28 jan

DISCURSO E EFICIÊNCIA NO TRABALHO

Frederico II, rei da Sicília, ordenou que fossem  trazidos para seu castelo vários recém-nascidos, aos quais foram prestados todos os cuidados, mas com quem era proibido falar. O intuito do monarca era saber que língua  as crianças falariam espontaneamente e que  vocabulário teria  prioridade: o hebraico, latim ou o grego. O resultado foi uma surpresa, pois o primeiro lugar coube à morte, porque a privação da linguagem teve como consequência o perecimento dos bebês.

Fica evidente a necessidade da linguagem, do discurso, para o ser humano. Esta diferença que existe entre nós, seres falantes e os animais, nos coloca no registro do simbólico, da racionalidade e este fato traz consequências.

Não necessitamos apenas de cuidados básicos quanto à função orgânica mas precisamos estar com outros, olhar e sermos olhados, precisamos do outro para crescer sadios fisica e psiquicamente. Se não pudermos contar e ser contados, morreremos. Seja organicamente seja como sujeitos pensantes e desejantes. Não é raro  encontrarmos indivíduos mortos-vivos que não desejam e não se responsabilizam por seus atos, que mais se assemelham a  marionetes  manipulados pelos meios de consumo. Aqui, o capitalismo oferece todas as formas de gozo – acreditando que determinado objeto os completará trazendo a felicidade. Através dessa forma de gozar pretende dar ao sujeito  o que ”ele precisa ” produzindo  vícios e em contrapartida oferecendo os ”paliativos” através de uma numerosa oferta: remédios, vitaminas, drogas, álcool, cirurgias,  spas  etc. Sistema perverso que cria o vício e fabrica o remédio para continuar enganando o sujeito.

A linguagem que nos torna humanos é também o que distancia as pessoas que cada vez mais preferem a companhia dos bichos à dos semelhantes. Diariamente encontramos  pessoas desimplicadas  do que dizem, eximindo-se de responsabilidade pelos males que lhes acontece e aqui, neste lugar da não responsabilização pelos atos,  abre-se a porta para uma grande demanda de manuais de auto-ajuda,  esoterismo, regressão a vidas passadas, penduricalhos energizantes etc. Qualquer  alternativa que permita entregar a outros a decisão sobre suas vidas.

Em uma empresa acontece algo semelhante pois esta precisa ouvir seus funcionários senão eles perecem.. Morrem tecnicamente, não avançam, não crescem e não produzem, ficam estagnados na mesma função e isto os leva do stress aos sintomas orgânicos, tão comuns e que são irresponsavelmente diagnosticados como ”peripaques”.

Estes sintomas correspondem à morte do desejo e a morte do desejo traz malefícios tanto para o funcionário quanto para a empresa, já que esta poderá ter investido em treinamentos, salários, benefícios e não obterá em retorno, um  profissional adequado às expectativas  do cargo.

São conhecidos os casos de profissionais competentes, eficientes que, justamente pela qualidade de  seu trabalho, são contratados por outras companhias que lhes oferecem ótimos salários, benefícios, viagens. No entanto, depois de algum tempo, descobre-se que”aquele” profissional não está ”rendendo” para a empresa.  Fica estabelecido um impasse porque os dirigentes não sabem o que fazer, nem compreendem o motivo do baixo rendimento do profissional. Por que algumas pessoas se ”adaptam” melhor  numa empresa do que em outra?

Por que apesar das boas condições de trabalho oferecidas, um profissional capacitado não consegue mostrar seu melhor desempenho?

Motivos inconscientes são fortes determinantes do sucesso ou do fracasso de cada um. O sujeito precisa falar daquilo que o incomoda, dos empecilhos que detêm sua marcha, precisa resgatar trechos perdidos de sua história, para então poder se desenvolver integralmente  e alcançar o sucesso.

Assim como no exemplo dos bebês, entendemos que a linguagem – o discurso – é fundamental para sustentar o desejo de alguém,  para continuar vivendo e  produzindo. Se  a companhia investe muito em capacitação, salários e instalações luxuosas e esquece de investir na humanização de seus funcionários, tem como retorno, o pior. Hoje em dia, o estresse provocado pelo excesso de tarefas aliado  aos problemas  pessoais,  provocam sérios transtornos orgânicos que  afastam os profissionais do trabalho  tornando-os dependentes de remédios, drogas e álcool. O ” saldo” é muito dinheiro gasto com tratamentos, licenças do trabalho e acidentes provocados dentro e fora da empresa.

É preciso então, criar condições que permitam aos  funcionários  produzir discurso e possibilitar tratamentos que os levem a falar de sua história singular. Assim, estes sujeitos poderão desfazer os ”nós” que os atrapalham  tornando-se sujeitos capazes de realizar mais. Isto será revertido em  ganho para a empresa e para o funcionário , pois profissionais saudáveis trabalham com mais disposição sem  ”precisar” adoecer.

 

Andreneide Dantas – Psicanalista

Diretora da Clínica Escuta Analítica

Coordenadora de Cursos do Instituto Tempos Modernos

Credenciada dos PAPS

 

Joaceri Merlin – Psicanalista

Diretora da Clínica Escuta Analítica

Coordenadora de Cursos do Instituto Tempos Modernos

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