10 fev

O ato de adoção

Começarei meu trabalho com um recorte de uma análise. Uma mulher decide me procurar porque não conseguia lidar com sua filha, e queria que ela fizesse análise. A garota tinha dois anos e meio e segundo a mãe “não tinha limites”, “era terrível”, “não obedecia”.Sic.

Quando ela começa a falar na entrevista, me disse que Mariana (nome fictício) é adotada. Ela já tinha adotado o irmão de Mariana, havia alguns meses e sobre ele falou o seguinte: “foi beleza, sossegado, ele é um amor”; “Com Mariana foi difícil desde o primeiro momento, acho que para ela também”.

Fui perguntando para que ela situasse quando decidiu adotar, o porquê…Ao qual respondeu-me que não podia engravidar e daí decidiram adotar um filho, depois seu marido gostou tanto, que “decidiu adotar uma filha”.

Perguntei se ela também tinha decidido isso. Vacilou e concordou que sim, mas que ele, foi quem teve a idéia.

Ainda na primeira entrevista, me fala que talvez a “garota” (não disse filha) seja difícil porque a sua história de origem é ruim, ela tinha vivido até os dois anos em um ambiente ruim, de brigas, alcoolismo… “Talvez ela tenha puxado a mãe”. Perguntei de quem ela estava falando, e disse que da que pariu Mariana, continuou falando e por várias vezes, falou da genitora como sendo a mãe de Mariana.

Sabemos que falar não é sem conseqüências, que quando dizemos uma palavra e não outra a conseqüência é diferente. Portanto, o que ela revelou em seu discurso foi que ela ainda não se contava como mãe de Mariana, pois ainda chamava a genitora, a que pariu, a que gerou, de mãe.

Quando essa mulher escutou verdadeiramente o que estava dizendo, reconheceu que ela não queria adotar uma menina, que foi seu marido quem quis. Para concluir, essa mulher pôde reconhecer e fazer-se cargo do que tinha escolhido. Chorou muito e pôde escolher ser mãe de Mariana. Como conseqüência Mariana pôde situar-se como filha dela e o resultado foi que a relação dali por diante foi bem diferente.

Esse recorte que fiz, ilustra que o lugar e a função de mãe e pai não se refere somente ao fato de alguém gerar e parir uma criança ou a um processo de reconhecimento perante a lei jurídica. A função de mãe e pai vai mais além, pertence ao discurso simbólico, cabendo ao desejo e responsabilidade de cada um.

O nascimento de alguém instaura um corte entre a criança que acaba de nascer e aquela que a gerou. Esse é o primeiro, de muitos outros que se farão necessários. Á partir daí é necessário que a criança seja recebida por um Outro, um adulto responsável que no mínimo, deseje se ocupar dela, pois diferente dos outros mamíferos, somos seres que necessitamos do Outro para nossa sobrevivência.

O filhote do animal nasce e já consegue se virar sozinho, o filho do homem é sempre prematuro, nasce e é indefeso, precisa de alguém que se ocupe dele. Que o alimente, o banhe, fale com ele, o nomei e o ame.

Entendemos com a psicanálise, que toda mulher para gerar um bebê, precisa desejar isso – nem que esse desejo não lhe seja consciente.

Isso que acabei de dizer pode provocar algumas questões para alguns de vocês, principalmente em relação às mulheres que geram os filhos e depois os dão para outra, que pode ser a sua própria mãe, a sogra, uma tia ou a uma desconhecida, existem também àquelas que os jogam no rio, no lixo, ou os matam. Como temos visto recentemente através dos telejornais.

Ora, aprendemos com Freud e Jacques Lacan, dois grandes psicanalistas, um que inventou a psicanálise e outro que a releu e agregou novos discursos, que o desejo é enigmático, não sempre coincidindo com a vontade, com o que é normal, sadio, ou com o melhor que alguém possa escolher. Ás vezes se deseja o pior. Essas mulheres que falei acima – geram bebês, mas não os assumem como seus filhos. E isso tem relação com a sua história, com a história que teve com seus pais, com seus irmãos. Com o lugar que ocupavam na estrutura familiar. Portanto, com sua infância e seu complexo de Édipo.

Falar da história de cada homem e mulher com sua família é falar que mesmo antes de nascer uma criança já tem um lugar reservado para ela no discurso familiar. Quantos de vocês já ouviram algumas meninas dizerem que “quando crescer quero ter dois filhos: Um se chamará João, e o outro Pedro ou Maria”.

Essas meninas crescem e continuam a desejar ter esses filhos. Outras recalcam esse desejo e não mais o reconhecem como seu.

Esses ditos nos mostram que a criança já é falada antes mesmo de nascer, portanto, o nascimento é um acontecimento que está inscrito em um discurso, inscrito na cultura, fazendo parte da estrutura da família, da cidade, do país, etc.

Uma criança quando nasce vem ocupar um lugar de um desejo que pertence a um outro tempo. Um tempo que reside na infância de cada um.

Mas será que basta somente que alguém deseje e gere uma criança e cuide dela para que se estabeleça uma filiação? Uma relação de mãe para filho ou pai e filho?

Podemos responder que não. Que a intervenção necessária e fundante não é só a dos cuidados básicos para a sobrevivência e sim, a de uma palavra que dê sentido ao grito que a criança emite quando cortam seu cordão umbilical e de um discurso que signifique que ela é um ser imerso nessa rede de discurso, nessa rede de palavras, dizendo melhor, nessa rede de significantes. Significantes esses que esperam esse pequeno ser falante que veio ao mundo.

Cabe então a um Outro, que Lacan chamou de grande Outro (geralmente é a mãe que vai a esse lugar) fundar um lugar de existência para a criança. Um lugar que lhe ateste e inscreva em um outro: o lugar de filho. Lugar esse, que não é transmitido pelo sangue, pelo genes ou pelo jurídico, e sim pelo discurso dos pais. Mas claro, que temos que levar esses, também em consideração.

E o que vai fazer uma mulher e ou um homem acolher um pequeno ser falante e o assumi-lo, adotá-lo como seu filho ou sua filha é o desejo desses pais. Desejo em cumprir a função de pai e mãe, que é a função de cuidar, alimentar, nomear (no caso das crianças que são adotadas é importante que respeitem seu nome) amar e colocar limites, ensinando o que cabe a eles enquanto pais.

Quando uma mulher ou homem  assumem uma maturidade à ponto de abandonar seus pais, de abrirem mão de sua infância e deixarem de posicionarem-se somente como filhos, poderão assumir a função de pai e mãe.

Freud disse que os pais desejam que seus filhos sejam um prolongamento deles, desejam que seus filhos sejam também melhores que eles, mais saudáveis, mais bonitos, que tenham mais sucesso. E aqui podemos nos perguntar. O que acontece com esses homens e mulheres que não conseguem assumir a escolha que fizeram quando geraram uma criança?

Será que não querem transmitir um nome, um lar, uma história, uma lei? Não querem deixar de ser filhinhos, filhos do pai e da mãe? E quando digo isso não falo somente dos pais que têm seus filhos e dão para outros exercerem a função de pais, falo também, de homens e mulheres que têm seus filhos e os tratam como coisas, como objetos, nomeando-os somente como crianças, meninas, onde não há lugar para nomeá-los como “meu filho”, “minha filha”. E mesmo que promovam os cuidados básicos e outros que são considerados supérfluos, não os assumem como seus filhos, não os nomeiam como tais.

Portanto fazer de alguém filho ou filha, necessita que se faça um ato fundante: o ato de assumir, adotar no discurso e no desejo e que se responsabilize por esse ato. E quando os adultos se comprometem e responsabilizam por esse lugar de pai ou mãe encontraremos a criança no lugar de filho ou filha.

Andreneide Dantas, 06 de outubro de 2006
Trabalho apresentado na Jornada “Adoções Direitos Humanos e Psicanálise”

Deixe um comentário