10 fev

Fazemos Justiça… Com quem?

Sabemos que os locais de trabalho costumam  oferecer desafios diários a cada pessoa. Então me pergunto: qual é o desafio em trabalhar como psicólogo no Judiciário ?

A princípio a resposta parece estar pronta e ser muito simples. Mas olhando atentamente para este cotidiano, fica evidente que as maiores dificuldades encontradas para realizar tal trabalho, não se referem as freqüentes “queixas” apresentadas pelas equipes aos Juízes.

Equivocadamente acredita-se que as causas deste mal-estar estão centradas no número reduzido de profissionais frente a crescente demanda, espaço físico e equipamentos muito aquém das necessidades.

Analisando o Judiciário como uma estrutura, há pontos básicos, nos quais se apóia toda a instituição, sendo os principais: a rigidez e o autoritarismo.

Um ambiente organizado nestes moldes, favorece o aparecimento dos mais variados conflitos interpessoais, distúrbios emocionais e patologias.

Os problemas surgem quando as pessoas que trabalham no Judiciário reproduzem este esquema institucional em suas relações profissionais. Assim, o funcionário adota uma postura rígida, para lidar com as mais diversas situações. Outras vezes é autoritário, e quase sempre resistente as mudanças necessárias para a adequação deste trabalho, a atualidade.

Certamente há pessoas que se esforçam para inovar e criar outra forma de se produzir este trabalho. Uma minoria consegue executar suas atividades profissionais com limites, reflexão e flexibilidade, frente à demanda  apresentada.

Mas neste contexto, as exceções são vistas como “problemas”. Tendo em vista que qualquer mudança ou inovação supõe um movimento, uma articulação independente que sempre encontra resistência na rigidez estrutural.

Ampliando esta análise para a sociedade atual, assistimos diariamente a vários movimentos que visam “melhorar” a vida de determinados grupos sociais, tidos como minorias carentes e necessitadas, através da criação de Estatutos.

Desta forma é através de um sistema paternalista que as pessoas “aguardam” que o Estado lhes ofereça melhores condições de vida. Nessa relação de dependência e julgando-se incapazes de empreenderem esforços pessoais para conquistarem algo, não se responsabilizam por nada e permanecem na posição infantil.

Assim, algumas pessoas passam a vida toda reproduzindo em suas relações profissionais e afetivas, a relação que quando crianças estabeleceram com seus pais ou responsáveis. A figura do pai se transfere para as demais figuras de autoridade que encontram, como professores, médicos, policiais e juízes.

Por não se responsabilizarem pelo curso de suas vidas, algumas pessoas navegam a deriva pela tormenta da insatisfação.

Outras vezes o desejo aparece, mas não há coragem suficiente para encarná-lo, então a saída é aguardar que um outro lhe propicie algo. Falta-lhes também a capacidade para se autorizar a atuar, e é por isso que tais pessoas pedem constantemente permissão aos outros, perpetuando as relações de dependência.

Numa ou em outra situação, sempre vivem o medo de quem espera pelos castigos e punições proferidos pelo pai, até então perfeito e idolatrado.

A cada ano a procura da população pelos serviços judiciais aumenta em uma progressão assustadora. Em contrapartida, o número de afastamentos solicitados pelos funcionários, por motivo de licença saúde, aumenta progressivamente.

Observando toda a situação, torna-se evidente que o desafio central é permanecer saudável em um lugar que conspira a favor da doença.

A doença surge então para resgatar necessidades humanas fundamentais, como  a  existência de limites coerentes e  a  diferenciação   entre  as  pessoas.

É ao adoecer que o indivíduo coloca no corpo o limite inexistente em sua vida. Será através da peculiaridade de uma doença, da resposta única de cada organismo ao tratamento medicamentoso, dos efeitos colaterais, etc, que um doente se diferenciará dos demais.

Tanto para o indivíduo saudável como para os doentes, há um único sentimento em comum, algo que é inerente a vida humana.

Assim como num beco sem saída, todos passam pelo sofrimento.

Sofrimento sentido pôr aqueles que permanecem “cegos” frente as evidências. E também presente naqueles que encarnam um desejo e em posição diferente da infantil, desvendaram os olhos e obviamente se decepcionaram com o que viram. Mas esta vivência serviu de mola propulsora para a criação da possibilidade de trilhar um outro caminho.

É na hora desta escolha, entre a repetição do que é esperado que seja feito ou inovando e apostando na flexibilidade, é que surge a pergunta inicial:  FAZEMOS JUSTIÇA …  COM QUEM ?

Agosto/2005
Deborah Maluf
Psicanalista/Psicóloga Judiciária
CRP: 06/33680-0
TEL:(0xx11)3887-9462

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