10 fev

Obcecado por Elas

Jovens brasileiros que são fãs de cantoras do pop contam suas histórias sobre como e porque são vidrados por essas mulheres
Por: Leonardo Uller
Uma terça-feira de verão em São Paulo, o dia é 4 de dezembro de 2012, a manhã se inicia quente e abafada, o Sol brilha pela tarde fazendo com que a multidão buscasse escassas sombras no ambiente, uma grande confusão de barulhos, gritos e sons, as pessoas estão em fila há horas, no entanto, curiosamente, ninguém ali reclama de nada, todos estão animados.
Pode parecer estranho uma fila de horas e horas com Sol forte em que as pessoas não reclamam, mas para os presentes não é, todos tem os mesmos objetivos. Eles são fãs. E a grande estrela que subiria ao palco em São Paulo naquela noite seria ninguém menos que Madonna Louise Veronica Ciccone, ou, como ficou conhecida mundialmente, Madonna.

Mil reais por duas horas
Alisson Prando, o jovem de 19 anos, estudante de Filosofia e Publicidade e Propaganda, era mais um no meio das mais de dez mil pessoas que estavam no entorno do Estádio do Morumbi por volta das 6 horas da manhã do dia 4, segundo estimativas.
Assim como para todos os outros que aguardavam ansiosamente os sinos badalarem anunciando o início da primeira apresentação da MDNA Tour em São Paulo, aquele não era um dia qualquer para Alisson. Essa seria a terceira vez que ele veria a artista que, em sua definição, é uma “mulher que tem culhões”.
O jovem viajou mais de 500 quilômetros para poder acompanhar as duas apresentações em solo paulistano da oitava turnê mundial da cantora norte-americana, Alisson também teve que forjar uma licença médica falsa para faltar ao trabalho – no final das contas acabaria sendo demitido do emprego.
Como se já não bastasse, o estudante foi assaltado na fila para a pista premium da primeira apresentação e perdeu seu ingresso, não conseguiu reembolso por parte da empresa que organizou a vinda de Madonna para o Brasil e acabou comprando ingresso para o mesmo setor com um cambista, o valor, mil reais extras.
Alisson, dono de um blog sobre música com aproximadamente 35 mil visitas mensais, afirma que não se arrepende de nada e que, se pudesse, faria tudo de novo. Ele diz ser fã de Madonna por conta de sua superação a cada novo trabalho, não se restringindo apenas ao que se espera que ela faça, sendo livre em sua arte e em sua vida pessoal.
Ser fã é uma questão que pode ser entendida através da psicanálise, segundo a psicóloga e psicanalista Andreneide Dantas, que atende diversos adolescentes, os gostos musicais estão relacionados com a formação de uma identidade própria, processo característico dessa fase da vida.
“O estilo de vida das cantoras do pop atrai muito os adolescentes por conta da liberdade que essas mulheres tem para fazer quase tudo que as pessoas não podem fazer normalmente”, afirma Andreneide. Ainda segundo a psicanalista, quando uma pessoa é fanática por um artista ela acaba, em termos, realizando inconscientemente aquilo que o artista faz de fato, ela satisfaz seu desejo de liberdade, por exemplo.
Realmente, uma mulher com mais de 300 milhões de discos vendidos, presidentes de nações como os EUA entre sua lista de amigos e inimigos, integrante da lista das 25 mulheres mais poderosas do século XX e a turnê feminina mais lucrativa da história tem uma liberdade muito além da imaginação de um jovem.
Madonna talvez hoje não tenha o mesmo poder de atração de jovens que tinha nas décadas de 1980 e 1990, no entanto o precedente deixado pela artista permitiu o surgimento de diversas artistas que, detentoras de imensa influência e poder, falam diretamente com os jovens.

Ativismo que atrai jovens
Uma das artistas mais bem sucedidas da atualidade em seu contato com o público adolescente atual é Stefani Joanne Angelina Germanotta, mais conhecida por seu nome artístico, Lady Gaga.
Gaga, mais conectada à realidade dos jovens atuais – tem forte ativismo no mundo digital, por exemplo, o que a aproxima dos adolescentes nascidos na década de 1990. O jovem Yuri Franco, estudante de 19 anos, é um dos fãs da cantora, denominados, por ela e orgulhosamente aceito por eles, como little monsters, monstrinhos em tradução para o português.
Yuri esteve na única apresentação da cantora em São Paulo, no dia 11 de novembro de 2012, no estádio do Morumbi. Segundo ele, o concerto foi incrível, e o jovem não sabe expressar o que é ter a sua cantora preferida na sua frente, além disso, “as músicas estão em perfeita sintonia com a história e as críticas políticas e religiosas que ela (Lady Gaga) apresenta no show”.
O ativismo de Gaga em favor de causas como a do casamento gay e contra o bullying também ajudam a reforçar sua fiel base de fãs e a colocou como uma das cem mulheres mais poderosas do mundo na atualidade, em ranking divulgado em 2012.
“Ela defende muito as causas das minorias, e defende que todos nós devemos ser quem nós realmente somos”, afirma o estudante Carlos Eduardo da Costa de 18 anos, little monster com orgulho. Ainda segundo ele, o ativismo político de Gaga é “Maravilhoso, ela se comove muito com a dor dos outros, principalmente jovens que sofram qualquer tipo de discriminação”.

Amiga da cantora
Quando se fala de identificação com um artista por conta de discriminações nos adolescentes da atualidade talvez só uma cantora seja mais unânime em sua captação de fãs com essa bandeira, Demi Lovato.
Nascida em 1992, Demetria Devonne Lovato tem idade mais próxima de seus fãs do que qualquer outra cantora do pop de sucesso em âmbito mundial na atualidade. A cantora iniciou sua carreira ainda muito jovem, com apenas nove anos fazia parte do elenco da série Barney e seus amigose, desde então, a artista nunca mais saiu dos holofotes.
Em 2008 viria o grande sucesso mundial com a gravação da trilha sonora do filme Encantada e atuação como protagonista do filme musical Camp Rock. No entanto, desde antes do sucesso mundial, o bullying seria um problema que perseguiria constantemente a cantora e atriz.
A cantora passou por diversos transtornos como automutilação e distúrbios alimentares decorrentes da perseguição que sofreu nos tempos escolares, e deu a volta por cima. A partir desse momento, Demi Lovato deixou claro em sua carreira que a questão do bullying seria um tema central em seu ativismo político e em sua arte.
Tal ativismo cativou jovens como Rayssa Moraes, universitária de 18 anos, “ela literalmente mudou a minha vida, todos sabem os problemas emocionais que ela teve e ver que ela conseguiu superar me deu forças para eu passar pelos meus e foi o que aconteceu. Ela não é apenas uma cantora, as vezes sinto até como se ela fosse uma amiga”, conta a fã, que acompanha a artista desde Camp Rock.
Rayssa esteve presente nas duas apresentações de Demi em São Paulo, na South America Tour 2010, de 2010 e na Summer Tour 2012, segundo a fã a experiência “foi incrível, ela sabe lidar com os fãs, ela nos trata como nós a tratamos, como se fossem amigos”, reforçando mais uma vez um dos pontos mais marcantes da personalidade da artista Demi Lovato, sua proximidade com seus fãs, vinda principalmente do compartilhamento de problemas semelhantes.
Outra cantora que teve problemas de peso ao longo de sua carreira – já mais longa que a de Demi Lovato ou Lady Gaga, e que foi acompanhada de perto pelo mundo desde o início, é a cantora Kelly Clarkson.

Lágrimas no show
A artista foi, em 2002, a primeira vencedora do programa American Idol. Kelly é, até hoje, a cantora mais bem sucedida da história do reality com mais de 80 canções ocupando o número 1 em diversos rankings de música ao redor do mundo, além de estar no top 5 das maiores hitmakers dos últimos vinte anos.
Kelly, diferentemente de Madonna, por exemplo, já passou por muitos revezes profundos ao longo de sua carreira, a qual já foi dada como encerrada por muitos críticos que acompanham música pop. Contudo, a cantora encontra-se atualmente em sua fase de maior sucesso artístico e comercial e conseguiu se estabilizar definitivamente no mercado fonográfico.
Para o fã Gabriel Fabri, estudante de jornalismo, a apresentação de Kelly Clarkson no dia 23 de junho de 2012, no Pop Music Festival, em São Paulo foi a melhor de sua vida. “Tinha uma aura em torno dessa apresentação, por ser a primeira da Kelly no Brasil, e por ser a única também, a Kelly ficou nitidamente transtornada com a euforia da galera na segunda música eu já estava chorando e ela também, mas não sei quem começou primeiro”, conta.
Muitas outras cantoras do pop internacional também podem ser citadas, cada uma com suas singularidades e bases de fãs específicas mas todas com algumas características em comum: engajamento em problemas sociais, envolvimento constante em polêmicas, sucesso em escala global, muita fama e influência.

Identidade e rivalidades
Na atualidade muitas são as cantoras que atingem a juventude sedenta por extravasar seus sentimentos através da música. Rihanna, Beyoncé, Katy Perry, Britney Spears, Christina Aguilera e Jennifer Lopez são alguns dos nomes de mais destaque no cenário atual além das cantoras já citadas nesta reportagem anteriormente.
É claro que nesse universo tão vasto de cantoras disputando pela atenção dos jovens não poderia haver paz plena entre fãs. São comuns os casos de brigas entre bases de fãs de uma cantora e bases de outra cantora.
No Grammy de 2012, por exemplo, quando a cantora londrina Adele recebeu seis prêmios, incluindo os três mais importantes da noite – álbum do ano, gravação do ano e música do ano, os fãs de Lady Gaga ficaram extremamente desapontados uma vez que a sua cantora favorita, que concorria em diversas categorias, não conseguiu nenhum prêmio.
Imediatamente após o final da apresentação os fãs da cantora começaram a provocar Adele em redes sociais, especialmente o Twitter, por conta de seu peso acima da média. Na época era possível ver alguns tópicos como “sanduíche de presunto” e “Mc Donalds” nos mais comentados da rede, fruto de provocações dos jovens.
Para Andreneide Dantas esse comportamento é fruto de um represamento de emoções por parte desses jovens canalizados através de suas artistas preferidas e, nesse caso, a revolta deles com várias situações foi desviada para uma revolta com o insucesso de sua artista em uma premiação importante.
Além disso, essas rivalidades fazem parte da construção da identidade pessoal, uma vez que saber o que não gosta é, muitas vezes, tão importante para um adolescente quanto saber o que gosta No entanto, conforme a identidade pessoal vai sendo formada, essa participação nas brigas entre fãs passa a acontecer em menor intensidade.
A palavra chave então para ser fã de uma cantora do pop na atualidade é identificação pessoal. Como pode ser observado no caso de Alisson, jovem que pagou mais mil reais para um cambista só para ver Madonna, ou Yuri e Carlos, que se identificam com o ativismo político e as críticas feitas por Lady Gaga, ou então Rayssa a jovem que se sente amiga de Demi Lovato, ou Gabriel, estudante que chorou no show de Kelly Clarkson. Ou ainda Leonardo, o jovem escritor desta reportagem que sabe a letra de Vogue de Madonna de cor, já dançou Bad Romance de Lady Gaga em boates mais vezes do que pode contar, que se emocionou quando ouviu Skyscraper de Demi Lovato pela primeira vez e também estava presente na apresentação de Kelly Clarkson no Pop Music Festival.

 

Leonardo Uller
Estudante de Jornalismo

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