10 fev

Primeiro quero agradecer a presença de todos, que se dispuseram a vir trabalhar conosco nesse final de semana, sobre um assunto tão importante quanto espinhoso. Quero dizer também, que acredito que cada um de nós, vamos sair dessa jornada com alguma mudança, pois é isso que uma interlocução entre vários discursos proporciona.

Escolhi trabalhar sobre a maldade que existe em uma das instituições mais antigas, e que também é a mais importante: A FAMÍLIA.

A princípio, alguns de vocês podem estranhar, pois o que conheceu e reconheceu em suas famílias pode ter sido a harmonia, o amor e bem–estar. Porém, esses sentimentos podem ser privilégio de poucos. Para outros, esses atributos são vistos somente nas propagandas de margarina e iogurte na TV. E infelizmente, o que encontramos nessas outras famílias, é a falta: de amor, carinho, respeito e segurança. Sendo muitas as crianças, que não tem a sorte, de encontrar naqueles que a geraram, pariram e ou a adotaram, um pai e uma mãe.

Não são poucos, os homens e mulheres que não conseguem ocupar a função que lhes cabem: a de pai e mãe. Por motivos que discutiremos no decorrer dessa jornada, eles ficam em uma posição infantilizada, equivocada e sintomática.

No primeiro exemplo – quando um pai e uma mãe sabe quais são seus lugares – existe uma dissimetria, uma hierarquia entre pais e filhos, onde o lugar de cada um fica definido e estabelecido. É claro, que um filho só poderá ocupar esse lugar, se primeiro o pai e a mãe ocupam o deles. Isso não significa que mesmo nesse caso, não encontremos sintomas, problemas a serem questionados e resolvidos, já que a família perfeita não existe. E no segundo exemplo, encontramos uma ausência de leis que oriente e estabeleça o lugar de cada um.

Para citarmos Levis Strauss (antropólogo) “o que diferencia realmente o homem do animal é que, na humanidade, uma família não seria capaz de existir sem a sociedade, isto é, sem uma pluralidade de famílias prontas a reconhecer que existem outros laços afora os da consangüinidade, e que o processo natural de filiação somente pode prosseguir através do processo social de aliança”.

Isso significa que para a constituição de uma família, a união de um homem e de uma mulher- ou nos moldes atuais, dois homens, duas mulheres, uma mulher sozinha e etc.,- é tão importante quanto à proibição do incesto.

Quer seja de uma forma ou de outra, o fator principal é a base onde ela está alicerçada: a proibição do incesto.

Para sermos mais realistas, é importante agregarmos que para a criação de uma vida, é necessário a união de um homem e de uma mulher, (se for em uma relação sexual), ou se for por uma fertilização in vitro, a união de um esperma e de um óvulo. Mas, para a constituição de uma família, é necessário o desejo de cada um, em se tornar pai e mãe.

Não quero fazer um estudo antropológico nem sociológico da família, e sim falar sobre aquelas famílias onde a proibição do incesto não é respeitada.

Falo daquelas famílias, onde os pais, em vez de proporcionarem segurança e proteção aos seus rebentos, os tratam como objetos, para satisfazerem suas perversões sexuais, e dessa forma, colocam as crianças diariamente expostas a agressividade, violência e maus-tratos, que causam feridas profundas na ‘alma’, no físico e no psíquico delas. Maus-tratos, que alguns têm a sorte de somente imaginar e encontrar nos livros e filmes de horror.

Quem trabalha no jurídico e em algumas Ongs que atendem crianças e adolescentes, se deparam inúmeras vezes com situações de perversões e maldades como essas que descrevi.

Vocês podem nos perguntar: e por que é assim? Porque essas coisas acontecem?

Para respondermos ou debatermos a respeito, recorro a psicanálise, que orienta meu trabalho diário. Pois, cada um se orienta e trabalha com aquele discurso que escolheu, mas também é verdade que a psicanálise pode e ajuda a outras práticas discursivas, já que ela é um tratamento através das palavras, da linguagem, para tratar e modificar o gozo e o desejo de cada um. É um tratamento que incide diretamente naquilo que é conhecido pela maioria, como o maldito (mal-dito), a maldade, que até foi considerada por Sigmund Freud, como o demoníaco. Estou falando da pulsão ou do gozo.

Repetindo, maldade essa, que foi estudada por Freud como o mais além do princípio do prazer ou em termos lacanianos, como o gozo. E quando falamos de gozo, não estamos falando dele no sentido comumente conhecido, como o gozar da vida, usufruir a vida, ou como gozo sexual, como conhecemos na nossa língua. Estamos falando de gozo, como aquilo que existe além do prazer, como algo que se assemelha a um prazer no desprazer, ou, prazer na doença, no sintoma, no mal-estar. Como se fosse um ganho na doença, no infortúnio, na maldade, para ficarmos no tema da jornada.

Falo do gozo que encontramos nessas famílias mutiladas, sofredoras, desagregadas. Famílias doentes, que mesmo sabendo que seu filho de três anos é molestado pelo irmão de 12 anos, faz vistas grossas. Ou de um homem que persegue sua filha para apalpar suas partes íntimas, obrigando-a a se fechar no quarto e dormir de calças compridas e vários cobertores para manter sua mão distante! De um outro, que vai mais longe na perversão estupra sua filha e procria com ela.

Para citar casos conhecidos de todos através da mídia, conhecemos o caso do “monstro austríaco” que encarcerou sua filha e com ela procriou, e além de fazer esse crime á privou de liberdade, do acesso a educação e saúde. E para não irmos tão longe geograficamente, temos o caso do homem no nordeste, que também encarcerou suas filhas, as violentou diariamente e teve ‘filhos’ com elas.

Esses são exemplos onde cotidianamente, essas crianças e adolescentes são expostos a situações de violência e espancamento, para satisfazer a perversão sexual, o sadismo desses que deveriam cuidá-los e amá-los.

Também encontramos crianças que são expostas a outros tipos de maldade, onde a agressividade e a violência não são físicas e sim verbais. Onde o pai e ou a mãe agridem seus filhos com palavras que marcam e atrapalham o desenvolvimento psíquico e até o desenvolvimento físico deles. E se essas crianças não encontrarem um adulto que as ajudem (que podem ser avós, tios, vizinhos ou professores), estarão à mercê, do que de pior existe: a delinquência e criminalidade e dessa forma repetirão com outros, o que receberam em suas famílias.

Em alguns casos, somente com a análise de todo o sofrimento recebido é que alguém se livra do peso da herança maldita que recebeu.

Pois se não for assim, o peso do ódio e da violência sofrida outrora é repetido em seus comportamentos, e isso faz com que outra vez, os comportamentos se repitam, gerando uma cultura de pulsões negativas, de pulsão de morte que poderá ser atualizada através das gerações.

Aqui, encontramos o prazer na repetição do mesmo, ou gozo na repetição.

No texto “Além do Princípio do prazer”, encontramos sobre a pulsão que ela “parece que uma pulsão é um impulso inerente a vida orgânica, a restaurar um estado de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sobre pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de plasticidade orgânica, ou, para dizê-lo, a força da pulsão é tão forte e pode ser tão destruidora que se assemelha ao demoníaco!”. Ele agrega que as pulsões são conservadoras, adquiridas ao longo da história da humanidade, mas que no seu cerne tendem sempre a voltar ao estado anterior das coisas.

Isso significa que as pulsões sempre querem se satisfazer, não importa como.

Existe então, no ser falante um princípio, desde o início da vida, que Freud chamou de Princípio de Prazer, que rege a mente humana, e que faz com que o sujeito busque o prazer, mas segundo ele, desde o início é ineficaz. Depois esse princípio é substituído pelo Princípio de realidade. Princípio esse, que é regido pela espera, ou pelo adiamento para a obtenção do prazer.

Temos então: o princípio de prazer e o princípio de realidade. E na compulsão a repetição encontramos uma obediência a um além do princípio do prazer, ou em termos lacanianos, uma obediência ao gozo.

O próprio destino é entendido por Freud como um ‘arranjamento pelas pessoas segundo uma determinação de influências infantis primitivas’. Nesses termos, o destino é entendido como algo repetitivo enquanto compulsão a repetição. Porque existe na mente de todo ser humano uma compulsão a repetição que sobrepuja ao princípio de prazer.

A pulsão é algo que quer se satisfazer, como eu disse antes, não importando a forma. Assim, ela pode se satisfazer tanto na doença, nas dores, nas inibições, quanto na pintura, na leitura e no prazer.

Freud descreveu as pulsões do ser falante em dois tipos:
Pulsões de vida e Pulsões de morte, como o próprio nome sugere uma leva ao bem estar e prazer e a outra empurra o ser falante para o sofrimento, para a dor e o mal estar. É importante citarmos que Lacan reconheceu que no final das contas toda pulsão é pulsão de morte.

Talvez isso fique um pouco mais claro quando entendemos que as duas pulsões coexistem durante toda a existência e é necessário um trabalho para mantê-la operando dentro dos limites do princípio de prazer.

Não existe um ser humano que não tenha sentimentos e paixões ambivalentes, pois Isso significa que não encontramos pessoas que sejam totalmente boas ou totalmente más, e sim pessoas que são boas em um determinado sentido e más em outros. Encontramos pessoas que se acreditam ‘bonzinhos’ e se descobrem que por ‘querer fazer somente o que o outro quer’ são muitos violentos consigo próprio, já que deixam de realizar seu desejo.

Na infância já temos uma demonstração desses aspectos, quando nos deparamos com crianças que em uma determinada fase de vida, entre 2 e 5 anos se deleitam em atormentar outras crianças, ou a maltratar animais. Ou de forma menos agressiva, em suas brincadeiras, arrancam a cabeça de bonecas, riscam seu corpo, ou quebram carrinhos, os seus e ou, os de outras crianças, que podem ser seus irmãos ou colegas de escola, etc.

Como falei anteriormente, para alguns, isso faz parte do desenvolvimento e mais tarde, ‘aqueles que, enquanto crianças, foram os mais pronunciados egoístas, podem muito bem, tornar-se os mais prestimosos e abnegados membros da comunidade’;…“a maioria dos sentimentalistas, amigos da humanidade e protetores de animais, evoluíram de pequenos sádicos e atormentados de animais’. É o que encontramos no texto de Freud “Reflexões para os tempos de guerra e morte” de 1915.

É verdade que essas transformações vão depender de fatores internos, como a escolha do amor, e também dependem de fatores externos, e aí entra a grande contribuição da família e da educação. Isso significa que aquilo que herdamos de nossos pais e de nossa família é transmitido adiante, para a próxima geração.
Nos casos que estamos vendo, esses senhores e senhoras – que são chamados de pais – por terem recebido em suas famílias sentimentos de ódio, repetem com seus filhos o mesmo. Esses homens e mulheres que tomam seus filhos como objetos de satisfação para seus sentimentos perversos, não são orientados pelo desejo de ser pai e mãe, o que impera não é o amor e sim o ódio. Eles são semelhantes ao pai do mito da horda primitiva, (que Freud descreveu) Urvarter, ‘um pai violento, ciumento, que guardam pra si todas as fêmeas e expulsa seus filhos á medida que crescem’. São pais que não amam seus filhos, o único que lhes interessam é que eles satisfaçam suas necessidades sádicas.

Esse pai terrível é aquele que coloca a lei para os outros, porém ele próprio não se submete a ela. Pois não foi possível para eles, que renunciassem a esse gozo mortal, pois não receberam uma lei que colocasse limites ao gozo da pulsão de morte. Aliado a isso, vemos na nossa sociedade atual, uma cultura, que propaga a impunidade, onde fica subentendido, que as pessoas podem fazer o que quiserem e não sofrerão punição alguma. Com certeza isso abre uma brecha muito grande para que os ataques violentos sejam repetidos desmesuradamente, em qualquer parte do mundo.

E o que temos que entender é que as crianças são seres indefesos que necessitam de cuidados básicos e de garantias de proteção, de amor e de respeito.

Andreneide Dantas
Trabalho Apresentado na Jornada “A Banalidade do Mal setembro de 2010 (versão completa)

e em vídeo (versão compacta)
Clínica Escuta Analítica

Deixe um comentário