10 fev

Síndrome da Pressa

No Brasil três grandes centros de estudos fizeram pesquisas e chegaram á conclusão de que existe uma síndrome que engloba o estado de pressa que afeta a muitas pessoas.

Como o próprio nome já diz não se trata de uma doença e sim de uma síndrome. Que é um conjunto de sinais e sintomas associados a uma patologia. Nesse caso, se trata de uma série de efeitos que atinge um número grande de pessoas nos dias atuais, alterando o seu comportamento. Esse número chega a soma de 30% dos brasileiros, sendo que 65% te a tendência e no casos de executivos esse número sobe para 95%, segundo pesquisa feita pelos pesquisadores do Centro Psicológico de Controle do Stress da PUC Campinas. Estudos semelhantes também foram comprovados por outras instituições e universidades.

A alteração desse comportamento tem efeitos tanto físicos quanto psicológicos, e se apresenta de uma forma facilmente observável, pois faz com que as pessoas andem exageradamente apressadas, tensas, façam várias atividades ao “mesmo tempo” e apresentem hostilidade e intolerância frente a outras pessoas que mantêm outro ritmo, chamados por eles de “lentos”. Esse ritmo acelerado dá a sensação de que essas pessoas não têm tempo a “a perder“ e afeta o sono, a memória, enfim, a saúde desses indivíduos.

É importante lembrar que não é o mesmo que o stress, mas pode ser confundido com o mesmo em estágio avançado. Segundo o Isma-Br, 70% dos brasileiros economicamente ativos sofrem de stress e 60% das doenças são determinadas pelo stress e pelo ritmo de vida.

Portanto, uma situação de stress é importante para o ser humano, que é chamado stress fisiológico, já que é quando sujeito sofre reações físicas e psicológicas diante de situações específicas. Mas, nesse caso, da síndrome da pressa, não se trata de uma situação específica e nem de um momento de vida e sim de um comportamento de alerta e de pressa que faz com que esses sujeitos corram, andem apressados, mesmo quando não precisam.

É fato que existem profissões onde a pressa é característica fundamental e, portanto importante que ela exista, como no caso dos bombeiros. Outras vezes é o momento específico da vida de cada um que exige que nos apressemos. Porém esse comportamento não pode ser generalizado.

Nos consultórios, recebemos pacientes que estão afetados por uma ansiedade intensa, e a ansiedade é um dos sintomas, talvez o maior responsável pelo acometimento da Síndrome da Pressa. Na clinica psicanalítica, entendemos que outros sintomas ou outras estruturas emocionais podem contribuir para que as pessoas desencadeiem comportamentos característicos de quem tem essa síndrome.

Fazendo uma leitura dos tempos atuais, podemos pensar que o ritmo acelerado das cidades grandes e a alta quantidade de afazeres e compromissos, contribuem para que as pessoas andem cada vez mais apressadas. Um outro dado é que as exigências do mercado de trabalho para que o trabalhador fique muitas horas do seu dia produzindo, também podem contribuir. Mas não podemos esquecer que nem todos que trabalham nessas empresas sofrem desse mal.

Então o que acontece com essas pessoas que são diagnosticadas com síndrome da pressa? Porque será que elas, mesmo quando não precisam fazer suas atividades com pressa, o fazem? A ponto de não descansarem nos finais de semana e nas horas de folga? De acordo com esses estudos elas sofrem da Síndrome da pressa. Mas o que será que difere uma das outras? Porque uns sofrem e outros não? Aqui entra a subjetividade de cada um, o ambiente, a família e o inconsciente delas com seu determinismo. E o equívoco de acreditarem que conseguirão fazer tudo, acreditando que não existem limites para seus atos e para seu corpo.

Tanto que a pessoa que tem a Síndrome da pressa tem sua saúde emocional e física, afetada, por conta disso aumenta o risco de infarto, gastrites, úlceras, aumento de pressão, dores musculares (já que não relaxam) e distúrbios do sono.

Podemos nos perguntar o que essas pessoas estão fazendo com suas vidas, com seu tempo! É sabido que o tempo é inerente ao sujeito, interessa a todo ser, já que ele passa e deixa suas marcas, ele também é objeto de estudo de vários discursos, desde a Física, Filosofia, e Psicologia.

O interessante é avaliarmos como o tempo físico e o psicológico, juntos, afetam o cotidiano das pessoas, principalmente das que vivem nos grandes centros. Claro, que não é só nesses lugares que o tempo real sofre a influência do social, mas diante de agendas tão extensas, a sensação é de que faltam algumas horas do dia para fazer tantas coisas. E esse comportamento já se inicia na infância, pois encontramos crianças muito pequenas que já têm uma agenda que parece a de um adulto, com muitos afazeres.

Verificamos que para aquele que não tem tantas atividades o tempo tem outra influência… Ou para aqueles que sofrem de depressão o tempo “passa” de outra forma.. não existindo essa pressão-pressa.

Para a Psicanálise cada sujeito sofre de forma diferente a ação do tempo, alguns não contam com sua passagem, outros “param no tempo”. Para o inconsciente o tempo não passa, pois ele não reconhece essa passagem, por esse motivo um fato ocorrido na infância pode ser sentido na vida adulta do sujeito, como se não tivesse passado nem um dia, pois a carga de emoção é a mesma. Mas, mesmo que o inconsciente não reconheça a passagem do tempo o psiquismo é afetado.

A análise possibilita que o sujeito possa relembrar o tempo passado de sua infância e assim tenha a possibilidade de elaborar o que sente em relação ao ocorrido, que faça seu luto de sua infância ”perdida” para que assim possa viver o agora de uma forma melhor.

É importante que cada um se conscientize do que está fazendo, se pergunte se precisa mesmo correr para fazer suas atividades. E o que essas pesquisas nos alertam é para que possamos nos perguntar o que estamos fazendo com o nosso tempo?

Podemos viver bem e contar com ele aproveitando-o, ou nos sentindo sendo devorados por ele.

Andreneide Dantas
Psicanalista
Clínica Escuta Analítica

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