01 out

(Imagem retirada da internet para ilustração)

Processos do sistema inconsciente são atemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo, não tem qualquer referência ao tempo, dispensam pouca atenção à realidade. Estão sujeitos ao princípio do prazer, seu destino depende apenas do grau de sua força e do atendimento às exigências da regulação – prazer – desprazer. Os processos inconscientes se tornam cognoscíveis para nós sob as condições de sonhos e neurose (Sigmund Freud).
Consequentemente, o inconsciente não tem idade, o sujeito que se manifesta no período aonde os hiatos começam a se formar, espaçando o que é, do que foi, é o mesmo da sua juventude.
Ao observar nos idosos suas manifestações posso afirmar, que quem habita aquele sujeito não é quem sua idade apresenta.
As lembranças da sua infância e mocidade são as que ficaram gravadas, seus delírios são suas verdades, aquilo que os sustentaram como sujeitos. Como explicar isso, a não ser pelo fato de que, se não houvesse essa crença já estariam mortos em vida.
O que também chama a atenção na velhice é a incapacidade de reter o momento presente, desde os ais banais e corriqueiros, como o que comeram naquele dia, mas conseguem lembrar com detalhes palavras, canções, brincadeiras, os ensinamentos de seus pais, com tanta nitidez, que vivem esses momentos com emoção e nostalgia.
Isso me reporta aos ensinamentos de Lacan, onde vemos que o eu surge como uma cristalização ou sedimentação de imagens ideais, equivalente a um objeto fixo com o qual a criança aprende a se identificar. Outras imagens ideais são igualmente assimiladas pela criança, refletidas pelo outro parental, que são estruturadas linguisticamente. O eu é um lugar de fixação e de ligação narcisística.
Estas são as imagens e denominações de si mesmos que os velhos retêm quando pouco resta em termos do presente, é isso que lhes dará sustentação e provará a eles mesmo que ainda existem.
Ao acompanhar uma mulher de 95 anos pude perceber que o desejo ainda a mantém, desejo de amar, de ingerir bons alimentos, de se enfeitar, de falar sobre sexo, crendo ainda que é a mesma pessoa e, certamente é, de quando tinha 10, 20, 30 anos. Pois apesar das incapacidades motoras e funcionais que a afetam, ainda crê que viver é importante, pois tem suas lembranças, suas histórias.
Um dia ao perguntar-lhe porque falava continuamente, repetindo os mesmos casos, de cenas outrora vividas, respondeu-me, “Porque é a única coisa que me resta: falar”.

Maria do Carmo Mucciolo

Psicanalista

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