A Importância do atendimento psicológico para pacientes com câncer de mama

  1. Qual é a importância de uma sessão de terapia para um/uma paciente com câncer de mama?

É de fundamental importância que os pacientes com câncer possam fazer não somente uma sessão, mas um tratamento psicológico para poderem falar desse momento tão difícil em suas vidas. Pois, os médicos vão tratar o órgão doente, o organismo. Visto que o sintoma para a medicina é diferente do sintoma na psicanálise. Os médicos investigam e fazem as intervenções que são importantes e das quais eles dispõem: cirurgias para a retirada ou não das mamas, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia para tratar e matar as células cancerígenas.

O tratamento psicanalítico vai tratar o sujeito que está doente, para ele poder falar, produzir discurso sobre o que está afetando seu corpo.  Para que possa subjetivar seu sofrimento. O tratamento medicamentoso é o mesmo para a maioria dos pacientes, salvo quando a descoberta é no início ou em estágio mais avançado.

Na análise o paciente vai falar da dor que sente, e não estou falando somente da dor física, estou falando da psíquica diante da perda de um órgão tão importante quanto as mamas. Fala do medo da morte, da angústia diante de uma doença tão grave.

 

  1. Você já consultou alguma paciente com essa doença? Se sim, como foi sua experiência?

 

Sim, já tratei e foi muito importante que essas pacientes, eram todas mulheres, pois o câncer de mama atinge 1% dos homens somente, fizessem análise. Então, na minha experiência tratei de pacientes mulheres.  Elas puderam falar da angústia, do medo da morte, medo de perder a mama, da cicatriz que ficaria, se os parceiros iriam estranhar, se iriam rejeitá-las, deixar de amá-las, desejá-las. Falaram da angústia diante da eminência de perder os cabelos, cílios, de como iriam ficar, o que causariam nas outras pessoas, como seriam olhadas na família, nas ruas.

E digo mais, o resultado da quimioterapia ou outro tratamento também depende do que é produzido em discurso por essas pacientes. Todos sabem que nem todos os pacientes que fazem o tratamento se curam. Vai depender, e muito, do psicológico dessas mulheres. Se elas duvidam, se acreditam que vão se curar.

Foi importante também para essas pacientes que elas analisassem sua forma de agir, se perguntaram, diante desse momento, o que era importante para elas, o que podiam mudar em suas vidas. Para poderem voltar a desejar e terem motivos e objetivos para se curarem.

 

  1. O que os familiares e pessoas ao redor dessa pessoa, precisam entender e fazer para ajudá-la da melhor forma?

O apoio da família e parceiros é fundamental! Pois, elas ficam muito fragilizadas pelos motivos que elenquei acima, e ter o apoio, a ajuda das pessoas que ama é muito importante. Isso lhes dará forças para prosseguirem, para enfrentarem as sequelas dos tratamentos e saberem que podem contar com seus familiares e amigos, pode mudar toda a dinâmica do tratamento.

 

  1. Nem todo mundo tem condições e tempo para uma sessão. Qual conselho, ou dica você dá para essas pessoas?

 

Infelizmente isso é verdade. É lamentável que em nosso país o tratamento psicológico seja tão relegado. Talvez isso tenha mudado, um pouquinho, nesse momento tão sombrio que vivemos. Com a pandemia do Covid 19 ficou patente a importância desse tratamento. Que é tão importante quanto o tratamento medicamentoso. Eles não são excludentes, são complementares. Por isso é necessário que toda a sociedade se una para pedir, exigir que nos hospitais, ambulatórios, Prontos-socorros, AME, tenham psicólogos e psicanalistas. Os planos de saúde também não se atentaram para o fato da importância desses tratamentos para que os pacientes possam ser tratados tanto físico quanto psiquicamente. E inclusive isso facilitaria para eles, visto que os pacientes adoeceriam menos.

Não é um conselho, mas uma orientação: falem sobre o que sentem com sua família, com amigos e busquem tratamento psicológico. Revisem suas vidas, o que estão fazendo, que hobbys têm, o que fazem com seu tempo quando não estão trabalhando, se sonham, o que sonham, quais os desejos. Esse é um momento não só para fazer os tratamentos que tem que fazer, mas de se olharem, pensarem no que gostam, de como podem melhorar suas vidas.

 

  1. Na sua visão, você acha que a pessoa com câncer de mama sente todas essas sensações devido a uma mistura desse processo doloroso, ou por medo, ou tudo junto… como você explicaria isso?

 

Sim, são muitos sentimentos. Em psicanálise entendemos e lemos o sintoma de outra forma. Ele é uma mensagem, é algo que acontece na vida dos sujeitos e é importante que se questionem como estão vivendo suas vidas, o que podem mudar. Pois, nós somos um ser, não somos mente e corpo, psique e corpo. Temos um corpo e uma psique e o que falamos, escutamos, deixamos de falar, o que pensamos, afeta diretamente nosso corpo. Um exemplo bem claro: quantas vezes as pessoas tem dor de garganta e quando conseguem associar se dão conta de que “algo ficou parado na garganta”. Que por pensarem muito, tiveram dor de cabeça, que suas enxaquecas têm relação com o que acontece em suas vidas. Que têm às vezes uma dor difusa e vão ao médico e não tem uma explicação médica. Isso não é fingimento, isso não é “nada”. É o corpo afetado pelo que acontece com essa pessoa. Às vezes pelo que aconteceu na infância, resultado de abusos, traumas sofridos, experiências que não foram entendidas, não foram faladas e não foram subjetivadas.

 

  1. O que você acha importante dizer para as pessoas a respeito desse assunto, de uma visão de uma profissional? O que você acredita que elas precisam entender?

Que falar traz consequências, que tanto podem ser boas quanto ruins. Que falar pode ajudá-las a entender sentimentos a aliviar angústias e isso as afastam de um real traumático ou ameaçador. E falar em um tratamento psicanalítico faz com que elas acessem seu material inconsciente, que falem sobre os acontecimentos que marcaram sua vida. Para poderem dar outro sentido para o que lhes aconteceu.

 

  1. Como falar sobre o assunto com a família?

 

Falando o mais claro possível sobre o que está sentido. Sei que não é fácil, até porque em nossa cultura fomos ensinados a não verbalizar o que sentimos. Quantas vezes uma mãe fala para um filho: não chore, não fale, não seja fraco., isso logo passa. Quando crescer passa. Não, não é verdade que com o tempo passa. Às vezes só piora. Então é importante falar com os parceiros e filhos sobre o que sentem, e pedir para eles falarem o que estão pensando. Pois, às vezes estão tomados de medo de perder a mãe!

Falar possibilita colocar em palavras o que estão sentindo no corpo e falar em análise, possibilita desangustiar e descobrir a causa inconsciente do adoecimento.

 

Andreneide Dantas

Perguntas feitas pela Victória Parada Daros da @_pinktarget na (Live)  do dia 21/10/21

Para assistir acesse: https://www.instagram.com/tv/CVT3Z9tppSI/?utm_source=ig_web_copy_link

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Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

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