07 mai

Porque o gozo do sacrifício se apresenta como uma atração no mundo inteiro?

É o que pretendo ressaltar nesse trabalho.

Alguns pacientes em análise percebem sinais de piora, logo depois que tinham tomado consciência da melhora que tinham obtido através de seu trabalho analítico. Isso parece contraditório: como pioram depois de ter se dado conta de que tinha melhorado?

Para começar a falar sobre esse assunto, retomo o que Freud nos disse no artigo “O Eu e o Isso” quando assinalou que algumas pessoas não suportam o alivio sintomático, bem como não se sentem bem quando são elogiados. Ele chamou esse comportamento de ‘reação terapêutica negativa”. Uma reação que é desencadeada quando o paciente percebe que melhorou e isso se apresenta como um perigo.

Nesse caso a melhora é entendida como algo perigoso, e esse sentimento pode ser um obstáculo para a melhora sintomática do paciente e ás vezes pode ser motivo para interrupção do mesmo. Esse sentimento ou essa reação que os analisandos tem pode se apresentar como um perigo ainda maior que o benefício secundário que o paciente tem com a doença. E aqueles que se debruçam sobre o ofício de atender pacientes em análise sabem que toda doença ou sintoma costuma trazer um “benefício” para aquele que sofre.

Podemos encontrar outras nomeações para esse fato, como no ‘Mais além do princípio do prazer” de Freud, que é a satisfação obtida com o sintoma, e na nomeação de Jacques Lacan encontramos a palavra gozo, que é uma espécie de satisfação com a doença e com o sintoma. Em outras palavras, o fato do paciente sofrer traz uma espécie de satisfação obtida com a dor, com o sofrimento e com sintoma e por mais que isso atrapalhe sua vida ele ainda o mantém por conta dessa satisfação….

Esses pacientes que estamos descrevendo, bem como nos ensinou a genialidade freudiana, sofrem de um sentimento de culpa que encontra no sofrimento ou na doença uma satisfação. Dessa forma, o sofrimento serve como uma forma de punição. Portanto, o paciente não se permite deixar de sofrer porque acredita que precisa continuar expiando ou expurgando a culpa.

Mas porque um sujeito – ou vários – desejam se punir? O que os faz procurar essa forma de sofrimento?

Tanto na melancolia quanto na neurose obsessiva o sentimento de culpa é grande e o supereu é severo e pune o sujeito. (1)

Situando um pouco mais sobre esse sentimento de culpa, vemos, em alguns casos, que ele pode ser tão exagerado que pode transformar pessoas em criminosas. Pois é esse sentimento de culpa, que já existia antes, que faz com que o sujeito pratique ou cometa o crime. É como se fosse um alívio poder ligar esse sentimento inconsciente de culpa a algo real e imediato. (2) Antes do ato maldoso, já existia o ‘mal’ dentro de cada um e esse mal tem relação com o gozo no pior, proveniente da pulsão de morte que existe em todo ser humano.

Em 1916 Freud situa que ‘nas crianças podemos observar que elas são más, para provocar castigo, e uma vez que este é obtido mostram-se tranquilas e contentes”. É lamentável que muitos pais na atualidade não tenham se dado conta disso e não coloquem disciplinas em seus filhos, pois muitas vezes o que eles querem é chamar sua atenção, fazer com que olhem e falem com eles, que possam deter suas ações maldosas e as vezes os punam.

Podemos aqui fazer um breve passeio pelos povos antigos. Pois é sabido que o homem ‘primitivo’ fazia sacrifícios para aplacar a ira dos deuses (3). Faziam assim, porque eles acreditavam que se os deuses estavam irados com algo que eles é porque tinham feito algo, logo precisavam dos castigos que se apresentavam na forma secas, inundação, pestes… Para aplacar a ira dos deuses e se redimirem eles faziam sacrifícios e ofereciam tanto animais quanto pessoas.

O que vemos aqui é que desde o início da humanidade nosso aparelho psíquico faz com que os homens se sintam culpados e procurem – os que não forem perversos – a expiação dessa culpa.

E ao que cada um sacrifica: A felicidade? Prazer? Desejo?

Vemos e ouvimos repetidas vezes em nossos pacientes que eles têm dificuldade para aceitarem e se regogizarem com suas conquistas e se permitirem momentos de felicidades. Uma paciente comentou certa vez que quando estava feliz e sorrindo, escutou de sua mãe que logo iria chorar, pois estava rindo muito. Aqui encontramos a associação entre felicidade e punição.

Sabemos que algum sacrifício foi necessário ser feito para que os povos bárbaros dessem lugar ao homem civilizado e é “…. Impossível desprezar o ponto até o qual a civilização foi constituída sobre a renúncia da pulsão, o quanto ela pressupõe exatamente a não satisfação (pela opressão, repressão ou algum outro meio) de pulsões poderosas. (4)

Isso é o que todos devem renunciar: a satisfação de pulsões agressivas ou destrutivas. Infelizmente não é isso o que temos visto nos últimos tempos, pois para alguns homens houve um retrocesso e em vez de resolverem seus conflitos com a palavra, escolhem armas de destruição, satisfazendo seu gozo mortífero.

Mas, como bem situou Freud, aquilo que é experimentado ou desejado pelo homem não é abandonado e sim substituído… Em vez de atirar numa flecha o homem falou, gritou, xingou…

Se em todos os humanos existe as pulsões agressivas, o que acontece para que não saíamos matando uns aos outros?

Se a agressividade tem relação com as pulsões agressivas quando ela não é enviada para fora, para o semelhante ela é ‘introjetada’, internalizada é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido do seu próprio eu. Melancolia, Depressão e outro…

Nesse sentido, ela é assumida por uma parte do eu do sujeito, que se coloca contra o resto do eu, como superego, e que então, sob a forma de ‘consciência’ está pronta para pôr em ação contra o eu a mesma agressividade que o ele teria gostado de satisfazer sobre os outros e a ele também.

Nesse ponto, encontramos o sentimento de culpa proveniente da tensão entre a severidade do Supereu e o eu.

Sentimento de culpa por ter aberto mão do desejo, sentimento de culpa que tem por característica principal uma necessidade de punição.

O sujeito se sente culpado por algo que cometeu?

Não necessariamente, ás vezes ‘quando a pessoa não fez realmente a coisa má ‘, mas apenas identificou em si uma intenção, ou desejo de fazê-la, ela pode sentir-se como culpada.

Na linha freudiana, vemos que o sentimento de culpa tem duas origens: medo da autoridade (que leva a renunciar a pulsão destrutiva) e medo do Supereu. Pois para o psíquico a necessidade de punição diz respeito ao fato que no Supereu nada escapa: ele tudo vê, os desejos mais secretos e ás vezes impronunciáveis.

Então quanto mais alguém se sente um pecador mais culpado se sente… Esse sentimento de culpa leva algumas pessoas a uma necessidade de punição e mesmo que eles não se dêem conta disso, sentem um mal-estar que os atormentam e os impedem de praticar outras ações, de fazer escolhas que os fariam bem.

E assim como outrora Freud pôde escutar essas formulações de seus pacientes, nós escutamos de muitos analisandos que eles deixaram de fazer determinadas ações e não ficaram felizes com isso. Ao contrário, ficaram ‘martelando’ na cabeça seus esquecimentos… Aqui vemos que a palavra martelar não é por acaso, esse paciente sentia fortes dores de cabeça e mesmo fazendo todos os exames médicos não tinham detectado nenhuma causa orgânica. Nesse ponto, o significante “martelar” ou “martelando” atingia a cabeça do paciente e lhe provocava as dores.

Outros não entendem, porque mesmo depois de sofrerem tanto com determinados comportamentos, quer seja em relações amorosas prejudiciais, amizades desastrosas, trabalhos infrutíferos, não conseguem dizer NÃO! Não conseguem escolher algo que não os façam sofrer.

Porque se castigam?

Sabemos que a autocrítica é necessária para que cada um possa reavaliar o que fez e melhorar caso precise, mais o excesso dela traz danos imensos, pois o excesso marca uma demasia. E a demasia é a marca do gozo. Consequentemente, o resultado será o sofrimento.

O excesso faz com que algumas pessoas busquem a reparação da culpa e o sofrimento como uma forma de expurgação da mesma. Sendo por uma autocrítica severa, excessiva, que muitos pacientes têm dificuldade de reconhecer uma melhora na análise. E algumas vezes é quando a reconhecem que adoecem ainda mais.

O sacrifício pode ser religioso, um capricho de Deus ou imposição social (6)

No seminário da Ética, Lacan situa que com o sacrifício o sujeito se castiga e esse castigo serve para que ele sacrifique seu desejo, se colocando como escravo do outro.

Quantos views são contabilizados quando são publicadas cenas de morte, de horror, acidentes ou assassinatos?

O que leva com que as pessoas assistam repetidamente a esses atos?

Qual é a curiosidade que os internautas sentem para que um vídeo que mostra vidência seja contabilizado na casa de milhões em poucos segundos?

Lacan nos ensina que, quando alguém se sacrífica, sacrifica seu desejo e realiza seu gozo.

O sacrifício a que cada um se inflige tem relação com o gozo do Outro e com sua inconsistência. Pois quanto mais desvario alguém sente em querer manter o Outro consiste, mais sacrifício se fará!

O desejo é a barreira contra o gozo, é barreira contra os imperativos sádicos do Supereu.

Os ensinamentos lacanianos nos mostram que quando o sujeito não faz o luto pelo pai ideal, o mantêm na ilusão de completude. E não aceitar um Outro incompleto é não aceitar que o pai tem falhas. Isso é o mesmo que manter o pai da infância, o super-homem, aquele que o defendia de todos os males”. Isso significa que o sujeito se mantém em uma posição infantil, precisando de alguém que os proteja e aqui não se responsabiliza pelo que lhe acontece. Pois quanto mais o sujeito precisa do Outro conta menos com si mesmo.

Quanto mais o sujeito faz renúncia do seu desejo, mais o Supereu vai exigir uma nova renúncia e quanto mais o sujeito renuncia mais vai se sentir culpado e quanto mais culpado mais sofre-dor. Parece um ciclo interminável se o sujeito não colocar uma barreira. E a barreira será a realização de seus desejos.

Em o “Eu e o Isso” Freud situa que o Supereu, não é simplesmente um resíduo das primitivas escolhas objetais do Isso; ele também representa uma formação reativa enérgica contra essas escolhas. Ele é o herdeiro do Complexo de Édipo, retém caráter do pai, e quanto mais poderoso for o Complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir a repressão (sob influência da autoridade, do ensino religioso e da educação escolar e da leitura), mas severa será posteriormente a dominação do Supereu sobre o eu, sob a forma de consciência ou talvez de um sentimento inconsciente de culpa.

E assim como a criança obedecia a seus pais, o adulto obedece ao Supereu.

 

Andreneide Dantas

1 Comentário

  • Eduardo 22 de maio de 2015 at 12:54

    Andreneide,
    o texto é muitíssimo esclarecedor, justamente por esclarecer a origem de nossa dor. Mostra o quanto nosso autosacrifício pode ser insaciável, inesgotável. Ao mesmo tempo, contudo, o texto mobiliza potência, multiplica o desejo.
    Fui afetado por um misto de riso e choro, uma verdadeira alegria!
    Eduardo Guimarães

    Responder

Deixe um comentário