10 fev

A SEXUALIDADE HOJE

O tema da jornada me remeteu a duas questões. Uma é em relação à sexualidade hoje em comparação a sexualidade antes de Freud. A outra, é entre a sexualidade do adulto e a sexualidade da criança que ele foi.

É fato óbvio que o tema da sexualidade está no cerne das questões e preocupações dos que se interessam pela psicanálise. Foi a descoberta de que era a ela que deveríamos atribuir os sintomas dos neuróticos que Freud brindou a humanidade. E é um saber sobre o sexo que algumas vezes os analisandos demandam ao analista, mesmo que no início eles não falem sobre suas proezas e dificuldades sexuais. Á maioria das vezes também eles não nos procuram por conta dos sintomas sexuais e sim de tantos outros que os fazem sofrer: pânico, depressão, dificuldades afetivas, inibições etc. É preciso algum tempo para que os analisandos resolvam abrir o baú que guarda os segredos de sua forma de gozar sexualmente.

Em contrapartida não são poucos aqueles que fazem de tudo para não ouvir falar da psicanálise e do nome de Freud, assim, inventam drogas e fórmulas para melhorar o desempenho sexual seus e dos pacientes. Tanto inventam drogas ditas “milagrosas”, quanto elaboram objetos e apetrechos para ajudar aos pacientes que sofrem de sintomas sexuais a superar suas dificuldades.

Dessa forma dão ao sexo um lugar de estudo, de observação, de medicalização e codificação, sem levar em consideração o sujeito que habita o desejo, sua história, seus ditos e sua participação em seu mal-estar. Tratam a todos como iguais, com estatísticas e fórmulas de satisfação sexual para todos.

Foi ouvindo suas pacientes que Freud descobriu que seus sintomas proviam de uma insatisfação sexual, portanto, o sintoma teria a função de substituir uma satisfação sexual, e não é difícil encontramos pacientes que falam de seus sintomas como se fossem seus parceiros. Uma jovem mulher falando das drogas que toma para se livrar do “pânico” disse: “depois que fiz a transação dos medicamentos…”, ao invés de dizer “transição dos medicamentos”. Uma outra, teve seu corpo todo tomado por várias dores, que recebeu o nome de “fibromialgia” no discurso médico, pouco tempo depois que terminou um caso amoroso.

O sintoma então, de substituto sexual e encontramos muitas mulheres e homens que quando não tem parceiros ou quando não tem tesão, se acompanham de um sintoma: como por exemplo, uma dor de cabeça. “Dormi e acordei com enxaqueca”, disse uma paciente.

Antes de Freud não tinha havido um sujeito sequer que tivesse tido a coragem de falar que a criança já tinha sexualidade. Não é que eles não soubessem, o fato é que eles não ousavam falar tamanha verdade. Era mais fácil, ou mais aceitável dizer, que a sexualidade somente teria lugar a partir da adolescência.

Freud descobriu que a criança era uma perversa polimorfa e isso causou escândalo nos idos de 1900 e hoje ainda é com espanto, vergonha e pudor que as famílias tratam desse assunto. Isso parece contraditório, pois existe o que podemos chamar de banalização do sexual, protagonizada na mídia, com suas novelas, filmes e indústria da propaganda. Mas, ainda é baixinho, quase sussurrando, que algumas pessoas falam sobre sexualidade.

Muitos pais não sabem como falar sobre sexualidade com seus filhos. Masturbação, anticoncepcionais, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis são considerados assuntos tabus.

Tanto é verdade que essas dificuldades se tornaram assuntos a serem tratados pelo estado, onde vemos uma promoção de programas de governo para ajudar a tratar essas questões, com explicações, e aconselhamentos.

Tendo passado mais de um século da descoberta de Freud, ainda encontramos pessoas que fervorosamente negam que as crianças tenham sexualidade. Muitas mães que sequer ousam reconhecer que seus filhos pequenos, meninos e meninas tenham prazer sexual, cada qual correspondente a sua idade, é claro. Podemos pensar que se elas negam é porque negam o corpo de seu filho como corpo sujeito desejante, já que eles estão inteiramente tampando-lhes o que lhes faltam. Não é por acaso que muitos casamentos acabam-se ou começam a desmoronar depois no nascimento do primeiro filho.

Não há duvidas de que o avanço da ciência trouxe muitos benefícios para a humanidade, com a descoberta de novos medicamentos com poder curativo para muitas doenças e aparelhos de última geração que são capazes de diagnosticar uma doença em seu germe. Mas, é inegável também a cegueira da humanidade frente às questões sobre o desejo humano. E quando esse refere-se ao sexual aí a cegueira parece maior.

Nós sabemos que a sexualidade não é um fato natural, se fosse não haveria tantos equívocos e cada um acederia ao sexo com o qual nasce sem nenhuma dificuldade ou desvio. Não haveria frigidez, ejaculação precoce, impotências, etc.

Não se nasce homem ou mulher, o que existe é uma assunção do próprio sexo, e a normativização da posição do sujeito humano depende de uma lei fundamental. Lei da simbolização, lei do complexo de Édipo e castração.

Quando Freud escreveu os seus “Três ensaios …” revelou que a criança era perversa, dizendo que ela gostava de olhar, se exibir, se masturbar e que tinha atividades anais e sadomasoquistas. E isso que é comum nas atividades das crianças, mais tarde encontramos nos adultos perversos, nas alucinações e delírios dos psicóticos e nas fantasias dos neuróticos e de uma forma geral nas preliminares do ato sexual.

Se o sexo fosse algo natural e cada um assumisse de pronto ao sexo com o qual nasce, não encontraríamos, homens que elegem outros homens; mulheres que escolhem outras mulheres para satisfazer-se sexualmente, homens que gozam de peças do vestuário feminino, etc.

Portanto, para que nosso desejo tenha lugar, e nesse caso o desejo sexual, é necessário que a lei do desejo esteja em vigor.

A castração é o encontro do sujeito com a impossibilidade dele ser o que completa ao Outro. Então, se no começo, por estrutura a criança vai a esse lugar, depois terá que deslizar e ocupar um outro lugar, e isso só será possível se para essa mulher a lei do pai tiver se estruturado. Se tiver lugar a metáfora paterna. Pois se o pai e sua lei não funcionar nada nem ninguém poderá tirar esse filho do lugar do objeto que falta á mãe.

O desejo do sujeito não pertence ao biológico nem ao social e sim a existência do inconsciente, ao discurso da família do sujeito, ao lugar que ele ocupou e ocupa na ordem familiar, à herança que cada um recebeu, herança adquirida, mas que ele pode ir na via adquirida, e com sua análise, para encontrar a sua própria via, o que lhe permitirá sair dos impasses do seu passado.

Um homem de 32 anos procurou-me por que estava cansado de sua impotência. Não sabia ele que a impotência diante da vida fazia com que seu membro viril não ficasse ereto. Ele tinha feito vários tratamentos medicamentosos e seu médico o aconselhou a tratar dessa questão em uma análise, já que organicamente não tinha problemas, porém seu sintoma persistia, não recuava. Persistia e demandava uma decifração, uma leitura diferente.

Esse rapaz-menino, pois era assim que ele se apresentava, como um rapaz e ora como menino, mesmo tendo conseguido sair da casa dos pais, e tendo conquistado postos altos no trabalho, não conseguia se posicionar como um homem frente aos pais. Esses, com alguma reserva tinham aceitado a saída do filho de casa, mas continuavam a dar palpites em sua vida, á ponto de ter as chaves de sua casa. Isso permitia com que eles pudessem visitar o filho a qualquer momento, mesmo que fosse na madrugada e finais de semana. Isso o desagradava, porém ele não tinha a coragem de falar para seus pais que ele não queria mais aquela situação. Com sua análise esse rapaz descobriu que ele ainda era o menino de sua mãe. Portanto, foi preciso algum tempo para que esse paciente assumisse sua posição de homem e assim ficasse potente sexualmente, podendo ter uma parceira, uma namorada.

Portanto, não é com cintas, apetrechos, drogas e fórmulas medicamentosas que homens e mulheres podem descobrir o que está por trás dos sintomas que apresentam, mas sim com a possibilidade de falar e descobrir sobre o que causam seu desejo.

Retomando a questão que levantei no início, não é muito diferente – para algumas pessoas – o lugar que a sexualidade tinha antes da descoberta da psicanálise e nos dias atuais.

Andreneide Dantas
Trabalho apresentado durante as Jornadas da Escola da Causa Analítica/2005

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