A Maldade que impera em algumas Famílias

Primeiro quero agradecer a presença de todos que se dispuseram a vir trabalhar conosco nesse final de semana, sobre um assunto tão importante quanto espinhoso. Quero dizer também, que acredito que cada um de nós sairemos com alguma mudança, pois é isso que uma interlocução entre vários discursos proporciona.

Escolhi trabalhar sobre a maldade que existe em uma das instituições mais antigas, e que também é a mais importante: A FAMÍLIA.

Alguns de vocês podem estranhar, pois o que conheceu em suas famílias pode ter sido a harmonia, o amor e o bem-estar. Porém esses sentimentos podem ser um privilégio de poucos. Para outros, esses atributos são vistos somente nas propagandas de TV. Infelizmente o que encontramos nessas outras famílias, é falta de amor, carinho, respeito e segurança.

Existem homens e mulheres que não conseguem ocupar a função que lhes cabe: a de pai e mãe.  Por motivos que discutiremos no decorrer dessa jornada, ficam em uma posição infantilizada, equivocada e sintomática.

No primeiro cenário – quando um pai e uma mãe sabem quais são seus lugares – existe uma assimetria, uma hierarquia entre pais e filhos, onde o lugar de cada um fica definido e estabelecido. Sendo claro que um filho só poderá ocupar esse lugar se primeiro o pai e a mãe ocupam o deles. Isso não significa que mesmo nesse caso, não encontremos sintomas, problemas a serem questionados e resolvidos, já que a família perfeita não existe. já no segundo cenário, encontramos uma ausência de leis que oriente e estabeleça o lugar de cada um.

Para citarmos Levis Strauss:

“ o que diferencia realmente o homem do animal é que, na humanidade, uma família não seria capaz de existir sem a sociedade, isto é, sem uma pluralidade de famílias prontas a reconhecer que existem outros laços afora os da consangüinidade, e que o processo natural de filiação somente pode prosseguir através do processo social de aliança”.(Levi Strauss A Família 1956)

Isso significa, que para a constituição de uma família, a união de um homem e de uma mulher; dois homens, duas mulheres, uma mulher sozinha e etc, é tão importante quanto à proibição do incesto.

Quer seja de uma forma ou de outra, o fator principal é a base onde ela está alicerçada: a proibição do incesto.

Para sermos mais realistas, é importante agregarmos que para a criação de uma vida, é necessário a união de um homem e de uma mulher, (se for em uma relação sexual), ou se for por uma fertilização in vitro, a união de um esperma e de um óvulo. Mas, para a constituição de uma família, é necessário o desejo de cada um em se tornar pai  e mãe.

Não quero fazer um estudo antropológico nem sociológico da família, e sim falar sobre aquelas famílias onde a proibição do incesto não é respeitada. Aquelas em que os pais em vez de proporcionarem segurança e proteção aos seus rebentos, os tratam como objetos, para satisfazerem suas perversões sexuais, e dessa forma colocam as crianças diariamente expostas a agressividade, violência e maus tratos, causando feridas profundas na ‘alma’, no físico e no psíquico delas.

Quem trabalha no jurídico e em algumas Ongs que atendem crianças e adolescentes, se deparam inúmeras vezes com situações de perversões e maldades como essas que descrevi.

Vocês podem  perguntar: Porque essas coisas acontecem?

Para debatermos a respeito, recorro a psicanálise, que orienta meu trabalho diário. Pois cada um se orienta e trabalha com aquele discurso que escolheu,também é verdade que a psicanálise ajuda outras práticas discursivas, já que ela é um tratamento através das palavras, da linguagem, para tratar e modificar a forma de gozar e o desejo de cada um. É um tratamento que incide diretamente naquilo que é conhecido pela maioria, como o maldito, a maldade, que até foi considerada por Sigmund Freud como o demoníaco.

Essa maldade foi estudada por ele como “o mais além do princípio do prazer” e em Lacan com a denominação de gozo. É importante ressaltar que esse termo em psicanálise não tem o mesmo sentido comumente conhecido, como o gozar da vida, usufruir a vida, ou gozo sexual. Trata-se de uma espécie de satisfação, que existe além do prazer, algo que se assemelha a um prazer no desprazer, na doença, no sintoma ou no mal-estar. Como se fosse um ganho no infortúnio, na maldade, para ficarmos no tema da jornada.

Essa satisfação doentia encontramos nessas famílias mutiladas, sofredoras, desagregadas. Famílias doentes, que mesmo sabendo que seu filho é molestado pelo irmão mais velho, faz de conta que não viu. De um homem que persegue sua filha para apalpar suas partes íntimas; outro foi mais longe na perversão e estuprou sua filha e procriou com ela.

Para citar casos conhecidos de todos através da mídia, vimos o monstro austríaco que encarcerou sua filha e com ela procriou  privando-a de liberdade, acesso à educação e saúde. Para não irmos tão longe geograficamente, temos um caso do homem no nordeste, no qual encarcerou as filhas, as violentou diariamente culminando em gravidez.

Esses são exemplos nos quais cotidianamente essas crianças e adolescentes são expostos a situações de violência para satisfazer a perversão sexual, o sadismo desses homens.

Também encontramos crianças que são expostas a outros tipos de maldade, na qual  a agressividade e a violência não são físicas e sim, verbais. No qual pai e mãe agridem seus filhos com palavras que marcam e atrapalham o desenvolvimento psíquico e até o desenvolvimento físico deles. Se essas crianças não encontrarem um adulto que as ajudem (que podem ser avós, tios, vizinhos ou professores), estarão à mercê do que de pior existe e terão graves consequências.

Em alguns casos somente com a análise é que alguém se livra do peso da herança maldita que recebeu.

Pois se não for assim, o peso do ódio e da violência sofrida outrora, é repetido em seus comportamentos, e isso faz com que outra vez o ciclo reinicie gerando uma cultura de pulsões negativas, de pulsão de morte que poderá ser renovada através das gerações.

Nos casos que estamos vendo, os pais, por terem recebido sentimentos de ódio, repetem com seus filhos o mesmo. Esses homens e mulheres tomam seus filhos como objetos de satisfação para seus sentimentos perversos, não são orientados pelo desejo de ser pai e mãe. O que impera não é o amor e sim o ódio. Eles são semelhantes ao pai do mito da horda primitiva, que Freud descreveu Urvarter, ‘um pai violento, ciumento, que guarda pra si todas as fêmeas e expulsa seus filhos à medida que crescem’. São pais que não amam seus filhos, o único que lhes interessa é que eles satisfaçam suas necessidades sádicas.

Esse pai terrível é aquele que coloca a lei para os outros, porém ele próprio não se submete a ela. Não foi possível para eles renunciarem a esse gozo mortal, pois não receberam uma lei que colocasse limites ao gozo da pulsão de morte.

Aliado a isso, vemos na nossa sociedade atual, uma cultura que propaga a impunidade.

Aqui, encontramos o prazer na repetição do mesmo, ou gozo na repetição.

No texto “Além do Princípio do prazer”, “uma pulsão é um impulso inerente à vida orgânica, a restaurar um estado de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de plasticidade orgânica, ou, para dizê-lo, a força da pulsão é tão forte e pode ser tão destruidora que se assemelha ao demoníaco!”. Elas são conservadoras, adquiridas ao longo da história da humanidade, mas que no seu cerne tendem sempre a voltar ao estado anterior das coisas.

Isso significa que as pulsões sempre querem se satisfazer, não importa como.

Existe no ser falante um princípio desde o início da vida um Princípio de Prazer (Freud), que rege a psique humana, e que faz com que o sujeito busque o prazer, mas desde o início é ineficaz. Depois, esse princípio é substituído pelo Princípio de realidade. Princípio esse, que é regido pela espera, ou pelo adiamento para a obtenção do prazer.

Temos o princípio de prazer e o princípio da realidade e na compulsão à repetição encontramos uma obediência ao um além do princípio do prazer, ou em termos lacanianos, uma obediência ao gozo!

O próprio destino é entendido por Freud como um ‘arranjamento pelas pessoas segundo uma determinação de influências infantis primitivas’. Nesses termos, o destino é entendido como algo repetitivo, enquanto compulsão à repetição. Porque existe na psique de todo ser humano uma compulsão à repetição que sobrepuja ao princípio de prazer. Ela é algo que quer se satisfazer, como eu disse antes, não importando a forma. Assim, ela pode se satisfazer tanto na doença, nas dores, nas inibições, quanto na pintura, na leitura e no prazer.

Freud descreveu as pulsões em dois tipos: Pulsões de vida e Pulsões de morte, como o próprio nome sugere, uma leva ao bem-estar e prazer e a outra empurra o ser falante para o sofrimento, para a dor. Importante citar que Lacan lendo e reformulando o que tinha lido em Freud reconheceu que no final das contas toda pulsão é pulsão de morte.

Talvez isso fique um pouco mais claro quando entendemos que as duas pulsões coexistem durante toda a existência e é necessário um trabalho para mantê-las operando dentro dos limites do princípio de prazer.

Não existe um ser humano que não tenha sentimentos e paixões ambivalentes, pois isso significa que não encontramos pessoas que sejam totalmente boas ou totalmente más, e sim pessoas que são boas em um determinado sentido e más em outros. Alguns que se acreditam ‘bonzinhos’ e se descobrem que por querer fazer somente o que o outro quer são violentos consigo.

Na infância já temos uma demonstração desses aspectos, quando nos deparamos com crianças que em uma determinada fase de vida, entre 2 e 5 anos, se satisfazem em atormentar outras crianças ou maltratar animais. De forma menos agressiva, também podem nas brincadeiras arrancar a cabeça das bonecas, riscar seu corpo, ou quebrar carrinhos, os seus e os de outras crianças.

Isso pode constituir para alguns, uma fase do desenvolvimento e mais tarde, ‘aqueles que, enquanto crianças, foram os mais pronunciados egoístas, podem muito bem, tornar-se os mais prestimosos e abnegados membros da comunidade’;…“A maioria dos sentimentalistas, amigos da humanidade e protetores de animais, evoluíram de pequenos sádicos e atormentadores de animais. (Freud- Reflexões para os tempos de guerra e morte,1915).

É verdade que essas transformações vão depender de fatores internos – como a escolha do amor – e, também dependem de fatores externos. Aqui é necessária a grande contribuição da família e da educação.

O que precisamos entender é que as crianças são seres indefesos que necessitam de cuidados básicos e de garantias de proteção, de amor e de respeito.

Trabalho apresentado na Jornada “A Banalidade do Mal (versão completa) e em vídeo (versão compacta) do ITM 2010

 

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

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