28 jan

 

Psicossomática:

A psicanálise se ocupa do sujeito que a ciência deixa de lado, presta atenção àquilo que o médico não escuta. Não medimos taxas no sangue, não radiografamos ou diagnosticamos, mas escutamos o que o sujeito tem a dizer sobre esse corpo manipulado, enlouquecido por uma doença que resiste aos medicamentos. Doenças nas quais muitas vezes a medicina não encontra um “sentido”.
Quando o indivíduo nasce, ele tem um organismo, um corpo despedaçado, um conjunto de órgãos que só através da linguagem vai ter estatuto de unidade corporal.
Este corpo a que me refiro, é um corpo que precisa do outro estruturado como um discurso para que este corpo de carne se transmute em corpo simbólico.
O sujeito, antes de nascer, já existe. Está na palavra mesmo antes de ter um corpo e continua a existir depois de sua morte, quando não tem mais um corpo. Isto é possível porque a duração do sujeito está sustentada pelo significante. É a linguagem que permite uma margem além da vida.
Precisamos esquecer que temos um corpo para não enlouquecer. Não ficamos escutando as batidas de nosso coração, medindo a pressão ou sentindo a respiração – salvo os hipocondríacos.
Mas o que acontece aos pacientes que apresentam as doenças chamadas “psicossomáticas” ? Doenças cuja etiologia não são explicadas?
Aqui os transtornos orgânicos fazem os órgãos presentes, existe um retorno do auto-erotismo que exclui o gozo da palavra. Sabemos que no auto-erotismo – como já está dito – o sujeito prescinde do outro como semelhante, tem um auto gozo, gozo no próprio corpo. Quantos de vocês já devem ter escutado de pessoas que sofrem de “doenças psicossomáticas” : “Esta doença me acompanha há tantos anos”; e fica como única companheira mesmo. Ou então: “Carrego comigo esta doença há dez anos “. E esta paciente precisava ficar trancada em um quarto escuro durante três dias, longe do marido e filhos.

Muitas vezes uma doença, assim como também uma droga, toma o lugar do parceiro sexual. O sujeito não goza sexualmente com o semelhante, mas com a doença ou com a droga que ingere. Asma, úlcera, alergias, obesidade, transtornos digestivos, tumores e hemorróidas. Nesta lista incluem-se também anorexia, epilepsia, diabetes, psoríase, etc.
Existe uma vasta relação de doenças que estão intimamente ligadas ao que o sujeito deixa de falar, com a renúncia de seu desejo. O que não é dito faz escrita no próprio corpo. Obstruindo uma veia, destruindo um órgão, abrindo feridas ou descamando a pele do corpo. Feridas que mostram que as coisas não vão bem, que algo não está sendo dito, em palavras.
A psoríase por exemplo, dá a ver , não para ler mas para mostrar e angustiar ao outro. Aqui o gozo não fica reservado às zonas erógenas, mas mete-se no corpo, corporifica-se fazendo a lesão. Escreve no corpo algo que é da ordem do número, um grito, uma escrita que parece ilegível. Mas o analista com seu desejo pode escutar e possibilitar ao paciente que ele coloque em palavras o que está incrustrado em sua carne.
Os pacientes com “doenças psicossomáticas”, geralmente têm outros casos na família, mas não é comprovado que são transmitidos geneticamente. Constatamos que são transmitidos pelo discurso. Às vezes é uma forma, ou a única forma de identificação ao pai. Exemplo de uma paciente que, tendo desconfiança que era filha adotiva, faz
uma psoríase, como sua avó paterna.
O analista não aborda os órgãos nem o organismo ou a enfermidade.
O único que trata é do discurso . Presta atenção ao sujeito, ou aquilo, que do corpo o representa. Não se ocupa de “fenômenos psicossomáticos”, mas, de significantes.
É preciso escutar o paciente e conduzir a cura até a abertura de um espaço onde o que é resposta fixa — “doença psicossomática” – transforme-se em uma pergunta sobre seu desejo. Só assim o paciente pode colocar seu sofrimento no discurso, e não mais atribuir ao destino o que lhe acontece.
Podemos com nossa escuta oferecer um lugar e um tempo para que o sujeito faça dessa letra, desse número inscrito em sua carne, letra discursiva. Que isto possa aparecer nos sonhos, lapsos e esquecimentos, que possa transformar-se em palavras, em um dito o que está preso em um grito.

Andreneide Dantas

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