10 fev

Qual é o mal-estar que assola os Educadores?Depressão, Síndrome do Pânico, doenças ininteligíveis para a medicina, mal-estar generalizado, fibromialgias, são algumas das caras da velha senhora angústia descrita por Freud nos idos de 1900.

São muitos os sintomas que acometem a vários sujeitos trazendo sofrimento e muitas vezes paralizando-os em suas atividades cotidianas. Trabalhar, amar, comer, estar com sua família torna-se um fardo pesado para àqueles que estão atordoados pelo seu sofrimento e sua angústia.

Porque isso agora? Porque agora não consigo desenvolver minhas habilidades, se antes podia normalmente? Estou louco? Surtei? São algumas das perguntas formuladas.

Geralmente esses sintomas desestabilizam também as famílias dos pacientes, que muitas vezes ficam sem saber o que fazer.

Se entupir de medicamentos resolve? É claro que ajuda, mas não resolve, pois para a doença da “alma” ou para o psíquico, não há remédio que cure a dor da existência. Eles podem funcionar para estabilizar um pouco, porém é necessário que cada um se pergunte qual é o sentido do seu sintoma.

E existe um sentido para o sofrimento que parece atroz?

Sim, aprendemos com Freud, médico austríaco que nos idos de 1899 escutou através dos relatos de seus pacientes que o sofrimento que eles sentiam, transcendiam ao biológico, estavam ligados ao psíquico, ao discurso que eles apresentavam, sem saber o que diziam.

Depois da descoberta de Freud, a humanidade não foi mais a mesma, pois á partir desse momento, houve um abalo em seu ser, onde todos souberam que o eu de cada um, “não era mais senhor em sua própria morada”. Onde cada um descobriu que não era dono de toda situação sobre sua vida, já que haviam escolhas que estavam relacionadas não com sua consciência e sim com o seu inconsciente.

Um Outro fala além de mim? Existe um Outro em mim? Não sou dono de todas as minhas escolhas? Existe algo que não entendo em relação ao meu sofrimento?

Foi escutando suas pacientes sofredoras que Freud descobriu que além das palavras que elas proferiam algo a mais era revelado, esse algo “a mais” era a verdade inconsciente de cada um. E através dessa escuta apurada, desse desejo dele em escutar, o inconsciente foi se mostrando e se demonstrando. Daí não dava mais para deixar de ver e escutar que um esquecimento não era á toa, pois não era somente uma falha de memória; que os sonhos tinham significado e que o sintoma por mais estranho e desprazeroso que fosse, cumpria uma função. A função de comunicar uma verdade singular de cada um, uma verdade inconsciente.

O sintoma e qualquer que seja ele representa a verdade do sujeito. Mesmo que isso se apresente na forma de um enigma. E se seguirmos essa linha de raciocínio, saberemos que não podemos extirpá-lo, arrancá-lo, como se fosse um tumor, e sim devemos descobrir o que ele representa, o que ele significa para o sujeito.
O tratamento psicanalítico não é à base de medicamentos, relaxamentos ou sugestões, é um tratamento feito com palavras. E assim como os pacientes de Freud, os nossos pacientes, através do que relatam sobre seu sofrimento encontram o sentido que existe por trás do que lhes acontece. Pois através da fala, o discurso inconsciente vai se revelando. Esse mesmo inconsciente que é fruto ou caldeirão de todos os temperos e destemperos familiares.

Á medida que vão falando, em cada discurso aparecem às marcas, os traços, os segredos, as esquisitices de cada família. Traços esses que compreende desde o nome recebido á palavras escutadas, que podem ter sido tanto de amor e carinho, quanto de comparações, carregadas de agressividade e até de ódio.

Nosso corpo não responde somente as leis biológicas, ele responde a linguagem, e a linguagem tem suas leis próprias que são chamadas de condensação e deslocamento. Isso significa que aquilo que pensamos e falamos afeta o nosso corpo e a nossa vida.

O corpo tal qual a criança tem quando nasce, é um corpo real que responde ao orgânico, porém, é necessário que cada um faça uma construção desse corpo no imaginário e no simbólico “Temos que habitar esse corpo, torná-lo nosso”. E isso será possível através do que o Outro cuidador (mãe) fez, se ele libidinizou ou não, esse corpo. Por isso as primeiras experiências que a criança tem com um outro cuidador são fundamentais. A experiência do prazer e do desprazer marcará o sujeito para sempre e ele irá conseqüentemente repeti-la em suas experiências. A função do educador e de quem cuida da criança, fora da instituição familiar é fundamental para seu desenvolvimento sadio.

Portanto o mal-dito que acomete aos professores, não é diferente do que assola a todas ás outras pessoas, salvo que os professores recebem alunos e herdam a relação complexa que cada um deles tem ou teve com seus pais.

Através do falar sobre o tempo cotidiano, aparecerão as lembranças que estavam trancafiadas no inconsciente, guardados no “fundo da alma”.  Assim, descobrirão que todo sofrimento tem um significado, uma verdade. Verdade essa que é particular a cada um.

Os benefícios vão sendo acrescidos á medida que eles vão se apoderando de um saber que estava cifrado. E se antes o sintoma era um parasita que sugava o sujeito, depois pode ser transformado em um aliado. Pois o saber sobre sua verdade, faz com que cada um saiba o que os diferencia dos demais, sabendo do que goza e de como goza de seu inconsciente, o paciente poderá fazer escolhas mais acertadas.

E se no começo os pacientes chegam na posição de objetos, acreditando que são vítimas da família, do azar ou do destino, depois acedem a posição de sujeitos. Sujeito de seu desejo, sujeitos de suas escolhas, responsáveis por seus atos e por sua vida.

 

Andreneide Dantas

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