10 fev

A SEXUALIDADE HOJE

Eu vou começar situando que para a psicanálise há um fato: a diferencia entre os sexos é real, irredutível e não guarda proporção nenhuma. É a partir desse real, da não existência da relação sexual, que há encontros sexuais e que nenhum desses encontros é a norma ou índice de normalidade nenhuma, porem, podemos observar, que para realizar esses encontros sexuais sempre é convocado o amor, mesmo que ridicularizado ou rebaixado o também, sublime ou mortal.

Pela impossibilidade da relação sexual e para conviver com esta falha estrutural, é necessária a eficácia da castração como operador respeito ao qual se situam e organizam os fatos da sexualidade, seus encontros com o sujeito, os acidentes, suas formações e sintomas.

Para Lacan há duas formas de falha da relação sexual, uma ao macho: a maneira ao macho de dar voltas sobre isso (o falo) e outra que elabora no seminário 20: ao fêmea, com o não todo. Como testemunho de um matiz diferente desse não todo próprio da sexualidade feminina, que é não toda fálica, não consegue Lacan de suas colegas, as damas psicanalistas, nem uma palavra.

Nada podem dizer as mulheres desse não todo por uma razão interna, ligada à estrutura do aparato de gozo, ou seja, da estrutura da linguagem (não se pode dizer todo).

Então, o fato de ser o real para a psicanálise a não relação sexual é justamente o que possibilita que se realize nessa falha. Essa falha é para Lacan a única forma de realização dessa relação, se, como diz: não há relação sexual. Por isso, dizer: todo se logra, não impede dizer: não-todo se logra; porque é da mesma índole, se refere ao todo: isso falha. Então, não se trata de analisar como se logra, senão de repetir até o cansaço por que falha, nos adverte Lacan.

Falha, isto é algo tão objetivo para Lacan que nos indica encontrar em volta disso, no discurso analítico, o que tem a ver com o objeto. O falhar é o objeto. Sua essência é falhar.

O objeto falha e também o gozo falha, porque faz falta que não haja esse gozo total o todo (onde se fecha todo desejo possível) faz falta que não haja, é necessário que não haja (o gozo primordial).

Dito gozo é reprimido porque não convém que seja dito, e isso justamente porque dize-lo não pode ser mais que isto: como gozo não convém. Como dizemos há pouco: faz falta que não haja.

Então, para Lacan, a repressão só se produz por atestar em todos os dizeres, no menor dizer, o que justamente implica o dizer: que o gozo não convém – non decet – à relação sexual. Porque fala, dito gozo, a relação sexual não é.

Por isso é melhor que cale, o qual para Lacan, volta um pouco mais pesada a ausência mesma da relação sexual. E por isso, no fim das contas, não cala e o primeiro efeito é que fala de outra coisa. O qual permite situar o principio da metáfora.

Lacan produz uma articulação entre o necessário: não deixa de escrever-se (o sintomático: em tanto uma construção em análise) e o impossível: não deixa de não escrever-se (a relação sexual). Ou para expressar-lo de outra forma: para que haja uma via de acesso ao desejo, é necessário o impossível: o real para o sujeito, ou seja, para o discurso da psicanálise. Isto quer dizer que não há para o sujeito possibilidade alguma de possuir a teoria da relação entre os sexos; esta sempre falta: é um buraco no pensamento, é a fenda sempre aberta no saber, é a castração.

Em função disto, para a psicanálise as neuroses se constituem numa resposta do sujeito ao sexo, tendo em conta que a neurose da qual se trata é a neurose de transferência e isto quer dizer que é uma construção numa análise que rodeia ao buraco no real, que nos mostra que o encontro com o sexo causa um sujeito. Sendo assim, nunca será como no mundo animal.

A descoberta freudiana reconheceu na sexualidade humana a possibilidade de uma eleição sexual que as vezes valoriza a anatomia e outras a rejeita. Freud reconheceu na exposição à linguagem o caminho que se abre à sexuação. Ali não há ideal que permita definir a vida sexual à qual deveria alguém ajustar-se  e é por isso que as normas não deixam de ter resultados perversos.

Podemos dizer que Freud colocou o espírito científico nas coisas do amor e nas questões sexuais, localizando a estrutura e a lógica que elas operam. Isto não quer dizer que a psicanálise tenha que dizer o que é um homem ou uma mulher, porem, podemos responder como alguém, um ser falante, torna-se um o uma.

Quando falamos da eleição do sexo, nela incluímos a eleição do gênero que faz ao sexo simbólico. A linguagem é tal que todo sujeito é ele o ela, esta diferença existe em todas as línguas, em todas as línguas há “valores sexuais”, como os chama Lacan no seminário “O Pior”.

Agora, se a linguagem é o caminho que se abre à sexuação: que determina tanto a virilidade quanto a feminilidade? Podemos responder a isto com uma palavra que situa uma operação, décimos que é a castração, sendo ela inclusive a que organiza a reprodução carnal.

Por tudo isto é que não podemos falar do sujeito, do sujeito em psicanálise, em forma pura, esquecendo-nos que se trata do sujeito sexuado, de um sujeito dividido pelo seu próprio gozo sexual, o qual faz que o desejo não seja um desejo em abstrato.

O erro de acreditar num sujeito neutro, sem sexo, nos levaria a acreditar num sujeito dividido somente pela linguagem, pelos significantes, esquecendo nos que a própria linguagem impõe a eleição do sexo, sendo ela mesmo instrumento do gozo. Este esquecimento o rechaço do coração de nossa experiência nos faria reduzir o encontro com a linguagem a uma lingüística.

Uma coisa é a anatomia e outra a eleição simbólica do sexo. A eleição do sexo é hoje um tema muito atual, já existem reformas nas legislações de vários paises onde a liberdade de dispor de si mesmo é estendida à eleição do próprio sexo. Temos hoje a lei admitindo uma identidade sexual contrária ao sexo biológico.

Hoje são os cirurgiões com ajuda dos endocrinólogos e da técnica os escultores que corrigem, retiram e agregam nos corpos que se oferecem para atingir um ideal sexual ou estético (de cor da pele, etc.). Que nos mostra a ciência com este fato?  Que a transformação sexual anatômica é um fato de discurso, do discurso científico.

Para compreender melhor como se origina a eleição do sexo e a eleição do objeto do amor, como também porque ao começo tanto para a menina quanto para o menino há um único sexo feminizado, é preciso que diferenciemos o campo masculino que cria a mãe fálica, (pela identificação do filho ao falo, onde ela tem o que seu pimpolho lhe outorga) do campo masculino que inaugura um homem com seus atributos viris. É só em relação a esta presença (do homem com seus atributos viris) que se põe em jogo o dois do sexo. Presença salvadora que condiciona a passagem da angustia de ser objeto de um gozo devorador (gozo da mãe) a outra angustia em relação à potencia sexual. Uma presença que possibilita a redução do todo, por uma limitação do infinito, por tanto uma presença sexual que opera o que chamamos castração, que não é mais que uma amputação do gozo que causa o desejo orientando o saber. Estes dois tipos de angustia o a passagem de uma a outra, os podemos ver em Hans. Primeiro o temor a que seu corpo todo seja devorado pelo cavalo e segundo o temor que seu pênis seja cortado.

Esta operação nos permite ver que o inconsciente é sexual porque sua formação resulta da angustia de castração.
Nesta explicação fica desenhado um roteiro: da mãe fálica ao homem, que faz dela uma mulher e Do Homem ao homem ou a mulher, o também ao fetiche se a simbolização falha. O qual nos mostra que a eleição sexual não é natural nem fruto do saber.

Sabendo os psicanalistas que não há universal do gozo, podemos perguntar-nos: como é escolhida uma mulher? Como é escolhido um homem? Em função do amor? Em função do desejo? Do gozo? Vocês lembrarão que Freud falou da condição erótica no encontro amoroso.
A pergunta: que é uma mulher para um homem? Freud a responde dizendo: uma mãe ou uma puta, o qual quer dizer, um objeto que satisfaz o amor o um objeto que satisfaz o gozo.

A pergunta: que é um homem para uma mulher? Freud a respondeu dizendo: as vezes um pai, outras uma mãe, e por isso dirige suas queixas e recriminações; e no melhor dos casos, um homem será um filho para ela. Fica assim, a mulher, situada de uma forma u outra mais ou menos como uma menina para Freud.

Quando Lacan responde a estas perguntas, situa a mulher como sintoma para o homem e o homem pode ser um estrago para ela, usando a mesma expressão que Freud usara para a relação da mãe e da filha; quer dizer, põe na serie dos sintomas ao partenaire sexual, fato que não exclui que haja outros sintomas, de conversão histérica, de obsessão, etc.

O sintoma interrogado nesse nível da relação sexual que não há, inclui o que na relação produz gozo a mais para ele e para ela, inclui então a construção de um ser de gozo, o parletre (o falante ser, como o denomina Lacan), o suplemento de um limite franqueado na relação sexual.
Que o homem possa ser um estrago, significa que pode ser uma devastação, uma destruição que vem do Outro, e diz de uma dominação sobre o sujeito onde a demanda, o desejo e o gozo do Outro são prioritários. Por isso a devastação, pois fica sem seu próprio desejo.

E se a mulher é o sintoma do homem, não será porque seu desejo o atormenta? Quando uma mulher é identificada por um homem como o falo, causando por isso o desejo, não é esta identificação devastadora por intolerável? Que outra coisa pode ser mais devastadora que encarnar a falta?
È por isto que o homem acompanhado de seu sintoma e a mulher daquilo que a devasta não fazem um casal harmônico e por certo fazem um casal cômico onde o falo está na cena, oficiando de comum denominador no mal-entendido dos protagonistas.

Por um lado temos a Freud que deduz a posição subjetiva da mulher partindo da infantil inveja do pênis, situando uma falta imaginária, um menos na mulher. Em Lacan encontramos que ao deduzir a subjetividade da posição feminina de seu ser sexuado, das características de seu gozo, situa na mulher um gozo em mais. Este a mais, este gozo Lacan diz em “L’Etourdit” que é um gozo que a ultrapassa. Creio que podemos entender isto como um gozo que não marca, um gozo que não é identificatório. Um gozo que sendo em mais é ao mesmo tempo um menos de identidade.

Agora bem, como se identifica uma mulher senão é pelo seu gozo? Será que alcança a identificação da mulher pelo amor de um homem? Será pela carência do traço sua exigência insaciável de amor, sua necessidade de ser a única? Uma mulher se identifica sendo a mulher de, a amante de ?
Se as clamantes do sexo, como as chama Lacan, apelam à palavra do homem, é porque “éreis minha mulher”, é uma mensagem que retorna na forma invertida. E se o gozo que obtém a ultrapassa, o gozo que o homem obtém a divide, ou seja, não a completa e por isso mesmo causa seu desejo.
Alguém no percurso de sua análise pode querer o que seu inconsciente tinha decidido, confirmando desta forma uma eleição já efetuada. Pode acontecer que outro tome em conta que o que acontece não era de sua eleição. Pode ser que para outro conformar-se a sua anatomia não se harmonize com seu desejo, o que a homossexualidade que lhe dava prazer comece a entediar-lo.

O que podemos assegurar é que ser o falo dará horror ao sexo, horror pelo erotismo. Este horror vem de um laço incestuoso que implica a sexualidade realizando-se pela via do auto-erotismo. Com isto não quero dizer que o auto-erotismo seja somente um estado primitivo da sexualidade o que se substitui pela genitalidade nas relações sexuais civilizadas. O auto-erotismo é o caminho obrigado da excitação sexual, não havendo uma sem o outro.
No jogo sexual, no tempo das preliminares amorosas, o partenaire é despedaçado, recortado pelas pulsões parciais, anulado como pessoa, reduzido a uma boca, um olhar, um cheiro. Esta excitação auto-erótica, realizada a maioria das vezes de olhos fechados, nos mostra que cada partenaire suporta ser anônimo, que cada um suporta a violência da sexualidade, da pulsão de morte no ato sexual que esquece a pessoa e quando a encontra pode ser: o erotismo ou a catástrofe.

As vezes o auto-erotismo pode ser em alguns casais mais importante que o erotismo e mesmo que vivam num deserto sexual ou sejam indigentes sexuais, não podem viver um sem outro o qual não é sem ódio, que é uma paixão que contrariamente ao sentido comum é signo de grande apego.

Agora bem que uma mulher, pelo seu trabalho em análise, deixe de fazer de seu partenaire o culpável dos efeitos da estrutura, deixe de reprochar-lhe não ser O Homem com letra maiúscula por ser um homem, é o efeito de colocar um limite ao anseio enlouquecido, a essa loucura que uma a uma as mulheres compartilham, efeito que tem em conta o real do sexo que em tanto real é impossível.

Ricardo Delfino
Trabalho apresentado durante as Jornadas da Escola da Causa Analítica/2005

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