10 fev

 

Hikikomori

            Algumas observações a respeito da reportagem “De costas para a vida” da edição 2034 de 14 de novembro de 2007 da revista Veja. http://veja.abril.com.br/141107/p_130.shtml
O hikikomori (“pessoa reclusa” ou “isolada da sociedade”), apresentado aos leitores de VEJA na reportagem mencionada acima e que pode ser lida no site http://veja.abril.com.br/141107/p_130.shtml, é a versão japonesa do que Sigmund Freud nomeou há pouco mais de 100 anos de neurose obsessivo-compulsiva.
Com maior incidência em homens, esse tipo de neurose tem características como o isolamento, aprisionamento em si próprio, a imaturidade psíquica, a agressividade velada ou manifesta e a impotência psíquica. De acordo com a teoria freudiana, a origem da neurose obsessivo-compulsiva (como as de outros tipos) geralmente é marcada por algum fracasso que atualiza uma situação traumática vivida pelo sujeito no passado, muito provavelmente em sua infância.
Essas informações ilustram a conexão entre hikikomori e neurose obsessivo-compulsiva que afirmei inicialmente. Atribuo o suposto desconhecimento de VEJA sobre essa conexão ao fato de que a maioria de seus leitores, o público leigo em geral, e   a própria autora da matéria conhecem apenas a faceta mais caricatural e famosa desse tipo de neurose: o ritual obsessivo.
O cinema já retratou inúmeras vezes personagens atormentados por seus rituais esdrúxulos, como, por exemplo, o personagem de Jack Nicholson em ‘Melhor é Impossível’ (1997). No Brasil, celebridades como Roberto Carlos, Cacá Rosset e Luciana Vendramini declararam ter o transtorno obsessivo-compulsivo – nome empregado no discurso médico e popularizado pela sigla TOC – e falaram a respeito de seus rituais em público. Esses exemplos, como muitos outros que escutamos e vemos com alguma frequência, divulgaram um saber específico sobre a neurose obsessivo-compulsiva. Em “De costas para a vida” esse saber é ampliado, mesmo que parcialmente, uma vez que a conexão que faço aqui não foi apresentada na reportagem. VEJA não é a única a ampliar esse saber. Novamente o cinema tem papel fundamental ao mostrar a faceta ‘hikikomori’ do neurótico obsessivo-compulsivo. Exemplos recentes são o filme ‘O Perfume’ (2006), do diretor Bernd Eichinberg, baseado em livro homônimo de Patrick Sueskind, e o brasileiro ‘O Cheiro do Ralo’ (2006), de Heitor Dhalia .
A essa altura, os leitores desta carta podem concluir que a neurose obsessivo-compulsiva abrange um leque de características que vão desde os rituais e pensamentos obsessivos à melancolia suicída do ‘hikikomori’. Isto confere à neurose o status de estrutura psíquica. A subjetividade de cada sujeito determinará o grau de neurose e a escolha de algumas características dentro da grande variedade de sintomas que essa neurose apresenta.
Portanto, não me surpreende saber que existam casos semelhantes aos do ‘hikikomori’ japonês na Itália e na Coréia do Sul. Acredito na existência de casos parecidos em todo o planeta. Inclusive o serviço das “irmãs de aluguel” são a versão japonesa do que chamamos aqui no Brasil de acompanhamento terapêutico – com as ressalvas de o nome “irmãs de aluguel” implicar num laço de parentesco postiço com o hikikomori e de que no Brasil o acompanhamento terapêutico é feito tanto por homens quanto por mulheres.
O acompanhante terapêutico, ou simplesmente A. T., é uma profissão em que estudantes de psicologia ou psicólogos formados acompanham pacientes em atividades fora do consultório. O perfil do acompanhado geralmente é caracterizado por pessoas que vivem isoladas e que apresentam dificuldades de sair de casa e se adaptar ao mundo. Novamente aqui a conexão que aponto nesta carta é evidente.
Freud não foi o primeiro a observar a neurose obsessivo-compulsiva. Outros antes dele fizeram descobertas semelhantes e deixaram seus registros nas artes plásticas, na literatura, na filosofia, etc. O que difere Freud de seus antecessores e sucessores é a invenção da psicanálise, um método que propicia ao sujeito se analisar e dar conta do que o levou ao caminho da neurose. O percurso de uma análise ajuda a quem está “de costas para a vida” a seguir um novo rumo, menos tortuoso.

            Lucio Artioli dos Santos
Psicanalista.
F: 3887-6840
Cel: 8117-5179

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