Nosso entendimento, obtido na prática clínica, é que muitos dos problemas que as crianças apresentam na escola ou em casa, não estão separados de outras dificuldades. Quando os sintomas escolares ou comportamentais aparecem, estão encobrindo problemas emocionais. Mais ainda, afirmamos que inúmeras doenças- principalmente as que são recorrentes: otites, viroses, pneumonias, asma, bronquites, etc. – apresentadas pelas crianças, tem como causa alguma dificuldade pela qual a criança passou e por não ter encontrado uma forma de falar sobre o mal- estar que sentiu, coloca-o em seu corpo. Pois sabemos que o corpo de todo ser falante é afetado pelos sentimentos, emoções e fala.

A Clínica ESCUTA ANALÍTICA em parceria oferece também palestras de orientação a profissionais das áreas da educação e da saúde com o objetivo de levá-los a detectar alterações no desenvolvimento e desempenho da criança, habilitando-os para triagem e encaminhamento para tratamento.

Quando uma criança precisa de atendimento psicanalítico?

Quando apresenta alguma dificuldade que atrapalha seu desenvolvimento. Dificuldades que os pais, a escola ou o médico podem detectar. Por exemplo, quando tem doença recorrente, ansiedade acima do normal, medos exagerados. Enfim, quando tem algum sintoma que as fazem sofrer, é preciso que as crianças possam falar com um psicanalista, para que através da palavra possam revelar o que não está bem com seu corpo e em suas relações com os outros. Pois as palavras, tem o poder tanto de desorganizar um corpo, quanto reorganizá-lo.

 A partir de qual idade é possível fazer o tratamento?

Atendo pacientes desde a idade de três anos, mas existem trabalhos feitos desde o berçário, com os recém-nascidos que apresentam alguma doença ou sintomas e por conta disso não respondem bem ao tratamento médico. Nesse sentido (com bebês) o psicanalista faz intervenções com a criança, falando com ela, sua mãe e equipe médicaEm que se baseia o tratamento psicanalítico?

Em escutar o paciente, mesmo que esse tenha pouca idade, pois por estarmos inseridos na linguagem, tanto podemos ser aprisionados pela palavra quanto libertados. O trabalho da psicanálise se baseia em escutar o que os outros discursos deixam de fora e que pertence ao inconsciente: os sonhos, os atos falhos, os esquecimentos e os sintomas.

Com crianças utilizamos a fala, escutando o que nos dizem sobre sua vida, sua relação com os semelhantes e também utilizamos jogos, desenhos e brinquedos, que vão servir como “motor” para que a criança possa através deles encenar e falar de outros acontecimentos, de outras cenas acontecidas em sua vida e que de alguma forma lhes provocaram sofrimentos ou interpretações equivocadas.

Através do brincar, a criança coloca no simbólico algum real ameaçador, algo que foi vivido e não foi simbolizado. Dessa forma, expressam o que está no seu inconsciente.  Temos o exemplo de uma criança, que tendo uma determinada doença, é levada ao médico e “toma uma injeção”. Na análise ela encena que é a médica e ela é quem aplica a injeção. Assim, ela vive ativamente o que outrora viveu passivamente. E isso lhe possibilitará elaborar o acontecido, para que isso não resulte em traumas.  A criança também pode falar sobre seus pais, seus amigos, irmãos, trabalhar os sentimentos de ciúmes, inveja, raiva. Enfim, falar sobre o que sente e que em outros lugares ela não tem a chance de ser escutada.

Quais queixas são mais comuns?

As queixas mais comuns são as dificuldades escolares: desde a troca de letras, atraso no aprendizado a repetência; dificuldades de relacionamentos com colegas, agressividade consigo e com os outros, hiperatividade, “déficit de atenção”, inibições, etc. Situações que atrapalham o desenvolvimento da criança tanto físico quanto intelectual.  E o que se revela na análise é que essas dificuldades encobrem outras, que vão surgindo durante o tratamento. A medida que o tratamento transcorre, vemos qual é a posição que a criança ocupa na família, como está posicionado o casal de pais, o que eles esperam desse filho, como a criança se vê, sua relação com irmãos. etc….

Existem doenças (bronquites, rinites, doenças de pele, diabetes, asmas, otites..) que mesmo a criança sendo atendida e tratada com medicamentos os resultados não são satisfatórios, essas crianças se beneficiariam do tratamento psicanalítico?

Certamente. Tenho a experiência de atender crianças que tinham crises de bronquites, alergias e asma e faziam tratamentos medicamentosos, porém apresentavam uma melhora pequena, inclusive eram constantemente internadas de tão graves que eram as crises. Através da análise, puderam falar sobre o que lhes aconteciam na família e na escola e aos poucos foram representando seu corpo de outra forma. Antes elas eram medicadas, examinadas e não tinham a chance de falar sobre sua situação, sobre o que sentiam em relação a tudo isso

Quando os pais e ou professores precisam procurar e indicar um tratamento psicanalítico para o filho ou aluno?

Sempre que perceberem que algo não “anda bem” com a criança: ou porque estão muito agressivas, não conseguem aprender, ficam constantemente doentes, não falam, ou demoram para falar e ou andar, tem distúrbios alimentares, quando não se socializam, apresentam medos acima do normal, enurese, encoprese, etc.

 Porque muitas crianças agressivas e hiperativas tomam medicamentos?

É comum encontramos nos dias de hoje muitas crianças com esses diagnósticos, porém precisamos ter muito cuidado, pois nem toda criança que é irrequieta ou agressiva tem hiperatividade. Ás vezes as crianças não tem disciplina, os limites não estão bem estabelecidos. Como consequência elas ficam “perdidas” sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É importante que essas questões não sejam confundidas com problemas neurológicos. Portanto, é imprescindível um diagnóstico bem feito para que a criança tenha a oportunidade de fazer o tratamento adequado.

 Se uma criança com essas dificuldades, não forem atendidas adequadamente, quais as consequências futuras?

As consequências de um diagnóstico errado, acarreta em tratamentos inadequados, onde a criança tomará um medicamento desnecessário que não resolverá o problema e ainda terá efeitos colaterais e sofrimentos que poderiam ser evitados. Isso pode fazer com que a criança tenha seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico afetados.

 É possível que quem precise do tratamento sejam os pais e não o filho?

Sim, ás vezes os pais nos procuram para atendermos seus filhos e o que precisam realmente, é de orientação ou de análise. Pois sabemos que não é fácil exercer a função de mãe e de pai, ainda mais em um mundo como o de hoje, onde à maioria das pessoas não se dão tempo para saber o que desejam; existem todas as ofertas do mercado, os imperativos de uma felicidade extrema, de um consumo desenfreado, onde fica “proibido” por alguns discursos, que os pais frustrem seus filhos.

Existe quase um “dever” na conjuntura atual, de que os pais deem “tudo” o que seus filhos pedem, e isso é uma loucura que só poderá trazer sofrimentos, tanto para os filhos quanto para os pais.

 Podemos concluir que o tratamento psicanalítico é muito importante na infância?

Correto, quando uma criança tem a oportunidade de fazer análise, coloca para trabalhar seu inconsciente e isso a ajudará a resolver as questões psicopatológicas que estão impedindo-a de crescer,  que podem ser decorrentes de traumas sofridos, de demandas contraditórias de seus pais, conflitos com irmãos, sofrimentos com alguma doença orgânica recorrente, etc. e a análise lhe possibilitará desenvolver recursos psíquicos para enfrentar as situações de sua vida e isso as ajudará a atravessar uma adolescência sem grandes conflitos – salvos os que são comuns a essa fase – e assim poderão ter uma vida mais equilibrada e saudável.

E não é somente a criança que se beneficia da análise, pois os pais também são tocados por essas mudanças. O analista também os escutam, mas não pode confundir o lugar de um e de outro.

Andreneide Dantas

Psicanalista

#psicanálise #análisecomcrianças #psicoterapiainfantil

2 Comentários

Deixe um comentário Cancelar resposta