28 jan

DROGAS : A FELICIDADE COMO UTOPIA

No final dos anos 60 os Beatles afirmavam em uma de suas canções : “A felicidade é uma arma morna”. Ninguém entendeu muito bem o que estavam querendo dizer porque naquela época os valores estavam mudando, a liberação sexual, a contra cultura, os prazeres imediatos estavam em voga. Açoitado  por duas  grandes guerras que destruíram  parte de uma cultura milenar, o mundo ocidental achou por bem viver prazeres momentâneos, uma vez que havíamos atingido um ponto em que a tecnologia ameaçava extinguir  toda a humanidade (e toda a obra humana).A ameaça não foi afastada e a  busca da felicidade imediata ainda reina soberana representando um perigo tão grande quanto o arsenal bélico desenvolvido nas últimas décadas.

Desde o início da psicanálise sabemos que há uma tendência em todo organismo vivo, a regular-se pelo princípio do prazer que  conduz à  busca de uma satisfação imediata. Os animais respondem imediatamente a estes instintos mas o homem, afetado pela linguagem, diferencia-se do animal entre outras coisas, pela capacidade de adiar  a satisfação e produzir  objetos  substitutivos. Ser humano significa ir além das condições naturais; por sermos falantes, estamos imersos num universo simbólico afastados do “natural”. Natural querendo dizer que nada mais no homem obedece a instintos.

Os objetos que construímos vão produzindo cultura, propiciando laços e estruturando a sociedade. Mas podem também servir apenas para a manutenção do narcisismo e responder a  uma proposta de satisfação isolada que rompe o corpo social e esgarça seus laços. Pode propiciar o mais alto desenvolvimento humano mas, pode também, projetar o homem num labirinto onde a deambulação impele à destruição e  à morte.

Felicidade, então, é um conceito subjetivo relativo à nossa condição humana. O homem pode tornar-se isolado e egoísta ludibriado por um sonho de consumo onde o objeto torna-se um bem supremo tentando tamponar uma falta que é estrutural e inerente a todo ser vivente. Nada, nenhum objeto pode completar –nos.  A busca da felicidade através das drogas  é conseqüência deste engano: tentando aliviar-se de seus sintomas, pessoas buscam cada vez mais caminhos promissoramente mais fáceis e rápidos. Numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva, onde a comunicação está a cargo dos aparelhos de televisão e dos computadores, torna-se difícil para um jovem não cair vítima da ilusão de que a  felicidade pode ser comprada. A falência da função paterna em nossa época, tem produzido graves distorções. O pai, em sua função de operar com a lei, impondo limites é aquele que permite ao filho organizar-se no mundo e guiar-se pelo desejo. Quando uma criança não conta com a lei do pai, não pode vislumbrar um futuro decente, não pode ser escutada, não se sente incluída num projeto de vida, o  que lhe resta?  Fugir da vida das várias maneiras que encontrar: adoecendo, isolando-se, consumindo drogas.

Podemos pensar até  que ponto um jovem pode estar se identificando com este significante ”droga”,  que ponto atinge sua desvalorização para que  considere sua vida  uma droga. “Eu sou uma droga”, “ a vida é uma droga”, são frases que ouvimos com freqüência consultórios.

O que uma criança necessita para aprender a viver em comunidade, é ter limites bem definidos, aceitar as frustrações como forma de adiar um prazer que pode sim, ser alcançado, mas não a qualquer preço. A ilusão de que a felicidade pode ser comprada e utilizada no momento em que se desejar, leva a equívocos perigosos ou, como disseram os Beatles, é uma arma morna.

Por definição, droga não  se circunscreve às substâncias  não legalizadas mas a tudo que provoque alteração transitória da personalidade ou do estado de humor. Quantos de nós temos recorrido a estes paliativos para aliviar tensões e diminuir a angústia?  Muitas vezes os jovens encontram em  casa o modelo no pai que toma uns drinques “inocentes” ou na mãe que recorre ao antidepressivo para suportar as frustrações do dia-a-dia. Antes de acusar um jovem pelo uso de drogas, é necessário avaliar  a extensão  de nossa responsabilidade nos exemplos cotidianos.

Não todos os usuários são necessariamente dependentes e a dependência  não é fruto do uso freqüente e indiscriminado. Ela aponta sim, para  uma condição  do indivíduo  que está submetido a um gozo narcísico mortífero, onde o desejo foi sacrificado pela obtenção de flashes momentâneos de um prazer  ilusório. A pessoa assim escravizada pela droga não percebe que a felicidade instantânea que esta lhe oferece, é uma arma voltada contra si mesma.

Se o jovem não pode exercer sua condição de sujeito falante – que é o que nos humaniza – resta a ele a condição de objeto, droga, coisa sem valor. Alguns pais pensam que dando tudo a seus filhos, estão fazendo o melhor, pensam que se nada faltar, o filho crescerá feliz e saudável. Ao dar “tudo” esquecem-se de dar ouvidos,  escutar  (queixas, idéias,  alegrias, frustrações). Calar é uma forma  cruel  de abandono, por isso a importância da escuta na clínica. Ao falar de si, a criança, o jovem ou o adulto, pode reconhecer-se como ser falante, pensante, produtor de seu próprio destino, redator de sua própria história e fiel a seu próprio desejo.

Joaceri Merlin da Costa
Psicanalista, sócia da Clínica Escuta Analítica  e membro do Instituto Tempos Modernos em São Paulo.

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