A transitoriedade da vida

A linguagem é o que determina o ser. Por isso todo ser humano está submetido à linguagem já que ela pré- existe a todo vivente. E é deste lugar da linguagem que somos seres falantes e por isso mesmo, mortais.

Quando nascemos nos nomeiam e quando morremos somos inscrito na nossa sepultura. Somos exigidos a sepultar nossos mortos em sua última morada inscrevendo nos jazigos a duração da vida e o nome próprio daquele ser humano que se foi. Então, para a realidade humana não há outra realidade que a discursiva.

O organismo que é constituido como uma estrutura anatômica é modelado e recortado pelo trabalho cirúrgico do significante.

As histéricas demonstraram isso muito bem ao nosso mestre vienense. E após o seu ensino não podemos mais acreditar na existência de um organismo e sim, só podemos escutar o murmurar de um corpo.

Nos tempos modernos, a nossa sociedade é dominada pelo mito da beleza, junto com a busca pela eterna juventude. Quando conseguimos ultrapassar a dita idade madura chegamos numa onde o ser humano é chamado de idoso.

  • E ai ?

 

  • Paramos ?

 

  • Estagnamos ?

 

  • Retiramo-nos da vida submersos na depressão.? Vamos viciar nossos corpos, a cada dia que passa aumentando as doses das drogas ditas legais até chegarmos a uma overdose?

Escuto de uma paciente de 50 anos “…depois de uma certa idade tem que se incucar e esquentar a cabeça com doenças.”

Este significante depressão está, hoje em dia, amplamente generalizado. E com isso aumenta-se o número de seres impotentes, apáticos, frustrados, tristes e desanimados. Desde Aristóteles já existiu os estados depressivos. Mas a depressão no final do nosso século está, não como um estado e sim, como uma epidemia. Isto é resultado do capitalismo e dos avanços das ciências neurobiológicas.? Onde o mercado facilita o acesso do consumidor a adquirir quantidades variáveis de antidepressivos. Foracluindo o sujeito do seu estado depressivo podendo provocar uma nova Toxicomania.

A medicina muitas vezes esquece que há um corpo doente. E passa a tratar o orgão, a doença sem considerar que somos seres falantes e que falar tem consequências no corpo. Por isso, muitas vezes, tratam a doença e não o doente. E mais, esse esquecimento podem fazer com que aquelas que estão perto do fim não tenha uma morte digna.

Como disse no início, ao nascermos tomamos nosso primeiro banho de linguagem. Será que poderemos sair deste banho morrendo com dignidade, isto é, como seres falantes que somos?

Vamos apoiar e acompanhar a violência com que, muitas vezes, a política e a ciência tratam o idoso – fazendo dele um doente incurável.? Vamos fazer do idoso um ser mudo e impotente? Vamos impor ao idoso o temor à vida para fazê-los temer a morte?

É bastante lastimável a situação da maioria das instituições para idosos. Eles são abandonados pela família, ao longo dos anos, em instituições oficiais ou privadas. O abandono que sofrem estes seres humanos é cruel. É possível fazer algo para evitar que esses seres humanos vivam como párias, isto é, como seres excluidos da sociedade, nas instituições fechadas hoje existentes?

Vamos exilar os velhos da língua e impedi-los de fazer laço social?

Segundo Lacan, quando a vida é desapossada de sua fala o sujeito se depara com o masoquismo primordial. Quantas vezes ouvimos de alguns idosos que “…agora já não prestam para nada e que a vida perdeu sentido…” – esquecendo e anulando o que fizeram.

A palavra nos apunhala, mas por outro lado é o maior bem do homem. E é o que pode tornar mais suportável a condição humana. Suportável pois, originalmente, a dor de existir é primordial. Há dor no nascimento, no envelhecimento, na doença, na separação daquele a que se ama. Há dor quando não obtemos aquilo que desejamos.

A dor é associada ao vazio de ser do sujeito, ao ser de carência. Pois não há ser completo. A falta é estrutural; e esta falta se chama desejo, é onde se articula o desejo.

Continua no próximo artigo…

Neusa Laís Coelho
Psicanalista

Escola da Causa Analítica – (021) 2236-0563

 

 

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