A Primeira Sessão

Documentário de Gérard Miller, analisado por 8 anos, realizou uma produção sobre a experiência de análise com France 3 Paris, Ile-de-France Centre e Morgane Production.

Produzido por Gérard Pont et Gérard Lacroix.

Esse magnifico filme-documentário nos leva através das cortinas do teatro para uma aventura parecida com a aventura que um analisando empreende no seu trabalho de análise. Gérard nos lembrou a tese de Freud e Lacan, e através da cena do filme adentramos para falar da “outra cena” em que somos um ator cego!

Os depoimentos, muito bem situados, relatam o que acontece na análise. Com o depoimento da experiência dos 16 analisandos à fala dos psicanalistas e produtores, podemos constatar o que leva alguém a buscar falar com um Outro para saber o que fazer com que lhe acontece. Para acessar essa língua estrangeira que falamos, repetidas vezes, e não sabemos o que ela significa.

A psicanálise suscita resistências a ponto de causar medo em alguns, como situou Charles Berling – comediante.

‘Medo de sofrer uma devassa profunda e quase sobrenatural.”

Ou “de ficar alienada e depender do analista e de reconhecer que não estava bem e tinha problemas’ Isabelle Montourcy, inspetora de Trésor

‘Medo de perder coisas que gostava, de bagunçar minha forma de ver as coisas’ Àgnes Becker

Ou de passar por raio x de forma definitiva desse outro. “Bater na porta do analista é passar para o outro lado do espelho. Dar um passo” (Patrice Leconte -rèalisateur)

As resistências em procurar uma análise podem ser muitas, porém é importante enfatizarmos que somente quando a satisfação encontrada no sintoma desestabiliza é que alguém busca uma análise.

Antes disso, pode passar anos, sofrendo como pobre coitado, em um mal-estar e sofrimento que aos olhos dos pares pode ser incompreensível; “um verdadeiro inferno”.

A psicanálise nos ensina que aquele que goza de seu sofrimento, não o larga facilmente, pois não é fácil trocar esse gozo por outro. Por obter satisfação.

Alguns levam muitos anos, muitos atos, para nos atermos ao teatro, como no filme, ou, porque “achava que não era para mim e sim para pessoas como Woody Allen”. Ou que “era besteira, não fazia parte das Antilhas, (Yann Lucina, marketeur); ‘é besteira, uma vez que é para loucos, bitolados, achava que os normais não iriam’, (Karl Lagerfeld) ou fracos.

E o que leva alguém a buscar um território desconhecido e tão enigmático quanto à análise?

O que leva alguém a visitar “os bastidores de nosso destino?” (Charles Berling)

Não é somente uma curiosidade intelectual, como lembrou Gérard Miller, e sim uma escolha diferente de todas que o sujeito fez até então, alguém tem que se perguntar sobre sua existência, sobre o que está fazendo.

Geralmente quando os pacientes chegam e fazemos a pergunta: “Por que veio?”, respondem, “que são muitas coisas, deveria ter vindo há muito tempo”.

Um tempo que compreende, “uma série de fracassos repetidos, onde não se comprometia com o que desejava” (Gilles Aspinas, educador)

Inibição, “estava travado e não sabia porque”.

Para curar a cegueira na qual se encontra ou ‘precisava falar com alguém para deixar de avançar de olhos fechados’. (Pascale Bocciarelli- professeur)

Pode procurar por “não suportar mais viver com uma inibição em fazer aquilo que mais ama”, como apontou Marie Darrieussecq, ou na preguiça de viver, uma das formas de depressão, falta de desejo que para muitos é escamoteada com ajuda de psicofármacos.

Pode ser por “um buraco deixado depois da morte de um ente querido”, “uma fratura que ficou depois da morte do pai’ (Carla Brunni, cantora e ex-primeira dama da França).O luto pode ser pela morte de um ente querido ou pelo abandono sofrido por um amor. Gérard Loussine buscou a sua depois que a mulher o deixou ‘Eu tinha que saber porque ela tinha ido embora, pois sei que as coisas não são gratuitas”. Que dignidade querer saber qual sua participação no que lhe aconteceu!

Outros, buscam quando não suportam mais viver sobre o peso de seu superego, esse ‘ditador’ que pode ser tão rigoroso e carrasco que não deixa o sujeito ficar quase nenhum momento despreocupado, ou desangustiado, como retrata o jornalista Marc Olivier.

Esse trabalho também pode ser buscado, para ter um lugar para ‘desmoronar, chorar, se deixar levar’ (Valèrie Drouart, administradora).

Seja por não suportar seu sofrimento ou por não se reconhecer mais em relação ao que gostava de fazer.

A escolha de recorrer a um analista pode demorar, ou não acontecer, por conta de muitos pré-conceitos:

  • É muito caro
  • São muitas vezes por semana
  • Tem que deitar-se no divã
  • O analista não fala nada

O filme mostrou a importância de desmitificarmos a psicanálise lacaniana, pois não existe uma regra fixa, não tem que ser 1,2, 3 ou mais sessões por semana. E o valor da análise não é fixo.

Cada caso é um caso, como aprendemos com Freud. Cada analisando é um sujeito com sua história, sua subjetividade, sua singularidade e sua condição econômica.

Mas uma coisa é certa, a análise deve ser cara. Porém, o caro não significa que seja impossível. O caro diz respeito a importância que cada um dará a essa experiência de transformação. Um analisando pode começar pagando o que pode e depois, podendo cada vez mais, aumenta o valor pago por sua sessão de análise.

O filme mostra que a escritora Marie começou pagando um valor módico, e quando sua análise lhe possibilitou trabalhar e superar suas inibições pôde escrever um livro (Porcarias), foi quando seu analista aumentou, bastante, o valor da sua sessão.

A experiência de análise possibilita àqueles que, empreendem essa travessia na língua, acessar o mais íntimo dele mesmo, o que essa aventura que “não nos cura de nós mesmo, mas que, pelo contrário nos reconcilia com nossa própria história” é que possa falar e escutar verdadeiramente o que diz, falar e saber o que está nas entrelinhas de seu dizer, para poder desfazer equivalências sintomáticas, quebrar identificações com figuras parentais que o alienavam.

Quebrar crenças enlouquecedoras, descobrir a causa de seu gozo, não sem antes se libertar da prisão de estar sobre o julgo do Outro. Esse que não existe!

Dessa forma podem descobrir os impasses de seu desejo. Alguns podem voltar a estudar, concluir cursos deixados pelas esquinas da vida, descobrir o porquê de seus fracassos amorosos, das repetições que outrora ‘estava escrito nas páginas do destino’ ou na ‘praga familiar’.

A experiência de análise é singular e abre a possibilidade do sujeito ser protagonista de sua história e não um mero espectador. É acessando, isso que insiste, que o sujeito pode se encontrar com o que que lhe é mais íntimo: seu Sinthoma, sua assinatura. Para poder avançar de olhos abertos, escutando o que ele e os outros dizem, sem as amarras da prisão que o encarcerava em outra cena.

 

Andreneide Dantas

Leitura sobre o filme “A Primeira Sessão” que foi apresentado e discutido em duas apresentações no Instituto Tempos Modernos, com a presença do público e debate com psicanalistas do ITM em 2019.

Link para visualização: https://youtu.be/bMK9hjJX3Zo

Agradeço a Gerard Miller que nos autorizou a veicular o filme para fazer o debate.

 

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