28 jan

Porquê o Caminho da Psicanálise?

Já  algum tempo esta questão tem estado presente, mas evidenciou-se após receber a solicitação de um trabalho individual como conclusão do 1º ano do curso de Formação em Psicanálise.

A escolha pela Psicanálise não me foi por acaso.

Durante e após concluir o curso de Psicologia, numa faculdade como muitas outras, em que nos incentiva para um pensamento comportamentalista, e onde acabou sendo extremamente restrito o contato com a Psicanálise, mas foi-me possível escolher na própria faculdade uma supervisão Psicanalista, o que proporcionou-me um querer saber além. Sabia que existia ali algo que causava-me grande interesse.

Hoje, questiono a posição que o Psicólogo ocupa. Principalmente ao que refere-se ao diagnóstico que prevalece aos profissionais da área.

Tal diagnóstico é o chamado nosográfico e se dá através da classificação dos sintomas. É entretanto, o que a prática médica proporciona; classificação do sujeito através da “doença”, dos fenômenos.

Sendo assim, onde há a crua? Através do medicamento? Mas este não é o lugar que a Psiquiatria ocupa? Então qual o lugar que ocupa o Psicólogo?

A Psicanálise faz outro caminho. Um caminho que no entanto, não é o considerado pela Ciência. E porquê? Será talvez que para a Ciência o inconsciente não existe? Ou o inconsciente é considerado algo profundo, algo não palpável, não visto, por isso não considerado?

Mas pelo que podemos constatar, a ciência não consegue responder as vicissitudes de cada sujeito, até porque o convite é para a generalização.

Mas será que a intenção de Freud era criar uma nova ciência? Talvez. Mas uma ciência que particulariza, tomando cada sujeito como único.

E considera cada sujeito, como sujeito da linguagem. E se é sujeito, não ocupa mais o lugar de objeto.

Ser sujeito da linguagem é aquele que responde às leis, portanto não pode tudo, o que o possibilita desejar.

Um convite a ouvir portanto o que a linguagem transmite, que é a verdade do inconsciente que se dá através das formações tais como: os tropeços, as trocas de palavras, os chistes, os sonhos e os sintomas.

Escutar a verdade que o inconsciente transmite não é uma tarefa fácil. Tal escuta só nos é possibilitada no momento em que nos autorizamos ouvir a nós mesmos, para nos darmos conta dos significantes que nos representa, e só é possível quando estamos inseridos no processo analítico, onde efetivamente nos tornamos analistas e conhecemos na prática o sujeito do inconsciente.

Eis a grande diferença que a Psicanálise proporciona. A possibilidade de só nos tornarmos analistas, após a escuta de nós mesmos; após levantarmos questões que nos possibilitará lidarmos diferentemente com nosso sintoma.

Entretanto, parece que para a Psicologia, escutar a si mesmo não é condição sine qua non para abrir um consultório e sair atendendo a várias pessoas, muitas vezes sem a condição necessária; e as conseqüências deste ato são na maioria escabrosas e contribuem para a imagem que hoje tem o Psicólogo.

Mas não acontece somente com a Psicologia. A própria Psicanálise é rodeada de pessoas que se intitulam analistas, mas que ignoram a ética do desejo. Eis um exemplo recente de uma matéria de revista, onde um aluno diz: “ Mas, se tenho uma paciente adúltera que se recusa a parar de trair o marido, eu abandono o tratamento.” (VEJA, 20/09/2000).

Este é um dos vários exemplos, talvez um exemplo de que a Psicanálise desperta interesse, e haver-se com ela tem conseqüências, pois é aquela que questiona o que é considerado óbvio para alguns ou o que é considerado destino para outros.

Isso é  também o que a cultura nos oferece, de sermos por vezes amordaçados pelo que a sociedade prega. Ou até mesmo como disse Claudia Lanzarim em seu artigo “ A Fantasia e o Baile de Máscaras do final do Milênio” – disse que “viver em sociedade capitalista, desigual e individualista, que busca normatizar, controlar e tutelar o dissidente, a originalidade, não é tarefa fácil”; ou como citou Duarte Jr.., em seu livro “A Política da Loucura”… “ os filhos são educados para submissão e não para a autogestão.

E ainda vale citar o filme, cujo título é: “Instinto” com Anthony Hopkins que questiona esta mesma “Política de Loucura”, cujo personagem principal, um antropólogo, foi rotulado pelo sistema como sendo psicótico e brutalizado com doses avançadas de medicamento e que acabou respondendo a tudo isso negativamente.

Demonstra além disso como acaba sendo o trabalho de uma instituição, cuja estrutura panópitica constrói um louco. E traz a mensagem de que “nada é mais selvagem do que a civilização”, assim podemos interpretar que se assim desejarmos nos tornamos dominados e reproduzimos por toda a vida as mesmas atitudes. Talvez seja por gostar de permanecer na ignorância, como já disse Lacan.

A escolha feita pela Psicanálise se dá exatamente pelo fato de que ela se constrói a partir de cada caso, e não sobre o “drogado”, ou o “doente Mental”, mas sim a partir de cada sujeito, pelo que este diz e através de sua história, esse é o diagnóstico considerado pela Psicanálise.

 

Jucileide Souza de Santana
CRP 06/55473-0

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