Sobre a dor e o adoecer na infância e adolescência

A noção de corpo para a psicanálise vai além do orgânico, é um corpo atravessado pela linguagem, erógeno e pulsional. O sujeito não é um corpo, ele tem um corpo, e através dele pode representar-se, se reconhecer e ser também um repositório onde o inconsciente se manifesta na demanda, na fantasia, nos sintomas e nos desejos, sendo um corpo orgânico e pulsional.

À passagem do corpo biológico para o pulsional começa com as experiências vivenciadas pelo bebê e sua mãe, em que inicialmente o corpo materno é para ele uma extensão de si, não existindo separação e sim uma completude, é uma satisfação plena. Com o tempo, o bebê vai percebendo que possui um corpo que é separado, que o seio não faz parte dele, primeira sensação de vazio, desprazer e dor.

A criança vivencia a experiência de presença e ausência da mãe, a falta. A vida psíquica se encontra em andamento, a criança já começa a usar seu corpo para simbolizar a falta através do choro. Ela chora quando quer algo, ou seja, o chorar já possui um significado (muitas vezes até as mães interpretam esse choro: acredito ser fome, ou sono, etc.) este já é o corpo que fala antes mesmo de entrar na palavra.

O bebê já aprende a obter satisfação no real do seu corpo para acalentar a falta e diminuir seu desprazer, como o fazer movimento de sucção na boca para acalmar a fome, o dedo na boca. Esse é o corpo erógeno, tal qual Freud nos ensina.

Desde o nascimento, o sujeito não está disposto a perder o sentimento de completude que teve no começo da vida, apesar dessa perda ser fundamental e necessária que ocorra, ninguém se conforma em perder e vai buscar de forma inconsciente uma constante reparação desse vazio. Esse é o movimento das pulsões, buscar satisfação nem que para isso utilize o real do corpo como sintoma. Obviamente, que esse vazio vai sendo substituído por releituras dele, não é que o sujeito fique querendo estar ligado a mãe, mas que a partir daí a busca por satisfação plena fica sendo constante e a sensação de desprazer sendo um afeto difícil de ser aceito ou compreendido pelo psíquico, falando de forma extremamente resumida.

Para compreender melhor esse mecanismo da utilização do corpo como sintoma, Freud denominou pulsão de morte. Que se refere há algo fora do domínio do prazer, causando sofrimento. O que Lacan veio chamar gozo, não no sentido do prazer sexual, termo que retirou do direito, para falar sobre seu caráter de excesso, usufruto do inconsciente, de uma satisfação na dor.

A dor e algumas doenças possuem uma profunda ligação com o inconsciente.

Aquele acontecimento, pensamento ou fantasia vivenciado pelo sujeito como traumático e que não consegue ser elaborado, por vezes, possui uma carga excessiva de desprazer produzindo um afeto tão insuportável que fica impossível de ser acessado pela consciência. Não sendo possível encontrar palavras para simbolizar ou representar de forma saudável o ocorrido, essas pulsões vão se localizar no corpo, através da dor ou da doença.

Poderíamos pensar a questão da dor a partir de dois vieses, um em que se coloca o recalque, a formação de compromisso para estruturar a dor como um sintoma, e o outro seria o da compulsão a repetição, ou seja, aquilo que se repete na tentativa de elaborar um evento vivenciado como traumático. Sendo a dor apresentada no corpo, mas sem representação no inconsciente. Essas são as psicossomáticas e as conversões.  Sendo que, nas duas, sempre se trata de algo que não foi elaborado.

Voltando aos exemplos da criança. Quando algum evento desagradável, ocorre, uma queda, quando os pais brigam com a criança, às vezes ela pode responder a isso ficando sem apetite, tendo insônia, enurese. São sintomas simples que passam em alguns dias, quando a criança percebe que os pais continuam os mesmos, que se sente amada e segura, conseguiu elaborar o ocorrido.

Em outros casos, quando já são maiores, conseguem falar a maior parte de seus desejos, suas vontades, seus medos, mas sempre algo escapa de sua representação, nem tudo é compreendido e elaborado, como também não o é com o adulto.

A doença aparece quando a realidade interna ou externa a ameaça e escapa de sua compreensão.

Em crianças: relação familiar conflituosa, a entrada na escola, mudanças de casa ou no contexto familiar, mãe narcisista, violência, abuso sexual.

Na pandemia aumentou a ansiedade, o medo de adoecer ou da morte, assim como a ansiedade e a irritação, entre outros.

No adolescente:  sensação de inadequação física ou emocional, bullying, as paixões (quando o narcisismo se volta para o objeto, ocorrendo o apagamento do eu), abuso sexual, violência, as mudanças no corpo, as questões de gênero, sexuais e a própria situação da adolescência, onde não são mais crianças e, também não são adultos, um momento de “não saber” próprio desse período é o momento que eclode uma série de sofrimentos.

Quando esses acontecimentos não são bem explicados pelo adulto, a criança não conseguindo elaborar de forma adequada no psiquismo, cabe ao corpo ser o repositório desse sofrimento.

A dor seria como um código, símbolo que indica que algo não vai bem, que ali se encontra a marca de alguma situação que o sujeito não está conseguindo resolver.

Sim, é um pedido de ajuda onde o corpo grita, fala e transmite uma mensagem.

O sujeito encontra na doença formas de ser ou de estar na vida ou na própria família, pode ser um jeito que encontrou para estar perto ou se afastar de alguém ou alguma situação. Daí vem aquela história do “ganho secundário”.

O sujeito experiencia um tipo de relação com a dor, é exatamente disso que se trata, uma relação muito íntima com a doença e com a dor, por isso que escutamos com muita frequência: “minha enxaqueca já vai começar”, “minha febre ontem foi de …”,” está vendo! Já quero ficar resfriada de novo! É sempre assim! ” Sou doente e não tenho uma essa doença, “meu médico” e por aí vai. Existe um apego com a dor às vezes a pessoa tem dificuldade em ser sem a dor.

Outra função para a dor é reter a dor em um único lugar, não pensar ou sentir outras dores além daquela. Nesse caso o doente não tem que enfrentar outras situações que para ele são insuportáveis (um familiar com uma doença terminal, um chefe abusivo, uma família que não suporta) o sujeito se isola na dor que escolheu.

Uma criança pode adoecer depois do nascimento do irmãozinho, são inúmeros os relatos de casos de pneumonias e outros problemas respiratórios, problemas de pele, estômago, as crianças são hospitalizadas por várias vezes. Dessa forma mortífera, através da dor, encontra uma forma de estar com a mãe só para ele, outra vez. Um caso clássico de um acontecimento que não foi elaborado e vivido como um trauma, transformado em sofrimento.

Importante que os cuida/dores possam ter sempre esse olhar para a dor, que pode ter uma origem psíquica. É esse olhar que vai possibilitar compreender a subjetividade da dor e da doença passando a ser a dor de cada um, a forma com que cada um sente e adoece. Que esse sofrimento porta um dizer!  Escutar a história da criança, a história da dor, observar seu comportamento e a dinâmica familiar. O que essa dor fala para essa criança e para essa família?  Pedir para falar sobre sua dor, quando começou, o que estava acontecendo na vida dela, nessa época. Se entender necessário, encaminhar para uma escuta mais especializada.

 

 

Ana Carlênia Oliveira Bastos

Psicanalista

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