasil, e talvez até no mundo. Assim fazemos a interlocução entre a psicanálise e o direito, dois campos de discurso que trabalha com leis. O primeiro trabalha com a lei da linguagem, do incosnciente o outro com as leis jurídicas.

Sabemos que para que a civilização fosse constituída foi imprescindível que se criassem leis. Leis para proteger o homem dos outros e dele mesmo. Não foi por acaso que a religião estabeleceu leis para conter o lado obscuro e sombrio da alma humana; ” não roubar , “não matar“, são algumas delas.Existem também códigos de ética, que estabelece o que cada profissional pode ou não fazer. Portanto é necessário uma contenção, um limite para o que o ser falante tem de pior: seu gozo, em outras palavras aquilo que ele tem de mais doentio, mais perverso, aquilo que é dificil até que cada um assuma que pensou. ” Não tenho coragem de falar isso para outra pessoa”; “será que eu penso e quis isso mesmo?” São alguma expressões que ouvimos.E a Psicanálise foi criada justamente por um homem – Sigmund Freuid – que pôde escutar àqueles que eram atormentados pela escuridão de suas mentes, pacientes que eram trancafiados em manicômios e tratados como dejetos da sociedade.

Mas, mesmo tendo passados mais de 100 anos da descoberta da psicanálise, com todo o avanço que a ciência nos presenteia, com o avanço da tecnologia, ainda encontramos muitos – a maioria – que negam que para viver em sociedade e conter a loucura seja necessário limitar o gozo.A própria ciência tem dificuldade em saber quando parar, até onde pode ir.

Limites? O que quer dizer isso? Contar com os limites quer dizer aceitarmos que não podemos tudo, e isso nos é ensinado por aqueles que nos recebem, por aqueles que são responsáveis em transmitir as leis, proporcionando proteção e ensinamento, aqueles que são os nossos pais e que por herança receberam de seus pais.A lei organiza o sujeito e o mundo, sem ela o sujeito fica aprisionado na podridão de seu gozo, é ela também que dá autonomia ao indivíduo como sujeito da linguagem.

É pela lei de aliança que a ordem humana se distingue da natureza, e a palavra determina, desde antes do nascimento, não só o Status do sujeito, mais a chegada ao mundo de seu ser biológico. (Lacan- Variantes do tratamento padrão).

Ser biológico que vai ser banhado nas águas da linguagem e vai ser reconhecido como um sujeito e não somente como um corpo, um conjunto de órgãos.

E o que acontece quando esse Outro que recebe a criança não o considera, ou não o constitui como um filho e sim como somente uma criança, um bebê, um nenê ou um corpo.? “Um tico de gente” como dizem alguns.O que acontece quando a fala é vazia, ao invés de se manifestar como uma comunicação em que não apenas o sujeito vai proferi-la sob uma forma invertida, mas em que essa mensagem o transforma, ao anunciar que ele é o mesmo. Que o reconhecimento de si mesmo não é sem o outro. Quando uma mãe diz“meu filho” ao mesmo tempo ela diz “eu sou sua mãe”. Assim reconhece seu filho e o seu lugar, desta forma já estabelece um limite, uma lei entre ela e seu filho e lhe dá um nome, um registro e o reconhece como um outro, separado dela.

Em efeito é através da lei, que o homem é desligado da imediata identificação com o corpo – coisa e é introduzido nos vínculos da aliança.

Mas, sabemos que não basta apenas que uma criança esteja inscrita em um registro de nascimento para que tenha estatuto de um sujeito. Muitas vezes elas continuam como não nascidas, ou como apenas uma criança.O que encontramos, diariamente em nossos consultórios, são pais que não sabem o que fazer com seus filhos. Pais que não conseguem estabelecer regras dentro de suas casas, que não consegue colocar limites em seus filhos e isso é o mesmo que dizer que não conseguem colocar limites neles próprios.

Mães que amamentam seus filhos até 3 ou 5 anos, que dormem com seus filhos porque acreditam que eles não conseguem dormir em seus quartos; “que não conseguem dizer não ao que lhes pedem”; “não conseguem independizar seus filhos, porque acreditam “doentemente” que eles não conseguem, que eles são um conjunto de orgãos falantes. Isso quando ainda possibilitam que eles falem.E porquê essas mães não conseguem, mesmo conhecendo as regras de convivência? Não conseguem porque acreditam que não podem transmitir o que não tem.

Assim, muitos pais não conseguem fazer o funcionamento das leis, ensinando a seus filhos que eles “pode fazer isso” mas, “não pode fazer aquilo”, onde transmitiria o proibido, engazando seu filho em um mundo onde existem negações, possibilidades, permissão, adequação. Pois existem coisas que são permitidas em um lugar, mas, no outro não.Esses pais têm dificuldades que datam de muito tempo, lá do seu tempo de criança e de suas relações com seus pais.

O homem é capturado desde o nascimento na rede de significantes, na rede da linguagem, porque está submetido ao que se refere a palavra do encontro original. Recebe uma ordem para cumprir a palavra e por isso ele fala.Mas, ele fala e na maioria das vezes não sabe o que diz, pois algo fala além dele, existe um outro – o inconsciente – que atravessa seu burburinho, seu falatório, seu bla, bla, bla.

Então, o que encontramos são homens e mulheres que têm dificuldades que são fermentadas pelas convivências que tiveram com seus pais, aliado ao apelo da modernidade, onde o melhor ou o mais atual é aquebra dos recordes, dos limites, que ficam presos em uma rede de equívocos quanto à educação de seus filhos.

O que fazer? Quando dizer não? Até onde podem ir? São alguns questionamentos.

Homens e mulheres que necessitam de manuais para lidarem com seus filhos, acreditando que se disserem o Não para seus filhos estariam comprometendo seu crescimento. E pelo contrário, o não, o limite, a interdição é imprescindível para a entrada na linguagem, para que a criança ande, aprenda na escola, possa conviver com outros sem destrui-los e destruir-se.

Quem trabalha aplicando as leis Jurídicas (Juizes, advogados, Promotores) ou fazendo um trabalho de escuta dessas famílias (psicológos, assistentes sociais) sabem o quanto essas famílias estão desestruturadas. E é justamente por um esfacelamento da lei interna ( de cada um) que vão se deparar com o Judiciário. A “doença” que é psicológica está no seio familiar, em lares que estão contaminados por um desequilíbrio psicológico.

Falamos aqui de homens e mulheres, pais e mães que trazem de sua infância dificuldades, “nós’ que não conseguem desatar, sintomas que não conseguem desfazer, dores que não encontraram uma escuta. Sujeitos sofredores e presos de um gozo podre, cativos de um mal-estar e sofrimento que é passado de geração a geração.

E muitas vezes o nascimento os filhos pode ser o ponto de partida para que apareçam as dificuldades do casal. Onde sentimentos e sintomas que estavam sendo escamoteados e diluidos ao seu redor – círculo de amigos, parentes, colegas de trabalho– é concentrado na vinda daquele pequeno ser que demanda amor, atenção e cuidados.

Não é raro encontrarmos mães que se confundem com seus filhos, que vêem neles o que viveram com seus pais o que eles queriam para elas e por uma transferência atribuem a seu filho o que é seu.

Sabemos que existem regras e leis, imperativos de morais e bons costumes, regras de vizinhança, regras de convivências que são comuns aos viventes, e existe também o outro lado. Pois se existem regras é porque podem ser quebradas.Não há dúvida que existe um apelo para que as leis e regras sejam quebradas; “Só dessa vez”; “Só por hoje”, “ninguém vai ficar sabendo”; “não conte para seu pai“.

E ainda tem o famoso e perverso “jeitinho brasileiro”, convites às infrações. Essas são situações comuns em muitos lares, onde se ensina aos filhos que eles podem não cumprir as regras, pois os próprios pais fazem isso. Como diz o ditado popular, “criam cobras”.

As escolhas que os filhos fazem não é sem antes ter sido delineados por outro, conforme o desejo inconsciente de seus pais. Não é sem uma participação de sua trama ou novela familiar. E o que podemos com nosso trabalho, é estender nossa escuta para que esses pais possam escutar esse outro –inconsciente- que fala neles, para que falem do mal dito, para que possam constituir em suas relações com filhos, conjuge, pais, amigos, uma convivência do bem dizer.

Onde possam enxergar o outro com um olhar onde o fantasma de cada um não interfira, para que assim, possam estabelecer laços ao invés de nós e emaranhados.

Andreneide Dantas
Psicanalista – Tel. (0xx11) 3887-9462
Trabalho apresentado na Jornada “A Família –A LEI e as leis
15 e 16 de abril de 2004
E-mail: clinica@escutaanalitica.com.br

 

1 Comentário

  • Nettie 29 de março de 2017 at 06:01

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