10 fev

Os filhos únicos não são mais os mesmosPor motivos diversos, muitas famílias têm optado por um único filho. E para lidar com essas crianças sem irmãos é preciso deixar o preconceito e os estereótipos de lado e lembrar que um dos papéis do professor é promover a socialização

Por Mariana de Viveiros Ilustrações: Shutterstock

Objetivos:
Promover a socialização dos alunos
★Ensinar as crianças a dividir
★Mostrar que cada pessoa pode ter um tipo diferente de família, mas que todas são importantes
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Se ao saber que uma criança é filha única você logo pensa “xiii, deve ser mimada, egoísta, mandona” ou, pior, acredita na música filho Único, de Cazuza, que diz que “os filhos únicos são seres infelizes”, é hora de rever seus conceitos. Foi-se o tempo em que aquele que não tinha irmãos era visto como o “dono da bola”. Conversamos com uma psicanalista, uma psicopedagoga e duas pedagogas que afirmam que esse estereótipo é mito. “Não podemos generalizar, vai depender da educação que a criança receber dos pais”, diz a psicanalista Andreneide Dantas, da Clínica Escuta Analítica, em São Paulo (SP). Andressa Ruiz, orientadora pedagógica do Colégio Fransciscano Nossa Senhora do Carmo (Franscarmo), de São Paulo (SP), acrescenta: “Não podemos esquecer que uma família pode ter três filhos e mimar um mais do que os outros”. Para Patrícia Bissetti, coordenadora pedagógica da Educação Infantil e do 1º ano do Colégio Franciscano Pio XII, também da capital paulista, ser filho único não é um problema: “Egocêntricas todas as crianças pequenas são”, afirma. Já a psicopedagoga Maria Irene Maluf destaca dois motivos que fizeram com que o estereótipo do filho único caísse por terra:

1. As crianças estão indo cada vez mais cedo para a escola, o que significa que começam a se socializar mais cedo
2. Hoje, as mães geralmente trabalham e não têm tempo para mimar demais os filhos.
E por falar em socialização, todas as especialistas consultadas para esta reportagem concordam que a escola é o lugar ideal para os alunos aprenderem a dividir, a conviver com as diferenças, a trabalhar em equipe, a respeitar o próximo, a seguir regras sociais e a fazer amigos.

Dica esperta!
★ Não tenha preconceitos, pois isso dificulta o convívio
★ Conheça o histórico de cada aluno e tenha um olhar individualizado sobre cada um
★ Respeite as características de cada criança
★ Aproveite a experiência familiar de cada aluno – filho único, filho caçula, filho do meio, filho mais velho, filho temporão – nas atividades realizadas em classe

Lugar de socializar
A escola há muito tempo deixou de ser apenas o lugar de transmissão de conhecimentos formais. Hoje, é fundamental que ela promova a socialização.

Na escola, a criança terá que…
— … aprender a ouvir os coleguinhas e a esperar a sua vez de falar
— … compartilhar os brinquedos com os outros alunos
— … dividir a atenção do professor

“No primeiro momento, a criança não vai gostar de dividir [os brinquedos, o lanche, o professor], mas ela precisa aprender que existem limites e que não dá para se ter tudo”, aponta a psicanalista Andreneide. Ela diz ainda que o professor não pode se intimidar com o choro, a recusa e a agressividade da criança.
“O educador não pode ter medo de exercer o seu papel, que é o de ensinar a dividir, colocar limites e promover a socialização.” Patrícia Bissetti destaca que no começo é comum a criança não querer ir para a escola porque, enquanto em casa ela tem tudo só para ela, na escola essa regra não vale. “Temos que conquistar essa criança, mostrando a ela que é gostoso ir à escola e que é importante ter amigos. A escola tem que ter significado para ela, daí a importância dos projetos, jogos e brincadeiras”, explica a coordenadora do Pio XII.

Para promover a socialização, a escola pode…
— … promover lanches coletivos
— … realizar rodas de conversa
— … propor brincadeiras e jogos em grupo

Parceria entre pais e escola
filhos únicos tendem a conviver muito com adultos, por i301780isso pode acontecer de a criança preferir a companhia do professor à dos coleguinhas. Patrícia Bissetti, do Colégio Pio XII, conta que quando os professores percebem esse tipo de comportamento, chamam os pais e os incentivam a frequentar parques (público, de diversão, do prédio), festinhas da escola e aniversários dos coleguinhas para estimular o convívio do filho com outras crianças.

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Dica de leitura!
★ É Meu! É Meu!

Conversando com o leitor, Maurício conta como descobriu que ser egoísta afasta os amigos e que saber compartilhar o que temos é mais prazeroso e divertido.
Autora: Carmen Lucia Campos
Ilustradora: Cecília Esteves
Editora: Escala Educacional
Preço: R$ 19,90
Onde encontrar:www.escalaeducacional.com.br

Família: cada um tem a sua
No Pio XII, no final do ano letivo, professores e coordenadores reúnem-se para analisar o histórico dos alunos e, assim, montar turmas mistas, ou seja, com alunos que são filhos únicos, que têm vários irmãos, que tem irmão adotivo, que vão ganhar um irmãozinho em breve porque a mãe está grávida etc. “Essa integração contribui para que a criança saiba que o modelo de família dela não é o único e que existem vários outros tipos (mãe, pai e um filho; mãe, pai e vários filhos; mãe e filho; pai e filho; mãe, ‘amiga’ e filho; pai, ‘amigo’ e filho; avó, avô e neto que é criado como filho etc.)”, observa Patrícia. Nos primeiros dias de aula, as crianças são estimuladas a levar para a escola fotos de sua família para mostrar aos colegas em uma roda de conversa. “A criança tem necessidade de conviver com as diferenças para poder aceitá-las. Dessa forma, o diferente passa a ser normal”, afirma a coordenadora do Pio XII.
A questão da família é tão importante no Pio XII que em vez de se comemorar o Dia das Mães e o Dia dos Pais separadamente (no segundo domingo de maio e no segundo domingo de agosto respectivamente), celebrase o Dia Internacional da Família, em 15 de maio. “Como tem criança que não tem mãe, criança que não tem pai e criança que é criada pelos avós, optamos por fazer uma festa no Dia da Família”, justifica Patrícia.

i301782Saiba mais!
Para entrar em contato com as profissionais consultadas para esta reportagem, acesse os seguintes sites:
Andreneide Dantas – Clínica Escuta Analítica:www.escutaanalitica.com.br
Maria Irene Maluf:www.irenemaluf.com.br

filho único tem melhor desempenho na escola?
A psicóloga educacional americana Toni Falbo analisou os resultados de testes padronizados que foram aplicados durante anos a alunos com e sem irmãos com o intuito de avaliar suas habilidades matemáticas e de expressão verbal. A conclusão foi que os filhos únicos tinham melhor rendimento escolar. A tese foi comprovada por um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2004.
Maria Irene Maluf – que é filha única – diz que o resultado do estudo faz todo o sentido, pois como a criança que não tem irmãos convive muito com adultos, ela é estimulada precocemente, o que faz com que se desenvolva mais, principalmente em relação à linguagem e à psicomotricidade, além de se tornar mais crítica e exigente consigo mesma. “Quando a criança escuta desde cedo os adultos conversarem entre eles com linguagem adulta, e esses adultos conversam com ela sem usar linguagem infantil e a corrigem quando ela fala errado, o amadurecimento neurológico ocorre mais cedo, pois a formação de sinapses (responsáveis pelo aprendizado) é estimulada. Assim, a criança vai para a escola mais aberta e com mais facilidade para aprender”, explica. Além disso, segundo a psicopedagoga, enganase quem pensa que filho único é paparicado o tempo todo. “O nível de exigência também é grande, porque como os pais só têm um filho para criar, fica mais fácil cobrar, e isso é estimulante”, afirma.
Patrícia Bissetti e Andressa Ruiz levantam outro ponto: para os pais de filho único é financeiramente mais fácil estimular a criança, levando-a ao teatro, ao cinema, a museus, comprando livros, matriculando-a em uma boa escola e em cursos extracurriculares. “Esses estímulos podem sem um fator para que a criança tenha melhor desempenho escolar”, acredita Patrícia.

 

Andreneide Dantas
Psicanalista
Clínica Escuta Analítica

1 Comentário

  • Ethica 29 de março de 2017 at 06:25

    Wow! What a deep article and conversation! I’ve had to argue this point with my husband over the course of our five years of marriage, and I’m beginning to see some truth to it now. I can’t say that he hates parenting, but he’s not “overjoyed” or &#2&t0;en2husiastic2#8821; about it either.

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