10 fev

Com-pulsão por Compras

Porque tantas pessoas no mundo sofrem com o ato de fazer compras? Na verdade, o sofrimento não é sentido durante o ato, e sim, logo após o mesmo.

Esse comportamento chama tanta atenção, que já criaram novas expressões: “viciados em compras”, “shopaholics” ou “onanie”. Quer seja um ou outro nome dado a essa compulsão, o importante é sabermos por que isso afeta a tantas pessoas.

O que leva com que milhões de pessoas se “entreguem” a esse “vicio” que traz tantas consequências? Porque existem mulheres e homens que por não conseguirem se controlar, extrapolam seus limites, o limite de seu cartão de crédito e às vezes leva a si e sua família à ruína financeira?

O próprio nome já nos dá uma pista, pois quando falamos de compulsão em compras, podemos ler com-pulsão, e não, desejo em compras. Trata-se, portanto, da pulsão. Esse “algo” que os pacientes em análise reconhecem como ”algo mais forte que a vontade”, algo que os “impele” a sair de casa e comprar. Às vezes não importa o que seja, podem ser sapatos, roupas, comida, bebidas, carro, etc. Nessa relação pode entrar qualquer coisa que “apazigue” momentaneamente alguma angústia sentida.

A compulsão não se manifesta somente na forma de compras, ela pode também significar para alguns, compulsão em bebidas, drogas, jogos, relacionamentos afetivos, relações sexuais, em contar mentiras, etc.
Os pacientes relatam que por não entender o que lhes acontece, ou por não suportar a angústia ou ansiedade que sentem, correm para apaziguá-la através de “mimos” e presentes para si. Porém, no minuto seguinte se arrependem, prometem que não mais o farão e tornam a repetir o mesmo diante de outra situação de angústia. Isso leva a um ciclo quase “infernal” de repetição, pois por se sentirem culpados pelo que fizeram, se punem, e assim, comem muito, bebem, se entristecem, reatualizando a repetição do mesmo.

Para entendermos um pouco esse processo de repetição é importante recorrermos ao que significa para a psicanálise a pulsão: algo definido por Freud como inerente ao ser falante, que não tem a ver com a vontade e sim com algo mais forte que quer ser satisfeito, não importando como. Existem dois tipos aos quais Freud denominou “Pulsão de Vida” e “Pulsão de Morte”. A primeira, como o próprio nome já diz, leva a preservação da vida, a outra à destruição.

As duas coexistem durante toda a vida, sendo necessário um limite para que fiquem dentro da normalidade.
Como disse anteriormente, existe nela uma busca de satisfação que fará com que seu caminho seja sempre o de buscá-la através da repetição.

Esse mecanismo é feito desde os primeiros momentos de vida, já que o bebê sempre buscará uma repetição da primeira satisfação ao seio. O prazer sentido proveniente dessa primeira satisfação, será buscado incessantemente durante toda a existência.

Portanto, se antes para o bebê existia a satisfação direta (sentia fome, era alimentado) quando entra na linguagem e no princípio da realidade, essa perda deixará um traço psíquico, o traço de um objeto que foi perdido e que será buscado nos outros objetos. Por isso não importa a qualidade do objeto, e sim a procura por eles. Daí a relação com a compulsão à repetição, onde o que importa é o ato de satisfação da busca.

Como situei anteriormente, na com-pulsão se trata de um imediatismo, pois a pulsão não quer esperar para ser satisfeita, diferente do desejo, que pode levar o indivíduo a buscar um momento mais adequado para realizá-lo. Enquanto na pulsão existe a urgência, no desejo encontramos a espera.

Concluindo, a compulsão às compras está ligada, à compulsão à repetição inconsciente. Portanto, é importante que cada um descubra o que tanto busca e qual o valor desses objetos que vem momentaneamente cobrir a falta de um objeto perdido.

Andreneide Dantas
Psicanalista
Clínica Escuta Analítica

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