28 jan

SEXUALIDADE

Quando uma criança vem ao mundo é designada por “é uma menina” ou “é um menino” Ë um destino enunciado por aqueles que a acolhem, um destino que parece incontornável para todo o ser  sexuado biologicamente. Porém,  o ser humano não é só biológico e é de imediato imerso na linguagem. A anatomia deverá levar em conta essa linguagem. Em outras palavras, o bebê nasce menino ou menina, mas além disso algumas coisas precisam acontecer para conseguir se tornar homem  e mulher.

O bebê a partir da mãe vai começando a conhecer seu corpo. A palavra tem potência transformadora. Sem sua inscrição, o corpo e suas funções entram em falência. Ë no corpo da mãe que a criança  colhe suas primeiras representações, ou seja, só há boca porque há seio, só há corpo porque há toque, só a equilíbrio porque há olhar. (da mãe ou de quem ocupa esse lugar).

Os adultos se perguntam sobre as crianças com surpresa pela forma com que se defrontam com as transformações sociais que se processam.

Sabemos que os brinquedos são outros. É fato que seu saber a respeito dos objetos muitas vezes supera o de seus pais. Basta estar a seu lado diante de um vídeo game ou computador.

Não há comparações possíveis em nossa infância. As imagens eram construídas em nossa imaginação ao ouvirmos contos, músicas, histórias contadas por nossos avós. Hoje os livros infantis são plenos de imagens, gerando uma economia no que seria construído imaginariamente pelos leitores das mesmas. Hoje  não há prevalência da palavra e sim da imagem.

As crianças percebem o desvio no olhar de seus pais, das letras para as imagens. E acabam elas também navegando por essas vias de imagens. Pouco a pouco, as televisões a cabo e os computadores começaram a ganhar terreno, dentro da perspectiva da interatividade, com a possibilidade de escolha e controle sobre as imagens. Nas telas de cinema ou televisão, as crianças assistem, mesmo que não busquem, cenas ligadas ao exercício da sexualidade.

Os apelos publicitários são diretos quando se trata de chamar o olhar sobre o sexual.

Talvez não seja por acaso que os adolescentes, estes que a pouco eram  as crianças que assistiam a estes desfiles explícitos de sexualidade, decidam que “ficar” é uma boa saída. Afinal, em sua infância, a sexualidade foi apresentada como uma possibilidade de gozo que muitas vezes remetia ao puro ato. Isto se revela na preocupação dos pais diante da possibilidade de realização do ato sexual de seus filhos, em idades precoces.

As crianças, ao brincar, evidenciam o sintoma da família. Na clínica, tem sido comum crianças que ao brincar não encontram sustentação para encenar um faz-de-conta. Pois para elas tudo é estampado. Não há nada para ser imaginado, investigado.

É importante saber  que é na infância que há o surgimento das teorias sexuais. A criança investiga a existência de 2 sexos, a questão da sua origem e da origem dos bebês.

Na adolescência há um reencontro dos restos da infância perdida. Há um despertar das fantasias que estavam esquecidas, adormecidas. Porém, na adolescência o que era fantasia pode tornar-se realidade e começam a se perguntar sobre seu desejo, sobre a relação sexual, sobre sua existência.

Há uma excitação que leva ao encontro de um parceiro e aí se perguntam sobre sue próprio sexo. Esse encontro com o parceiro inclui a possibilidade de serem pais e isso não havia na infância, tudo era fantasia.

A crise é que agora o adolescente ocupa um outro lugar que está ligado a sexualidade. Esse novo lugar causa solidão em muitos adolescentes, porque eles se perguntam que lugar é esse  e o que se espera dele.

Maria Helena Seibt
Psicóloga Judiciária/Psicanalista da Clínica Escuta Analítica
Fone: (0xx11) 3887-9462

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